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Luiz
Felipe de Alencastro
O beijo de Blatter
"A
derrota da Turquia pareceu
anunciar-se antes do início do
jogo, no meio-de-campo, quando
Joseph Blatter, o presidente da Fifa,
parou para beijar no rosto Roberto
Carlos e Ronaldo e só apertou a
mão dos jogadores
turcos"
O beijo, como
se sabe, é uma invenção do Ocidente. Em todo caso,
a Bíblia é o primeiro livro a mencionar o beijo. Os
especialistas contam quarenta citações de beijos apenas no
Antigo Testamento. No Cântico dos Cânticos, o beijo é
claramente sensual. Mas, na maioria dos casos, o texto bíblico fala
do beijo filial ou de saudação entre membros da mesma família.
Mesmo assim,
até na categoria de beijos filiais ou de saudação,
a coisa ainda é enrolada, tanto no Ocidente como no Oriente. Os
ingleses, por exemplo, são bastante travados nesse campo. No filme
O Império do Sol (1987), sobre um menino inglês que
passou a II Guerra num campo de concentração japonês,
Steven Spielberg sublinhou deliberadamente o fato. Na cena do reencontro
dos pais com o menino, que não se viam fazia anos, a mãe
se abraça com o filho, mas o pai lhe dá apenas um comovido...
aperto de mão. Agora, por ocasião do jubileu de ouro do
reinado de Elizabeth II, os marqueteiros de Buckingham, meio preocupados
com a reputação de frieza afetiva atribuída a sua
majestade, parecem ter encontrado uma boa solução. Segundo
a imprensa francesa, foram eles que aconselharam a rainha a tomar uma
iniciativa inédita: dar um beijinho em público, pela primeira
vez, em seu filho, o príncipe Charles.
No outro
lado do Atlântico, nos Estados Unidos, não tem nada disso.
Quando o marqueteiro político diz que tem de beijar, está
beijado. Beijo filial, beijo sensual e o tipo mais explícito de
beijo político. Na última campanha presidencial americana,
instado a demonstrar uma fogosa paixão conjugal para se desmarcar
do comportamento adúltero de Clinton, Al Gore convocou as câmaras
de televisão e tascou longo beijo na boca de sua digníssima
esposa.
Na categoria
de beijo estritamente político, mas entre homens que não
são casados, há o registro do beijo que o líder soviético
Leonid Brejnev deu na boca de Erich Honecker, o último dirigente
da Alemanha comunista. Celebrizado por uma pintura no museu do Muro de
Berlim, o beijo entre os dois stalinistas simboliza o servilismo dos comunistas
alemães a Moscou. Depois disso, a União Soviética
desabou, mas o mundo continuou complicado. Primeiro grande acontecimento
difundido na mídia internacional depois da tragédia do World
Trade Center, a Copa do Mundo representa agora, no meio de um planeta
conturbado, uma disputa pacífica e prazerosa entre as nações.
A bela primavera
parisiense torna quase obrigatório sair de casa para assistir aos
jogos nos bares e ouvir a filosofia de botequim que pontua a atuação
das equipes. Na partida de abertura, a vitória do Senegal sobre
a França lavou a alma das comunidades de imigrantes africanos e
asiáticos que enfrentam o batente em Paris e nas grandes cidades
européias. Nas conversas, a bronca dos senegaleses visava aos franceses
que falavam da influência da mandinga na vitória do time
africano. "Se a mandinga tivesse peso, o Senegal seria campeão
do mundo há muito tempo", declarou um irritado diplomata senegalês.
No jogo Japão X Bélgica, à vista dos jogadores japoneses
com o cabelo tingido de loiro, os palpiteiros parisienses diagnosticaram
uma grave crise de identidade no Império do Sol Nascente: vítimas
de baixa auto-estima, os habitantes estavam todos decididos a se transfigurarem
em ocidentais.
O jogo Brasil
X Turquia também ofereceu uma boa ilustração dos
qüiproquós existentes entre os povos. Não estão
em questão a inabilidade do árbitro sul-coreano, a metragem
do lugar do pênalti concedido aos brasileiros nem a parte do corpo
de Rivaldo que recebeu a bolada de Hakan Unsal, o jogador turco. Na realidade,
num bar freqüentado por imigrantes turcos, a derrota da Turquia pareceu
anunciar-se antes do início do jogo, no meio-de-campo, quando Joseph
Blatter, o presidente da Fifa, parou para beijar no rosto Roberto Carlos
e Ronaldo e só apertou a mão dos jogadores turcos.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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