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Edição 1 717 - 12 de setembro de 2001
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Shakespeare no Piauí

"Mandar matar alguém custa
entre
1 000 e 3 000 reais.
Metade
dos pistoleiros é
formada
por policiais"

Quanto custa mandar matar alguém? Coloquei-me a pergunta cerca de dois anos atrás. Eu não tinha um intento homicida. Meu interesse era meramente artístico. Na época, estava pensando em escrever um roteiro sobre o mandante de um assassinato, mas não sabia atribuir um valor verossímil à operação. Passei a guardar artigos de jornal sobre o assunto. Desde então, acumulei uma pasta com 44 artigos. Embora não se trate de uma amostragem científica, compõe uma espécie de tarifário atualizado dos pistoleiros de aluguel.

Os últimos a entrar para a minha coleção foram os autores materiais do crime contra os turistas portugueses em Fortaleza. Cobraram 8.000 reais para matar seis pessoas. Uma média de 1.333 reais por morto. É mais ou menos esse o preço de um assassinato no Brasil. De fato, constatei que os matadores quase sempre ganham algo entre 1.000 e 3.000 reais. Há exceções. A morte mais barata que encontrei foi a de um motoboy conhecido como "Macaco Hiena", trucidado com doze tiros por dois homens, a mando de um certo Helinho, que lhes prometeu 100 reais. A mais cara foi a da prefeita de Mundo Novo, Dorcelina Folador, eliminada por políticos corruptos da região, que contrataram o pistoleiro Getúlio Machado por 35.000 reais. Nem sempre, porém, paga-se em dinheiro. A dona-de-casa Sandra Mazoni, para se livrar do marido, deu uma TV de 29 polegadas ao pistoleiro Sandro Divino de Souza. E Júlio César Pelissari, além de desembolsar 6.000, deu um Gol 98 aos assassinos de seus pais adotivos.

Muitas das mortes a pagamento ocorrem no campo. A sobrinha do senador Lúdio Coelho foi acusada de ser a mandante do assassinato de dois membros do MST, tendo oferecido 7.000 reais ao executor do crime, o sem-terra Claudiomiro Santutti. Outro bom exemplo é o do fazendeiro Deoclésio Carneiro, de Dom Bosco, Minas Gerais, que confessou ter pago 1.500 reais para que o lavrador Marcos Pereira assassinasse o sem-terra Sabino Lopes. Deoclésio afirmou que só não fez o serviço pessoalmente porque "bebe muito e é muito ruim de atirar". Aos 79 anos, ele é o mandante mais velho do levantamento. O mais jovem é J.S.S., de 14 anos, que pagou 12.000 reais aos três sujeitos que mataram seu pai.

Metade dos pistoleiros de minha coleção é formada por policiais ou ex-policiais. E 56,8% dos crimes envolvem políticos. Muitas vezes, as duas categorias aparecem juntas, como no caso do ex-policial Paulo Lima, que disse ter recebido 1.200 reais do prefeito de Eulópolis, Paulo Dapé, para matar o radialista Ronaldo Santana. Outro radialista assassinado por ordem de um político foi Zezinho Cazuza, que denunciou as irregularidades administrativas do prefeito Genivaldo Galindo e, por esse motivo, foi morto por Zé de Adolfo, pela quantia de 3.000 reais. Além de políticos que contratam policiais ou ex-policiais para matar radialistas, existem os políticos que mandam matar políticos. O motivo costuma ser a luta sucessória, como a do quarto suplente José Carlos Arruda, que ofereceu 1.500 reais ao cunhado para que ele matasse o vereador Joedis de Oliveira, liberando-lhe uma vaga na Câmara de Paulista, Pernambuco. Ou a do vice-prefeito de Capitão Campos, Paulo Andrade, que, segundo o matador Raimundo de Souza, lhe pagou 3.000 reais do orçamento municipal para matar o prefeito Batista Filho e tomar o seu cargo. Essa história de herdeiro ao trono que mata o rei é puro Shakespeare. Shakespeare no Piauí. Por módicos 3.000 reais.

 
 
   
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