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O
hino só atrapalha
"Vamos
abolir a letra do nosso hino.
Ela é longa e rebuscada demais.
Com ela na cabeça, é natural que a
seleção brasileira tropece na bola"
Os
jogadores brasileiros cantaram direitinho o Hino Nacional. O esforço
para memorizá-lo os atordoou. Tanto que só conseguiram ganhar
da Turquia graças a um gol roubado. Compare o hino turco com o
brasileiro. O turco tem apenas oito versos. Encontram-se temas comuns
a outros hinos, como sacrifício, liberdade, sangue, bandeira e
heroísmo, mas eles aparecem de maneira simples, direta. O hino
brasileiro é o oposto: longo demais, rebuscado demais, palavroso
demais, com seus vinte e tantos adjetivos. Perde-se em redundâncias,
em construções em ordem inversa, em ridículas prosopopéias.
Roque Júnior entende como as margens plácidas do Ipiranga
podem ouvir um brado retumbante? Edmílson sabe a diferença
entre um lábaro, uma flâmula e uma bandeira? Juninho Paulista
já viu um céu risonho em nosso impávido colosso?
É natural que, com essas porcarias na cabeça, eles acabem
tropeçando na bola.
O hino chinês também é melhor que o brasileiro. "Com
o nosso sangue e a nossa carne, construamos outra Grande Muralha." Tem
onze versos, sendo que a maioria repete "avante, avante, avante" e "marchar,
marchar, marchar". Dos adversários do Brasil na primeira fase da
Copa do Mundo, só a Costa Rica possui um hino espalhafatoso e adjetivado
como o nosso: "Nobre pátria tua formosa bandeira, abaixo do límpido
azul de teu céu, branca e pura descansa a paz, na luta tenaz de
fecundo labor". Mas os costa-riquenhos levam uma vantagem sobre nós:
seu hino é mais curto e, portanto, menos patético.
O hino brasileiro foi composto por Francisco Manuel da Silva em 1831.
Só em 1922, porém, ganhou uma letra oficial, de autoria
de um poeta justamente esquecido chamado Joaquim Osório Duque Estrada.
Ou seja, o hino ficou 91 anos sem ter uma letra. Proponho um retorno a
esses velhos tempos. Vamos abolir a letra do nosso hino. Foi o que fez
a Espanha depois do fim da ditadura franquista: eliminou a letra do hino
e manteve apenas a música. Hoje em dia, os jogadores espanhóis
se limitam a cantarolar: "Lá-lalá-lalá-lalááá".
Fica bem mais fácil jogar bola desse jeito. Podemos também
imitar a Alemanha, que cortou partes de seu hino, em particular as que
recordavam os sonhos de supremacia dos nazistas. O problema, nesse caso,
é saber qual estrofe salvar do hino brasileiro. A que começa
com "Brasil, um sonho intenso, um raio vívido" ou a que começa
com "Deitado eternamente em berço esplêndido"?
Outra saída é trocar de hino. Já tentamos fazê-lo
no passado. Depois da proclamação da República, nossos
chefes militares armaram um concurso para escolher um novo hino, porque
o velho evocava o império. O vencedor se caracterizou pela mais
escandalosa tentativa de remoção histórica: "Nós
nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país".
Isso no Brasil, um dos últimos lugares do mundo a abolir a escravidão.
Ainda bem que Deodoro da Fonseca se recusou a adotá-lo como novo
Hino Nacional, relegando-o à mera condição
de hino da proclamação da República.
Esqueça o hino, Cafu. Tire a mão do peito, Ronaldinho Gaúcho.
A partir de agora, pensem apenas em cobrir a zaga e em chutar direito
para o gol.
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