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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A
garota das fotos
Ela
queria a
lembrança de uma feliz temporada,
mas acabou no papel de
mestre-de-cerimônias da indignidade
Seu
rosto vem correndo o mundo. O cabelo é curtinho, os olhos
meio amendoados. No fundo não passa de uma menina, flagrada
nas fotos sempre com sorriso zombeteiro e ar travesso. É
uma americaninha do tipo mignon, veste calça de camuflagem
e camiseta, e no pulso exibe um relógio um pouco grande demais
para seu braço. Que feliz ela parece estar! Abstraindo-se
do resto que aparece nas cenas, do lugar e das circunstâncias
em que se inscrevem, tais fotos poderiam ser incluídas no
gênero das alegres recordações de férias.
Elas seriam reunidas num álbum e, anos depois, revistas com
saudade. Ah, que bons tempos! Só que...
Só
que as fotos em questão retratam o momento de maior indignidade
da aventura militar americana no Iraque. São as fotos das
torturas e humilhações sofridas por prisioneiros iraquianos
na prisão de Abu Ghraib a mesma que Saddam Hussein
usava para encarcerar e igualmente torturar e humilhar os inimigos.
As cenas nelas contidas têm tudo para se tornar clássicas.
Mais ainda que as da derrubada da estátua de Saddam, nos
primeiros dias da ocupação americana, são sérias
candidatas a virar a imagem-símbolo da atual guerra
assim como a foto de uma criança, correndo nua e apavorada
pela estrada, depois de ter tido parte do corpo queimada por uma
bomba de napalm, virou símbolo da Guerra do Vietnã.
As
fotos mostram homens nus e encapuzados em posições
humilhantes. Em algumas eles aparecem enfileirados. Em outras, sentados
uns nas costas dos outros. Em outras ainda, dispostos em pilhas
que, pelo amontoado caótico de carne humana, tanto podem
lembrar o ponto mais caliente de uma bacanal quanto a macabra
encenação de uma vala comum. Há fotos da série,
não divulgadas, em que os prisioneiros são forçados
a se masturbar perante a câmera ou simular sexo oral uns nos
outros. No meio disso tudo, passeando deslumbrada entre os corpos
nus, como uma perversa Alice no País das Maravilhas, ou,
melhor ainda, uma Justine no País do Marquês de Sade,
lá está ela, nossa pequena garota de cabelinho curto
e olhos amendoados. Sobre a tortura no Iraque e a submissão
dos prisioneiros a situações de degradação
sexual já muito se falou. Fixemo-nos na garota de olhos amendoados.
Numa
foto, em que aparece junto a uma fileira de presos, ela tem um cigarro
na boca e, com a mão, simula um revólver apontado
para a genitália de um dos homens. Em outra, ela está
ao lado de um preso que tem as mãos cruzadas sobre a cabeça,
e igualmente faz o gesto do revólver em direção
à genitália dele. Numa terceira, aparece abraçada
a um companheiro americano, atrás de uma pilha de corpos
nus. Os dois, ela e o companheiro, levantam os polegares para a
câmera, em sinal de positivo. O fato de ser uma mulher que
protagoniza as cenas empresta-lhes carga redobrada, ainda mais por
se tratar de uma região onde mulher usa véu para esconder
o cabelo e muitos outros panos para esconder o resto. Mas não
é isso o mais chocante. O mais chocante é o sorriso
de satisfação que ela estampa no rostinho. O polegar
erguido na foto em que está abraçada ao companheiro
indica que para ela estava tudo bem muito, muito bem. Em
todas as cenas ela olha para a câmera, sorridente e cheia
de si como a aniversariante no dia da festa, ou como a turista em
frente à Torre Eiffel. É flagrante o desejo de deixar
registrado um dia feliz, num cenário inesquecível.
Quem
é a moça? Uma reportagem do The New York Times
revela que se trata da soldada Lynndie R. England, de 21 anos,
moradora na pequena cidade de Fort Ashby, Estado de West Virginia.
Em acréscimo a seu trabalho numa fábrica de processamento
de frangos, ela inscreveu-se no Exército para reforçar
o orçamento. Desde pequena, tinha o gosto incomum de observar
tempestades. Sim, gostava de observar tempestades, rastrear raios
e ouvir trovões. Queria quer ainda ser meteorologista.
Como explicar sua presença naquelas cenas? Sua mãe
diz que ela não tinha nada a ver com o que ocorria na prisão.
"Por acaso, estava lá quando tiraram aquelas fotos."
A
mãe deve estar certa. A função da soldada Lynndie
era só registrar os presos, preenchendo fichas e tirando-lhes
as impressões digitais. Não fazia parte do time de
guardas a quem se atribuem as torturas e humilhações
dos presos. Mas namorava um dos guardas, e talvez por isso estivesse
lá naquele momento. Por esse amor inoportuno, por ingenuidade,
descuido ou deslumbramento, acabou emprestando o rosto para aquelas
cenas. Pobre Lynndie. Posou para as fotos como quem quer perpetuar
a lembrança de uma temporada inesquecível e, para
o resto da vida, amargará a sorte de ter virado uma espécie
de mestre-de-cerimônias da indignidade, ou garota-progaganda
do opróbrio. Seu consolo é que não passa de
minúscula fração de um mal que a ultrapassa
em muito. Os Estados Unidos, com igual inconsciência e a mesma
cabeça de vento, iniciaram esta guerra julgando que dariam
um triunfal passeio. Ei-los engolfados num pesadelo que os atormentará
por anos a fio.
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