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Edição 1 755 - 12 de junho de 2002
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Não conte para ninguém

Conheça os resultados de um
estudo americano sobre por que
gostamos tanto de fazer fofoca
sobre a vida alheia

Karina Pastore

 

Ilustrações Orlando

O ZUNZUNZUM FEMININO
As mulheres adquirem o hábito da fofoca ainda na infância
Falam de tudo, sobre todos
Deleitam-se, porém, em falar da infidelidade conjugal e da promiscuidade sexual de outras mulheres

Não importa o momento histórico, tampouco a cultura. O fato é que a humanidade não passa sem fofoca. Mas o que explica esse impulso quase incontrolável de falar (e ouvir) sobre a vida alheia? Inveja? Falta do que fazer? Despeito? Não, nada disso. Essa compulsão é puro instinto. Isso mesmo – instinto de preservação da espécie. O psicólogo americano Frank McAndrew acaba de publicar um trabalho na revista Journal of Applied Social Psychology em que defende a teoria de que a fofoca é parte universal da experiência humana. "Determinados comportamentos e atitudes ajudaram nossos ancestrais ao longo da evolução: quem comia os alimentos corretos, escolhia para parceiro sexual os melhores reprodutores e estava mais bem informado sobre o que acontecia ao seu redor revelava-se mais apto para superar as adversidades do meio", disse McAndrew a VEJA. "Aqueles que tinham forte interesse pelo que acontecia com os outros possuíam uma grande vantagem sobre os que não davam importância a esse tipo de informação." Portanto, não se acanhe, prezado leitor, em aguçar os ouvidos da próxima vez em que escutar o fatídico "nem te conto...". Se alguém chamá-lo de fofoqueiro, argumente ser impossível resistir a um hábito adquirido há cerca de 4,5 milhões de anos, quando os primeiros hominídeos desceram das árvores e passaram a equilibrar-se sobre duas pernas.


A pesquisa de McAndrew foi dividida em duas etapas. Na primeira, ele entrevistou 128 pessoas, homens e mulheres de 17 a 62 anos. A cmilhões de anos, quando os primeiros hominídeos desceram das árvores e passaram a equilibrar-se sobre duas pernas.


A pesquisa de McAndrew foi dividida em duas etapas. Na primeira, ele entrevistou 128 pessoas, homens e mulheres de 17 a 62 anos. A cada uma, ele apresentou artigos colhidos de revistas e jornais especializados em fuxicos sobre celebridades. O psicólogo então pediu a cada um dos participantes que elencasse as reportagens mais interessantes. McAndrew tirou daí a primeira conclusão de seu trabalho: homens preferem ler sobre homens, e mulheres, sobre mulheres. Mais: as pessoas têm maior curiosidade a respeito de celebridades que estejam na sua faixa etária. No Brasil, sabe-se que as mulheres de 50 anos se deleitam com mexericos a respeito da vulcânica Vera Fischer. E as moçoilas regalam-se com novas sobre Gisele Bündchen. De acordo com o psicólogo McAndrew, na luta pela perpetuação da espécie, em busca do reprodutor ideal, Vera é uma ameaça às cinqüentonas. E Gisele, às jovenzinhas.

A segunda fase da pesquisa de McAndrew foi ainda mais reveladora. Ao entrevistar 83 estudantes – 39 homens e 44 mulheres, com idade entre 17 e 22 anos –, o psicólogo fez uma radiografia da fofoca. Conseguiu provar que as mulheres são, mesmo, mais fofoqueiras que os homens. Elas se interessam por qualquer assunto, não importa o sujeito do mexerico. Se também for do sexo feminino, nem te conto... E essa avidez por ouvir e falar da outra aumenta ainda mais quando o que se tem para contar versa sobre a promiscuidade e a infidelidade da colega. "As mulheres usam esse tipo de informação para manipular a reputação das outras", explica McAndrew. Do ponto de vista evolucionário, nada mais lógico. A explicação do psicólogo: ao difamar uma rival, ao espalhar que ela é infiel ao parceiro ou tem muitos amantes, o que a mulher pretende, no fundo, é afastá-la dos machos provedores. Na época em que o teste de DNA não existia, a paternidade só podia ser garantida pela certeza de fidelidade da companheira. Minar a reputação do concorrente para assegurar a transmissão dos genes é um comportamento tão intrínseco à espécie humana que o homem, ainda que pouco afeito à futricagem, é todo ouvidos quando o que se tem a falar diz respeito à situação financeira e à habilidade sexual dos rivais. Boa reprodutora que se preze não dá a menor bola para um pobretão ou para um sujeito com dificuldades no sexo.

 


O FALATÓRIO MASCULINO
Eles tendem a ser menos futriqueiros que elas
A fofoca deles tem caráter competitivo
Quando abrem a boca, preferem comentários sobre as finanças e habilidades sexuais dos outros

A mordacidade típica da fofoca feminina é característica que as mulheres adquirem ainda pequenas, na infância. "Por volta dos 8 anos, a agressividade e a competitividade afloram. É o momento em que as meninas começam a se dedicar aos jogos de intrigas, segredinhos e pequenas traições", diz o psiquiatra e psicoterapeuta Eduardo Ferreira-Santos, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Enquanto as pequenas se dedicam ao zunzunzum, os meninos extravasam a agressividade e a competitividade nas brincadeiras de luta. "Entre os homens, a fofoca tem mais caráter competitivo, interpretado no maior interesse que eles têm por temas que abordem outros homens, nos aspectos predominantemente financeiros e sexuais", afirma o doutor Ferreira-Santos. "Esse tipo de fofoca é uma revivescência, na idade adulta, das práticas tão comuns quanto escondidas na adolescência – as aferições de tamanho de pênis ou de poder de jato da urina."

Na pesquisa, os estudantes foram categóricos ao afirmar que, se tivessem de optar entre um amigo e um parente como sujeito da notícia a receber, em apenas duas situações escolheriam alguém da família. Em caso de recebimento de uma herança ou de doença grave. Portanto, o amigo é um alvo preferencial de fofoca. Esse é um dado revelador na pesquisa do psicólogo McAndrew. Quando os amigos se tornam o alvo da fofoca, queremos saber tudo. No fundo, no fundo, tamanha curiosidade deve-se à consciência – ainda que inconsciente – de que eles são nossos amigos hoje, mas amanhã podem deixar de ser. E aí... "Os amigos são importantes para nós porque são aliados que nos ajudam", diz McAndrew. "Mas, porque sabem muito sobre nossa vida, eles podem nos prejudicar muito se viram nossos inimigos."

   
 
   
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