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Marcas da violência

Agressões físicas fazem o
número de cirurgias plásticas
reparadoras empatar com o
total de operações estéticas

Paula Beatriz Neiva


Veja também
Outras estatísticas sobre cirurgias plásticas no Brasil

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica fechou o balanço referente às operações realizadas em 2001. No total, 350 000 brasileiros submeteram-se a cirurgias plásticas, só no ano passado. O número é elevado, mas o dado espantoso contido no relatório diz respeito ao peso das cirurgias reparadoras no quadro geral das operações plásticas. Há sete anos, as intervenções reparadoras representavam 20% de todas as cirurgias. Ou seja, de cada dez pessoas que procuravam um profissional da plástica, duas buscavam atenuar marcas provocadas principalmente por agressão física ou acidente de carro. As oito restantes queriam investir na aparência: afinar a cintura, diminuir os culotes ou aumentar os seios com próteses de silicone. Atualmente, as operações reparadoras correspondem a 50% do total. Infelizmente, esse aumento é reflexo de uma mazela nacional: a violência. Aumentou o número de pacientes que procuram os hospitais para restaurar orelhas e dedos decepados, barrigas perfuradas a tiro e cortadas a faca, pés e mãos esmagados em desastres de carro, rostos desfigurados por socos violentos. "A violência no Brasil atingiu um patamar no qual já altera as estatísticas nacionais", afirma o médico Luiz Carlos Garcia, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. "Talvez seja o mesmo estrago que a Aids faz em solo africano."


O estrago físico pode ser resultado de uma briga entre marido e mulher ou de agressões cometidas por criminosos contra suas vítimas. A violência atingiu níveis estratosféricos. Todos os dias, 110 pessoas são assassinadas no Brasil. A taxa é dez vezes superior à registrada na Alemanha. Apenas em abril passado, no Estado do Rio de Janeiro, mais de 6.000 pessoas foram vítimas de lesões corporais dolosas (ou seja, o agressor tinha a intenção de machucar). Em São Paulo, o número de seqüestros pulou de doze para 307, nos últimos cinco anos – um crescimento de incríveis 2.460%! O seqüestro, aliás, é um tipo de crime que responde por parte dos casos atendidos pelos cirurgiões plásticos. Durante as negociações para o pagamento do resgate, para provar que a vítima é mantida em cativeiro, alguns grupos de bandidos já recorreram ao expediente aterrador: a mutilação de orelhas e dedos.

A prática, segundo os especialistas, passou a ser registrada depois do seqüestro do cantor evangélico Wellington Camargo, irmão da dupla Zezé Di Camargo e Luciano. De dezembro de 1998 a março de 1999, Wellington ficou em poder dos criminosos por 96 dias. Voltou para casa com dois terços da orelha esquerda arrancada a faca por seus algozes. O médico Juarez Avelar, grande nome no Brasil da cirurgia plástica auricular, é testemunha da banalização desse tipo de violência. Um de seus pacientes mais recentes foi um empresário brasiliense, de 36 anos, cuja orelha direita foi cortada a tesoura, uma semana antes de o rapaz ser libertado. Por sorte, ele não sofreu inflamações que lhe prejudicassem a audição.

   
 
   
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