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Cadê a filosofia?

Sem um esquema definido de jogo,
o Brasil ainda não criou condições
para que seus talentos desabrochem
contra os adversários que contam

Carlos Maranhão, de Ulsan


AP
AFP
O talento de Ronaldo se impõe às táticas inventadas pelos treinadores, mas os alemães (à dir.) dependem muito de como a equipe é armada


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Craques sem fronteira
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Da internet
A coluna de Carlos Maranhão no site
Copa 2002

Fazem parte do folclore futebolístico as histórias dos métodos de trabalho de dois vitoriosos técnicos brasileiros. Lula, que dirigiu o grande Santos de Pelé e Coutinho, limitava-se a distribuir as camisas no vestiário, enquanto Vicente Feola tirava longos cochilos durante os jogos da maravilhosa seleção de 1958. As lendas foram criadas porque seus jogadores eram tão fantásticos que dispensariam a presença de um treinador. Doces recordações. Não existem mais times assim, e o futebol transformou-se em um negócio milionário e complexo. No essencial, porém, o jogo continua igualzinho: o que faz uma equipe ser vencedora é, como sempre foi, o talento de seus craques. Numa Copa, que reúne várias forças parelhas da elite internacional dos gramados, eles são mais importantes que nunca. Assim, graças a seus talentos individuais, a seleção brasileira dirigida por Luiz Felipe Scolari tem credenciais para sonhar com o pentacampeonato mundial. Mas há um problemão no caminho. Para que tais talentos aflorem, decidam partidas e levem a nação à loucura contra os adversários que realmente contam, é preciso que o time tenha uma filosofia de jogo estabelecida que permita a Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho explodir e fazer aquilo de que são capazes. Isso, por enquanto, não se viu.

"O esquema tático não ganha jogos nem faz campeões", explica o ex-técnico da seleção Carlos Alberto Parreira. "Esse papel cabe ao craque. Entretanto, sem um esquema montado, ele isoladamente não resolve. Craque não nos falta. O que nos falta é sentido coletivo." Esse é o ponto. O técnico Felipão, um profissional bem-sucedido em clubes como Grêmio e Palmeiras, com seu estilo paizão motivador, assumiu o cargo há um ano, no momento em que a seleção corria o risco de não se classificar para a Copa do Mundo. Garantiu a vaga no sufoco, mas até aqui o time não se definiu. "O Brasil não tem uma filosofia de jogo, e o Felipão muda de idéia com surpreendente facilidade: treina o Rivaldo na lateral esquerda e ele aparece jogando pelo lado direito, coloca o Juninho Paulista como meia atacante antes da Copa e, na estréia, resolve escalá-lo lá atrás, de volante", afirma o ex-jogador e hoje colunista esportivo Tostão. "Ou nosso técnico é um gênio que não compreendemos ou é uma pessoa puramente emocional, que a cada hora pensa uma coisa", ironiza. "Por acaso esses críticos sabem o que se passa na minha cabeça?", reage Felipão. "Todas as mudanças são planejadas em função do adversário e do andamento da partida."

O dedo do técnico pode ser visto em equipes tão diferentes como a Argentina e a Itália. Comandada por Marcelo Bielsa, a Argentina une aplicação tática com habilidade, enquanto a Itália joga um futebol feio, fiel à concepção defensiva do técnico Giovanni Trapattoni, mas que pode funcionar em uma competição curta como é a Copa. Bielsa, apelidado de "El Loco", estuda táticas de jogo com obsessão. Em sua casa, guarda uma coleção com 6.800 vídeos de partidas de futebol. Levou parte deles para o Japão. Mesmo quando perde, como aconteceu na sexta-feira, contra a Inglaterra, outro escrete de ponta, mostra um padrão de jogo consistente. Diferentemente dos colegas brasileiros, os treinadores europeus e argentinos de primeira linha notabilizam-se por saber, ao mesmo tempo, criar um esquema com o material humano que têm em mãos e exigir dos jogadores o domínio dos fundamentos técnicos, como o passe, a marcação ou o arremesso lateral. Entre eles está o italiano Fabio Capello, do Roma, cujos rendimentos são da ordem de 2 milhões de dólares por ano, o equivalente a 20% do que ganha a superestrela francesa Zidane, astro do Real Madrid. No Brasil, onde Felipão tem um salário estimado em cerca de 380.000 reais por mês, poucos técnicos preocupam-se em treinar o bê-á-bá.

Há três meses, o ex-jogador Paulo Roberto Falcão, comentarista da Rede Globo, foi convidado para ver uma partida da equipe infantil do Roma. Ficou pasmo. "Os meninos jogavam rigorosamente com o mesmo esquema do time principal", conta. "Essa é a grande diferença entre o futebol europeu e o brasileiro. Eles aprendem desde cedo a importância da aplicação tática. Embora isso tenha mudado um pouco, o que se valoriza entre nós é o lance de efeito, o toque de calcanhar, e não o sentido coletivo do jogo, que no final das contas serve para o que interessa: dar ao craque a oportunidade de brilhar e decidir a partida."

 

Com reportagem de Sérgio Ruiz

 



   

 
   
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