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Edição 1 755 - 12 de junho de 2002
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Os segredos ocultos
em cada espirro

Quanto mais se estuda o
resfriado,
mais se descobre
que o que se imaginava sobre
a doença está errado

Flávia Varella


Veja também
Como se prevenir contra os resfriados

O inverno está chegando e, junto com o frio, os espirros, as fungadas, os olhos lacrimejantes. A impressão é que há um vírus louco para infectar as pessoas em cada esquina. Conforme a temperatura vai baixando, aparece um colega de trabalho resfriado, um parente, um amigo. O resfriado é uma doença comum. Cada adulto tem de um a dois resfriados por ano. As crianças, de três a quatro. Apesar de o mal derrubar tanta gente, porém, são poucos os cientistas que se dedicam a estudar o assunto. No fim do mês passado, aconteceu na cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, o primeiro simpósio de cunho acadêmico sobre vírus respiratórios realizado no Brasil. Os leigos que escutassem o que foi dito nos três dias de palestras e discussões ficariam boquiabertos – desconfiados mesmo. Eles descobririam que boa parte do que se imagina, se faz e sempre se ouviu sobre resfriado não tem respaldo científico.

A primeira surpresa é que a baixa temperatura não aumenta a suscetibilidade de ninguém para o resfriado. Tomar sorvete em dias frios, não se agasalhar o suficiente – nada disso aumenta a probabilidade de alguém ser infectado por vírus respiratórios. A transmissão também contradiz o senso comum. Ela é principalmente manual, não pelo ar, como se imaginava antigamente. Uma pessoa sadia toca um lugar atingido pelo espirro de alguém doente ou aperta a mão de uma pessoa resfriada e, ao levar a mão ao nariz ou aos olhos, fica infectada. Se alguém espirra na cara do outro, a probabilidade de o vírus atingir nariz ou olhos existe, claro. Mas, em tese, um aperto de mão é mais perigoso que presenciar um espirro, beijar um infectado ou mesmo dividir o mesmo copo. O procedimento mais eficiente para prevenir resfriados, portanto, é lavar as mãos com muita freqüência.

Algumas dessas informações foram expostas no simpósio pelo virologista americano Jack Gwaltney, da Universidade de Virgínia, considerado o maior especialista do mundo no tema. Ele pesquisa o resfriado há quarenta anos. Seus estudos levaram à derrubada de uma série de mitos sobre o assunto. Para tentar descobrir a influência do frio, por exemplo, foram feitos experimentos fascinantes. Em um deles, voluntários foram inoculados com vírus que causam resfriado. Metade permaneceu mais de uma hora dentro de uma geladeira e mais um bom tempo fora, mas só de cueca. A outra metade foi mantida confortavelmente aquecida. Nos dois grupos, praticamente todos desenvolveram a doença. O mesmo resultado foi obtido numa pesquisa em que parte das pessoas teve de tomar banho frio, ficar meia hora molhada num corredor com corrente de ar sem toalha e depois mais várias horas vestida mas com meias úmidas. Não houve diferença no número das que ficaram resfriadas nem na intensidade da doença.

Vitamina C – Questionado sobre o motivo pelo qual o inverno concentra o maior número de casos de resfriados, já que o frio não afeta a suscetibilidade, Gwaltney disse que a resposta é incerta. "Pode ter a ver com a sobrevivência dos vírus em diferentes condições de temperatura", disse ele a VEJA. "E também com o comportamento humano durante as estações mais frias do ano, quando a tendência é as pessoas ficarem mais juntas." Para verificar se a transmissão pelo ar era importante, a equipe de Gwaltney colocou em vários quartos uma pessoa resfriada e outra não, separadas apenas por uma grade vazada, como as de um galinheiro. Não houve contágio. Os testes para verificar a transmissão por contato manual, porém, deram resultados positivos. Isso aconteceu, por exemplo, quando se pediu para alguém resfriado colocar o dedo no nariz e passá-lo na mão de outra pessoa, que, em seguida, a levou ao nariz ou ao olho. Deu 95% de contágio.

A ciência já conseguiu decifrar vários aspectos relacionados com o resfriado. "A meta maior das pesquisas hoje é desenvolver uma droga antiviral", afirma o virologista Eurico Arruda Neto, que trabalhou durante dez anos com a equipe de Gwaltney e agora é pesquisador e professor na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Ao contrário do que dizem nossas mães, avós e bisavós, vitamina C e cama não funcionam. "A reação imunológica não aumenta se a pessoa deixar de fazer as atividades físicas normais, e nenhum estudo comprovou eficácia da vitamina C", afirma o clínico-geral Arnaldo Lichtenstein.

Ao contrário da gripe, para a qual já existem uma vacina preventiva e dois medicamentos aprovados nos Estados Unidos, não há remédio contra o resfriado. "Aliás, o que é dito a respeito de resfriado não se aplica a gripe, e vice-versa", alerta Arruda. Os vírus que provocam as duas doenças são diferentes, e alguns dos sintomas também. Febre alta e dores musculares, por exemplo, são típicas de gripe. "A questão da relatividade do frio vale especialmente para o rinovírus, que é o maior causador de resfriados, mas não para a gripe, cujos vírus causadores pertencem a outra família bem menos resistente ao calor", explica Terezinha Maria de Paiva, pesquisadora do Instituto Adolfo Lutz.

 

 

Ilustrações Negreiros

Inimigo valente

Há cerca de 130 tipos conhecidos de vírus causadores de resfriado

O número de vírus em um espirro é da ordem de dezenas de milhares. Eles saem a uma velocidade de 160 quilômetros por hora

Os mais freqüentes vírus de resfriado podem sobreviver por até três horas em superfícies inertes e depois ser recapturados vivos. Na pele, também

Em 75% das vezes em que se aperta a mão infectada de alguém resfriado, vírus passam para sua mão

Um vírus de resfriado é suficiente para infectar uma pessoa

Fonte: Eurico Arruda Neto, médico e pesquisador da USP

 

Mitos e verdades

O frio não aumenta a suscetibilidade para pegar resfriado nem agrava os sintomas

Os vírus de resfriado raramente são transmitidos pelo ar. Em geral o contágio se dá pelo contato da mão. A pessoa toca algum lugar infectado e, ao levar as mãos ao nariz ou aos olhos, se contamina

A saliva não é um bom transmissor desses vírus. Beijo, portanto, não é perigoso

Vitamina C não cura nem reduz a predisposição ao resfriado

Antibióticos não funcionam para gripes e resfriados, porque eles são causados por vírus, e não por bactérias

Fonte: Eurico Arruda Neto, médico e pesquisador da USP

 

Comum, mas grave

Um adulto tem, em média, de um a dois resfriados por ano. Uma criança, de três a quatro

O resfriado é a principal causa de falta ao trabalho e à escola

Pelo menos metade das crises asmáticas é desencadeada por resfriados

A otite é a principal causa de visitas a pediatras. Sete em cada dez crianças com esse problema estão infectadas por vírus de resfriado

Encontram-se vírus de resfriado em um de cada dois indivíduos com sinusite

Fonte: Eurico Arruda Neto, médico e pesquisador da USP

 

 

   
 
   
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