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O show não
pode parar
Elizabeth
II festeja 50 anos
de reinado dando o que o povo
gosta: pompa, simbologia e ritual

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O
ex-comedor de morcegos Ozzy Osbourne levou um susto quando recebeu o convite:
"Será que é comigo mesmo?". Mas compareceu, de cabelo roxo,
olhos pintados e vocabulário bem-comportado para um metaleiro.
Também estava lá um conhecido crítico da monarquia,
o riquíssimo e vulgaríssimo Rupert Murdoch, o magnata da
mídia e como convidado de honra. E ainda toda a nata da
Grã-Bretanha, mais uma boa amostra do povaréu (os felizes
contemplados num sorteio) e, ao longe, uma multidão de quase 1
milhão de pessoas. Todos contentes, orgulhosos ou, no caso dos
mais céticos, ironicamente benevolentes diante dos quatro dias
de festejos que culminaram as comemorações dos cinqüenta
anos de reinado de Elizabeth II, incluindo um curioso megashow que, na
segunda-feira à noite, fez tremer os jardins do Palácio
de Buckingham. A própria homenageada suportou estoicamente a barulheira
dos velhinhos do rock (Paul McCartney, Rod Stewart e Cliff Richard), mas,
por trás da máscara de contenção e dignidade
à qual o mundo inteiro se acostumou, era perceptível sua
satisfação. Coberta de múltiplas manifestações
de apreço e afeto, ela pode dar mais uma missão por cumprida.
AFP
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| A
rainha brinda: viva a tradição |
Não é pouca coisa, considerando-se o estranho papel que
essa senhora de 76 anos vem desempenhando nas últimas cinco décadas.
A própria sobrevivência de um arcaísmo como a monarquia
já é um espanto especialmente uma monarquia faustosa
e ritualística como a britânica, ao contrário dos
regimes congêneres da Europa continental, mais discretos. Mais espantoso
ainda é que essa tarefa tenha sido desempenhada durante um período
de enormes transformações por Elizabeth, uma mulher sem
grande visão histórica nem acuidade política. Segundo
interpretações dos especialistas, ela teve a seu favor três
fatores: o senso do dever, qualidade apreciadíssima pelos ingleses,
a capacidade de se adaptar às mudanças sem dar a impressão
de aderir a modismos e o talento natural, lapidado por seus assessores,
para embrulhar uma família sem beleza (pelo menos até o
furacão Diana e seus rebentos), sem carisma e sem graça
em uma irresistível embalagem de pompa, tradição
e reverência que nunca falha em comover e cativar os súditos.
Foi assim quando Elizabeth subiu ao trono após a morte do pai,
em fevereiro de 1952 no pouco mais de um ano até o muito
esperado espetáculo de sua inédita coroação
diante das câmaras, o número de casas com aparelhos de TV
no país saltou de 750.000 para mais
de 2 milhões. Foi assim em 1977, ano do Jubileu de Prata, com três
dias (um a menos que este) de pompa e circunstância. Foi assim em
1981, no casamento do herdeiro Charles com a jovem Diana Spencer, que
mesmerizou os ingleses e o resto do mundo até o final trágico.
Foi assim até no enterro da rainha-mãe Elizabeth, neste
ano, quando a coreografia do luto real provocou uma comoção
insuspeita, especialmente em se tratando da morte deveras previsível
de uma senhora de 101 anos.
AP

William
e Harry, os meninos de ouro do príncipe Charles, que mora com Camilla,
mas não assume: família atrapalhada, mas poderosa |
No século
XIX, o constitucionalista Walter Bagehot previu, num de seus argutos e
pernósticos comentários, que o show da monarquia teria uma
vida longa: "Quanto mais democráticos nos tornarmos, mais iremos
apreciar a pompa e o espetáculo, que sempre agradaram ao vulgo".
As comemorações do jubileu da rainha comprovaram, mais uma
vez, que tinha razão. Os ingleses querem simbologia e rituais?
Lá foi Elizabeth, desfilando na preciosa carruagem dourada do século
XVIII, reservada às grandes ocasiões. Como é de praxe,
as missas, os concertos e as solenes homenagens se multiplicaram. Como
exigem os tempos politicamente corretos, os desfiles populares incluíram
de tudo, até uma espécie de Carnaval introduzido pelos caribenhos
provenientes de ex-colônias. A certa altura, um princípio
de incêndio no Palácio de Buckingham pôs para correr
celebrados artistas que ensaiavam o show do dia seguinte, mas o fogo foi
contido sem grandes estragos.
O show de
música pop foi outra barretada ao gosto popular, do tipo longamente
consagrado. Além dos vetustos roqueiros, um deslocado Ricky Martin
rebolou discretamente e Emma Bunton, a Baby Spice, de microvestido, mandou
"um beijão para William". O filho-galã de Charles ficou
vermelho como pimentão, mas, ao lado do irmão, Harry, comportou-se,
bem, como um príncipe. Elizabeth e o marido, Philip, chegaram no
que deveria ser meia hora antes do final na verdade, o show, atrasado,
arrastou-se por mais uma hora. Agüentaram tudo corajosamente. A uma
fileira e seis assentos de distância sentava-se uma excepcionalmente
elegante Camilla Parker-Bowles, a companheira de Charles, que vem sendo
introduzida aos poucos nos eventos oficiais como preparação
para, algum dia, por fim, ser assumida pelo futuro rei como a mulher da
sua vida. No fim, viria o discurso de Charles, com dois momentos cuidadosamente
planejados para introduzir o toque humano que tantas vezes tem faltado
à realeza: aquele em que ele a chamou de "mamãe" (em vez
do usual "majestade") e aquele em que lhe deu dois beijos no rosto. O
público veio abaixo com a espantosa manifestação
de afeto.
AFP

Stewart,
Osbourne, Richard e McCartney: rock dos velhinhos |
E assim,
aos 76 anos, forte e sacudida, Elizabeth II, provavelmente a única
senhora milionária do mundo que nunca fez plástica nem lipoaspiração,
nunca aplicou Botox nem sequer pinta o cabelo, demonstrou em quatro dias,
diversos figurinos parecidíssimos e chapéus cada vez mais
ousados, o que é que a rainha tem: o encanto inescapável
da nobreza, que se apaga no dia-a-dia, mas explode em momentos especiais,
sobretudo aqueles organizados e personificados por quem entende do riscado.
Na quarta-feira, em plena ressaca de "Deus salve a rainha", a atenção
dos ingleses retornou aos assuntos verdadeiramente importantes
quais sejam, neste instante, além da situação do
time na Copa do Mundo, os mistérios que rondam o iminente casamento
de Paul McCartney com a ex-modelo Heather Mills. Onde será? Quando
será? Quem irá?
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