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Edição 1 755 - 12 de junho de 2002
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Luiz Felipe de Alencastro

O beijo de Blatter

"A derrota da Turquia pareceu
anunciar-se antes do início do
jogo, no meio-de-campo, quando
Joseph Blatter, o presidente da Fifa,
parou para beijar no rosto Roberto
Carlos e Ronaldo e só apertou a
mão dos
jogadores turcos"


O beijo, como se sabe, é uma invenção do Ocidente. Em todo caso, a Bíblia é o primeiro livro a mencionar o beijo. Os especialistas contam quarenta citações de beijos apenas no Antigo Testamento. No Cântico dos Cânticos, o beijo é claramente sensual. Mas, na maioria dos casos, o texto bíblico fala do beijo filial ou de saudação entre membros da mesma família.

Mesmo assim, até na categoria de beijos filiais ou de saudação, a coisa ainda é enrolada, tanto no Ocidente como no Oriente. Os ingleses, por exemplo, são bastante travados nesse campo. No filme O Império do Sol (1987), sobre um menino inglês que passou a II Guerra num campo de concentração japonês, Steven Spielberg sublinhou deliberadamente o fato. Na cena do reencontro dos pais com o menino, que não se viam fazia anos, a mãe se abraça com o filho, mas o pai lhe dá apenas um comovido... aperto de mão. Agora, por ocasião do jubileu de ouro do reinado de Elizabeth II, os marqueteiros de Buckingham, meio preocupados com a reputação de frieza afetiva atribuída a sua majestade, parecem ter encontrado uma boa solução. Segundo a imprensa francesa, foram eles que aconselharam a rainha a tomar uma iniciativa inédita: dar um beijinho em público, pela primeira vez, em seu filho, o príncipe Charles.

No outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, não tem nada disso. Quando o marqueteiro político diz que tem de beijar, está beijado. Beijo filial, beijo sensual e o tipo mais explícito de beijo político. Na última campanha presidencial americana, instado a demonstrar uma fogosa paixão conjugal para se desmarcar do comportamento adúltero de Clinton, Al Gore convocou as câmaras de televisão e tascou longo beijo na boca de sua digníssima esposa.

Na categoria de beijo estritamente político, mas entre homens que não são casados, há o registro do beijo que o líder soviético Leonid Brejnev deu na boca de Erich Honecker, o último dirigente da Alemanha comunista. Celebrizado por uma pintura no museu do Muro de Berlim, o beijo entre os dois stalinistas simboliza o servilismo dos comunistas alemães a Moscou. Depois disso, a União Soviética desabou, mas o mundo continuou complicado. Primeiro grande acontecimento difundido na mídia internacional depois da tragédia do World Trade Center, a Copa do Mundo representa agora, no meio de um planeta conturbado, uma disputa pacífica e prazerosa entre as nações.

A bela primavera parisiense torna quase obrigatório sair de casa para assistir aos jogos nos bares e ouvir a filosofia de botequim que pontua a atuação das equipes. Na partida de abertura, a vitória do Senegal sobre a França lavou a alma das comunidades de imigrantes africanos e asiáticos que enfrentam o batente em Paris e nas grandes cidades européias. Nas conversas, a bronca dos senegaleses visava aos franceses que falavam da influência da mandinga na vitória do time africano. "Se a mandinga tivesse peso, o Senegal seria campeão do mundo há muito tempo", declarou um irritado diplomata senegalês. No jogo Japão X Bélgica, à vista dos jogadores japoneses com o cabelo tingido de loiro, os palpiteiros parisienses diagnosticaram uma grave crise de identidade no Império do Sol Nascente: vítimas de baixa auto-estima, os habitantes estavam todos decididos a se transfigurarem em ocidentais.

O jogo Brasil X Turquia também ofereceu uma boa ilustração dos qüiproquós existentes entre os povos. Não estão em questão a inabilidade do árbitro sul-coreano, a metragem do lugar do pênalti concedido aos brasileiros nem a parte do corpo de Rivaldo que recebeu a bolada de Hakan Unsal, o jogador turco. Na realidade, num bar freqüentado por imigrantes turcos, a derrota da Turquia pareceu anunciar-se antes do início do jogo, no meio-de-campo, quando Joseph Blatter, o presidente da Fifa, parou para beijar no rosto Roberto Carlos e Ronaldo e só apertou a mão dos jogadores turcos.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)


 
 
   
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