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Cadê a filosofia?
Sem um
esquema definido de jogo,
o Brasil ainda não criou condições
para que seus talentos desabrochem
contra os adversários que contam

Carlos Maranhão,
de Ulsan
AP
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AFP
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| O
talento de Ronaldo se impõe às táticas inventadas
pelos treinadores, mas os alemães (à dir.) dependem
muito de como a equipe é armada |

Veja também |
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Fazem parte
do folclore futebolístico as histórias dos métodos
de trabalho de dois vitoriosos técnicos brasileiros. Lula, que
dirigiu o grande Santos de Pelé e Coutinho, limitava-se a distribuir
as camisas no vestiário, enquanto Vicente Feola tirava longos cochilos
durante os jogos da maravilhosa seleção de 1958. As lendas
foram criadas porque seus jogadores eram tão fantásticos
que dispensariam a presença de um treinador. Doces recordações.
Não existem mais times assim, e o futebol transformou-se em um
negócio milionário e complexo. No essencial, porém,
o jogo continua igualzinho: o que faz uma equipe ser vencedora é,
como sempre foi, o talento de seus craques. Numa Copa, que reúne
várias forças parelhas da elite internacional dos gramados,
eles são mais importantes que nunca. Assim, graças a seus
talentos individuais, a seleção brasileira dirigida por
Luiz Felipe Scolari tem credenciais para sonhar com o pentacampeonato
mundial. Mas há um problemão no caminho. Para que tais talentos
aflorem, decidam partidas e levem a nação à loucura
contra os adversários que realmente contam, é preciso que
o time tenha uma filosofia de jogo estabelecida que permita a Ronaldo,
Rivaldo e Ronaldinho explodir e fazer aquilo de que são capazes.
Isso, por enquanto, não se viu.
"O esquema
tático não ganha jogos nem faz campeões", explica
o ex-técnico da seleção Carlos Alberto Parreira.
"Esse papel cabe ao craque. Entretanto, sem um esquema montado, ele isoladamente
não resolve. Craque não nos falta. O que nos falta é
sentido coletivo." Esse é o ponto. O técnico Felipão,
um profissional bem-sucedido em clubes como Grêmio e Palmeiras,
com seu estilo paizão motivador, assumiu o cargo há um ano,
no momento em que a seleção corria o risco de não
se classificar para a Copa do Mundo. Garantiu a vaga no sufoco, mas até
aqui o time não se definiu. "O Brasil não tem uma filosofia
de jogo, e o Felipão muda de idéia com surpreendente facilidade:
treina o Rivaldo na lateral esquerda e ele aparece jogando pelo lado direito,
coloca o Juninho Paulista como meia atacante antes da Copa e, na estréia,
resolve escalá-lo lá atrás, de volante", afirma o
ex-jogador e hoje colunista esportivo Tostão. "Ou nosso técnico
é um gênio que não compreendemos ou é uma pessoa
puramente emocional, que a cada hora pensa uma coisa", ironiza. "Por acaso
esses críticos sabem o que se passa na minha cabeça?", reage
Felipão. "Todas as mudanças são planejadas em função
do adversário e do andamento da partida."
O dedo do
técnico pode ser visto em equipes tão diferentes como a
Argentina e a Itália. Comandada por Marcelo Bielsa, a Argentina
une aplicação tática com habilidade, enquanto a Itália
joga um futebol feio, fiel à concepção defensiva
do técnico Giovanni Trapattoni, mas que pode funcionar em uma competição
curta como é a Copa. Bielsa, apelidado de "El Loco", estuda táticas
de jogo com obsessão. Em sua casa, guarda uma coleção
com 6.800 vídeos de partidas de futebol.
Levou parte deles para o Japão. Mesmo quando perde, como aconteceu
na sexta-feira, contra a Inglaterra, outro escrete de ponta, mostra um
padrão de jogo consistente. Diferentemente dos colegas brasileiros,
os treinadores europeus e argentinos de primeira linha notabilizam-se
por saber, ao mesmo tempo, criar um esquema com o material humano que
têm em mãos e exigir dos jogadores o domínio dos fundamentos
técnicos, como o passe, a marcação ou o arremesso
lateral. Entre eles está o italiano Fabio Capello, do Roma, cujos
rendimentos são da ordem de 2 milhões de dólares
por ano, o equivalente a 20% do que ganha a superestrela francesa Zidane,
astro do Real Madrid. No Brasil, onde Felipão tem um salário
estimado em cerca de 380.000 reais por mês,
poucos técnicos preocupam-se em treinar o bê-á-bá.
Há
três meses, o ex-jogador Paulo Roberto Falcão, comentarista
da Rede Globo, foi convidado para ver uma partida da equipe infantil do
Roma. Ficou pasmo. "Os meninos jogavam rigorosamente com o mesmo esquema
do time principal", conta. "Essa é a grande diferença entre
o futebol europeu e o brasileiro. Eles aprendem desde cedo a importância
da aplicação tática. Embora isso tenha mudado um
pouco, o que se valoriza entre nós é o lance de efeito,
o toque de calcanhar, e não o sentido coletivo do jogo, que no
final das contas serve para o que interessa: dar ao craque a oportunidade
de brilhar e decidir a partida."
Com
reportagem de
Sérgio Ruiz
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