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Os segredos ocultos
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O inverno está chegando e, junto com o frio, os espirros, as fungadas, os olhos lacrimejantes. A impressão é que há um vírus louco para infectar as pessoas em cada esquina. Conforme a temperatura vai baixando, aparece um colega de trabalho resfriado, um parente, um amigo. O resfriado é uma doença comum. Cada adulto tem de um a dois resfriados por ano. As crianças, de três a quatro. Apesar de o mal derrubar tanta gente, porém, são poucos os cientistas que se dedicam a estudar o assunto. No fim do mês passado, aconteceu na cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, o primeiro simpósio de cunho acadêmico sobre vírus respiratórios realizado no Brasil. Os leigos que escutassem o que foi dito nos três dias de palestras e discussões ficariam boquiabertos desconfiados mesmo. Eles descobririam que boa parte do que se imagina, se faz e sempre se ouviu sobre resfriado não tem respaldo científico.
A primeira surpresa é que a baixa temperatura não aumenta a suscetibilidade de ninguém para o resfriado. Tomar sorvete em dias frios, não se agasalhar o suficiente nada disso aumenta a probabilidade de alguém ser infectado por vírus respiratórios. A transmissão também contradiz o senso comum. Ela é principalmente manual, não pelo ar, como se imaginava antigamente. Uma pessoa sadia toca um lugar atingido pelo espirro de alguém doente ou aperta a mão de uma pessoa resfriada e, ao levar a mão ao nariz ou aos olhos, fica infectada. Se alguém espirra na cara do outro, a probabilidade de o vírus atingir nariz ou olhos existe, claro. Mas, em tese, um aperto de mão é mais perigoso que presenciar um espirro, beijar um infectado ou mesmo dividir o mesmo copo. O procedimento mais eficiente para prevenir resfriados, portanto, é lavar as mãos com muita freqüência.
Algumas dessas informações foram expostas no simpósio pelo virologista americano Jack Gwaltney, da Universidade de Virgínia, considerado o maior especialista do mundo no tema. Ele pesquisa o resfriado há quarenta anos. Seus estudos levaram à derrubada de uma série de mitos sobre o assunto. Para tentar descobrir a influência do frio, por exemplo, foram feitos experimentos fascinantes. Em um deles, voluntários foram inoculados com vírus que causam resfriado. Metade permaneceu mais de uma hora dentro de uma geladeira e mais um bom tempo fora, mas só de cueca. A outra metade foi mantida confortavelmente aquecida. Nos dois grupos, praticamente todos desenvolveram a doença. O mesmo resultado foi obtido numa pesquisa em que parte das pessoas teve de tomar banho frio, ficar meia hora molhada num corredor com corrente de ar sem toalha e depois mais várias horas vestida mas com meias úmidas. Não houve diferença no número das que ficaram resfriadas nem na intensidade da doença.
Vitamina C Questionado sobre o motivo pelo qual o inverno concentra o maior número de casos de resfriados, já que o frio não afeta a suscetibilidade, Gwaltney disse que a resposta é incerta. "Pode ter a ver com a sobrevivência dos vírus em diferentes condições de temperatura", disse ele a VEJA. "E também com o comportamento humano durante as estações mais frias do ano, quando a tendência é as pessoas ficarem mais juntas." Para verificar se a transmissão pelo ar era importante, a equipe de Gwaltney colocou em vários quartos uma pessoa resfriada e outra não, separadas apenas por uma grade vazada, como as de um galinheiro. Não houve contágio. Os testes para verificar a transmissão por contato manual, porém, deram resultados positivos. Isso aconteceu, por exemplo, quando se pediu para alguém resfriado colocar o dedo no nariz e passá-lo na mão de outra pessoa, que, em seguida, a levou ao nariz ou ao olho. Deu 95% de contágio.
A ciência já conseguiu decifrar vários aspectos relacionados com o resfriado. "A meta maior das pesquisas hoje é desenvolver uma droga antiviral", afirma o virologista Eurico Arruda Neto, que trabalhou durante dez anos com a equipe de Gwaltney e agora é pesquisador e professor na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Ao contrário do que dizem nossas mães, avós e bisavós, vitamina C e cama não funcionam. "A reação imunológica não aumenta se a pessoa deixar de fazer as atividades físicas normais, e nenhum estudo comprovou eficácia da vitamina C", afirma o clínico-geral Arnaldo Lichtenstein.
Ao contrário da gripe, para a qual já existem uma vacina preventiva e dois medicamentos aprovados nos Estados Unidos, não há remédio contra o resfriado. "Aliás, o que é dito a respeito de resfriado não se aplica a gripe, e vice-versa", alerta Arruda. Os vírus que provocam as duas doenças são diferentes, e alguns dos sintomas também. Febre alta e dores musculares, por exemplo, são típicas de gripe. "A questão da relatividade do frio vale especialmente para o rinovírus, que é o maior causador de resfriados, mas não para a gripe, cujos vírus causadores pertencem a outra família bem menos resistente ao calor", explica Terezinha Maria de Paiva, pesquisadora do Instituto Adolfo Lutz.
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Ilustrações
Negreiros
Inimigo valente Fonte: Eurico Arruda Neto, médico e pesquisador da USP |
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Mitos e verdades
Fonte: Eurico Arruda Neto, médico e pesquisador da USP |
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Comum, mas grave
Fonte: Eurico Arruda Neto, médico e pesquisador da USP |
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