Edição 1853 . 12 de maio de 2004

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Tales Alvarenga
A audácia burguesa

"Na TV, Marta falava sobre pormenores
impronunciáveis do ato sexual com a
naturalidade de Ana Maria Braga
explicando uma receita de pavê"

Afinal, o que há com Marta Suplicy? Neste ano, a petista concorrerá à reeleição como prefeita de São Paulo e suas chances parecem incertas. O principal oponente de Marta, até agora, é o eterno, o cara de Paulo Salim Maluf, aquele que vive acossado por denúncias e sempre reaparece em período eleitoral, posando de inocente. Na última pesquisa Datafolha, feita em março, Maluf batia Marta e o índice de rejeição de ambos estava no mesmo patamar: 44%. Isso não é bom para o PT. Uma derrota em São Paulo significará uma derrota nacional do partido.

Os escândalos atribuídos a Maluf, escritos em papel-manteiga, encheriam uma folha grande o suficiente para embrulhar uma dúzia de quibes. Surpreende, portanto, que o paulistano rejeite Marta e Maluf com a mesma ênfase. Pergunta: Marta está com alta taxa de rejeição por ser parecida com os políticos em geral ou por ser diferente deles?

Como fazia Paulo Maluf em seu tempo no poder, a prefeita encheu São Paulo de obras viárias em ano eleitoral. Na periferia, construiu superescolas, com piscina, quadra esportiva, acesso à internet, teatro e outros equipamentos sonegados ao resto da rede pública municipal. Esses colégios são a réplica paulistana dos escolões que o governador Leonel Brizola construiu no Rio e o presidente Fernando Collor, em Brasília. São verdadeiros outdoors de campanha. Marta Suplicy também não inovou nas contas públicas. Cavou um déficit e aumentou de tal forma os tributos em São Paulo que ganhou o apelido de "Martaxa". Nesses aspectos, a prefeita não é original.

A grande originalidade de Marta está na pessoa física. Aí estão suas melhores qualidades. Ela tem um toque de "audácia burguesa", como definiu um ex-presidente. Anos atrás, quando ainda era sexóloga, falava sobre pormenores impronunciáveis do ato sexual num programa da TV Globo com a mesma naturalidade de Ana Maria Braga explicando uma receita de pavê. Marta circula com um guarda-roupa inacreditavelmente caro para uma petista. Desfez um casamento de décadas com o senador Eduardo Suplicy para namorar o galã franco-argentino Luis Favre, com quem viria a se casar, aos 58 anos. Roseana Sarney, ex-governadora do Maranhão, casou, descasou, casou pela segunda vez, descasou e por fim voltou a casar com o primeiro marido sem que se visse qualquer cerimônia ostentatória nessas transições. Marta não. Oficiou com pompa uma festa de segundas núpcias na qual conseguiu parecer elegante com um chapelão que no perímetro da aba lembrava a roda de um Fusca. Saiu na capa da revista Caras.

Meses atrás, São Paulo foi inundada por chuvas de verão. Marta esteve na lama da periferia, bem vestida como se estivesse desembarcando de outro mundo. Foi vaiada e bateu boca com uma vítima das águas que queria lhe atribuir a culpa pelas chuvas. Marta estava furiosa e a outra dama, idem. A cena, inesquecível, foi para a televisão e deve ter custado muitos pontos de popularidade à prefeita.

Afinal, com qual das Martas o paulistano implicou? Arrisco a hipótese de que foi com a Marta pessoa física. Se for esse o caso, vai aqui um conselho. Senhora prefeita, experimente o modelito "casei com Jesus", da senadora Heloísa Helena – calça jeans, camisa masculina branca e prendedor no cabelo. Tire os pingentes da orelha. Passando por um boteco, entre para comer um torresmo. E, principalmente, beije as crianças e verta uma lagrimazinha quando visitar vítimas de inundação. Vai ver o problema está aí.

 
 
 
 
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