Roberto Linsker/Terra Virgem
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Em Fernando de Noronha
a vida é cara, faltam
água e telefone
e até casar é uma complicação
Gisela Sekeff, de Fernando de Noronha
Para os 50 000 turistas que viajam para lá a cada
ano, o Arquipélago de Fernando de Noronha é
um pedaço do paraíso na Terra. As praias de
areia branca e águas cristalinas são povoadas
por uma fauna riquíssima. Num mergulho, é
possível observar tartarugas, arraias gigantes, milhares
de peixes coloridos e nadar acompanhado por golfinhos rotadores.
A paisagem exuberante faz muita gente considerar o arquipélago
o lugar mais bonito do Brasil. Assim é Fernando de
Noronha que todo mundo conhece, ao menos de fotografia.
O que poucos imaginam é que ali o cotidiano dos moradores
está mais para inferno do que para paraíso.
A falta de infra-estrutura, a distância do continente
e a preocupação com a preservação
da natureza fizeram de Fernando de Noronha um dos lugares
mais inabitáveis do país. O custo de vida
é altíssimo, faltam serviços básicos
como água e telefone, não há transporte
público e a vida dos habitantes é pautada
por um rosário de regras que tornam a simples compra
de um milheiro de tijolos um tormento burocrático.
Todas as regras existentes em Fernando de Noronha foram
criadas para preservar um dos santuários ecológicos
mais preciosos do mundo. E elas funcionam bem. Hoje, apesar
do número de turistas que recebe todo ano, Noronha
é um lugar bem-cuidado. A paisagem permanece praticamente
intocada, os animais estão protegidos e não
há nenhuma ameaça grave à natureza.
Nesse aspecto, é um exemplo a ser seguido em outras
regiões do país. Para os 3 000 brasileiros
que lá vivem, no entanto, a situação
é complicada. Eles estão proibidos de construir
novas casas porque isso agravaria o problema da falta de
água e implicaria destruição ambiental.
Carro novo também está temporariamente proibido
de modo a evitar o crescimento da frota, que atualmente
é de 400 veículos.
Para reformar a casa, comprar um ar-condicionado ou trazer
uma televisão do continente, é preciso ter
uma autorização assinada pelo administrador
do arquipélago, Sérgio Salles. Todos os visitantes
são obrigados a pagar um imposto de 21,28 reais por
dia a título de preservação ambiental.
Como o valor da taxa aumenta com o tempo, quem fica um mês
tem de pagar mais de 1 700 reais. Na prática, até
para casar é necessário pedir a bênção
de Salles. Um noronhense casado com alguém de fora
da ilha tem de provar que pode abrigar o cônjuge para
que ele vire residente e fique isento da taxa. "Se ele ou
ela não tiver condições de acolher
outra pessoa em casa, eu não permito", diz Salles.
"Não posso contribuir para o processo de favelização."
Salles está no cargo há um ano e meio. Indicado
pelo governador de Pernambuco, é uma espécie
de prefeito sem câmara dos vereadores com poderes
quase plenipotenciários. É ele quem decide
quantos carros podem circular pela ilha ou quem pode construir
o quê. Sua missão é zelar pela natureza
do lugar sem tornar difícil demais a vida dos moradores.
Não é uma tarefa simples. O arquipélago
de Fernando de Noronha é composto de 21 ilhas, mas
só a maior, que tem o mesmo nome do arquipélago,
pode ser habitada. A ilha tem 17 quilômetros quadrados
e 60% de sua área está ocupada pelo Parque
Nacional. Sobram 7 quilômetros quadrados para os 3
000 moradores. Atualmente, existem 500 imóveis no
local. Um estudo está sendo feito para reavaliar
o tamanho da população e a quantidade de residências
e carros que a ilha é capaz de comportar. O estudo
deve ficar pronto em agosto. Até lá, ninguém
pode construir.
Ed. Queiroga/Lumiar
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| Silva, com sua casa partida ao meio:
apesar de separado, o casal vive sob o mesmo teto |
As regras de preservação ambiental criam
situações curiosas. Em Fernando de Noronha
é comum encontrar casais divorciados vivendo sob
o mesmo teto. O casamento acaba, mas ex-marido e ex-mulher
permanecem morando juntos até conseguir autorização
para levantar uma nova casa. Desde que se separou, há
seis anos, José Ivaldo da Silva, 36 anos, encarregado
de almoxarifado, vive na mesma casa que a ex-mulher, Luzineide
Moraes. Tudo que o ex-casal conseguiu foi autorização
para construir uma parede dividindo a casa e um muro separando
os quintais. A metade da casa que pertence a Luzineide e
a seu novo marido foi reformada e ganhou pintura nova. A
outra ficou como era antes. "É a única solução,
já que aqui não tem para onde ir", explica
Silva.
Água da chuva Perto de 95% da população
de Fernando de Noronha vive do turismo. As pousadas funcionam
nas próprias residências locais. Para evitar
que o número de pousadas cresça, a administração
controla a entrada de eletrodomésticos como ar-condicionado
e frigobar. A falta de serviços básicos é
crônica. A água, captada da chuva, só
chega de dois em dois dias. Embora existam 450 linhas de
telefone instaladas na ilha, só 29 pessoas podem
falar ao mesmo tempo em virtude do espaço disponível
no satélite. Não há ônibus, e
o quilômetro rodado nos táxis chega a custar
6 reais mais de sete vezes o preço cobrado
no Recife. Por falta de professores locais, as aulas da
única escola do arquipélago chegam em forma
de telecursos, pela televisão.
O isolamento e a distância do continente criam outros
transtornos. Uma pesquisa mostrou que um quarto da população
da ilha já enfrentou problemas com alcoolismo. O
que é apenas uma cervejinha gelada na praia para
os turistas é o programa de todo dia dos moradores
de Fernando de Noronha. O que é apenas uma viagem
de férias para o turista é a casa do ilhéu.
É aí que o paraíso perde a graça.
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