Edição 1853 . 12 de maio de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Entrevista: Robert Redford
Privilégio se conquista

Aos 66 anos, o ator explica por que ser o
maior ícone de Hollywood na década de 70
não foi o bastante para dar sentido à sua vida


Isabela Boscov

AP

"Há alguns anos falam mais das minhas rugas que dos meus personagens. A obsessão com a juventude é um aspecto triste da nossa cultura"

O maior astro (e o homem mais bonito) de Hollywood nos anos 70; o diretor premiado com o Oscar já em sua estréia, com Gente Como a Gente; o visionário que criou o Instituto Sundance nas montanhas do Estado de Utah, e que por meio dele pôs o cinema independente no mapa; o aguerrido defensor de causas ambientais e políticas. É raro que um indivíduo faça por merecer um só desses epítetos. Que o californiano Robert Redford seja capaz de batalhar em todas essas frentes e ainda hoje, aos 66 anos, manter uma sólida carreira como ator, faz dele um caso único. Dono de consideráveis inteligência e disciplina, Redford tem também uma importância especial para os brasileiros (e não só por causa de seu namorico com Sonia Braga, nos anos 80). Foi com um prêmio de Sundance que Walter Salles desenvolveu Central do Brasil, o marco do ressurgimento do cinema nacional. E é Redford também o produtor de Diários de Motocicleta, que Salles dirigiu e que recria a juventude do líder revolucionário Che Guevara. De sua propriedade de 2 000 hectares de natureza intocada em Utah, Redford falou a VEJA sobre beleza e velhice, sobre liberdade de expressão e o governo George W. Bush e também sobre sua afinidade com a cultura latino-americana.

Veja – O fato de ser um homem bonito alguma vez limitou a sua carreira?
Redford – Não quero parecer falsamente modesto, mas nunca me vi como um homem bonito. Em termos práticos, claro, o que importa é que os outros me viam dessa forma, e isso logo se tornou um dado perturbador. Cada vez que eu lia uma crítica sobre um filme que havia feito, essa questão da aparência parecia se sobrepor à qualidade do trabalho em si. A beleza se torna um rótulo e, como tal, é um fator de limitação. Mas não há nada que se possa fazer a respeito. É preciso conviver com o rótulo, e pronto. A única coisa que eu podia fazer, e fiz, foi começar a produzir os filmes em que atuava. Comecei em 1970 e produzi quase todos os filmes em que trabalhei naquela década.

Veja – Da mesma forma, o senhor se surpreendeu quando as pessoas começaram a comentar que o senhor estava envelhecendo?
Redford – Esse é um aspecto triste da nossa cultura. Nos Estados Unidos, ao menos, existe uma obsessão com a juventude. O envelhecimento é um processo inevitável, e não acho que se deveria escondê-lo como se fosse motivo de vergonha. Somos quem somos, e temos de carregar nossa vida conosco. Há alguns anos já as pessoas tendem a falar mais das minhas rugas que dos meus personagens, mas fazer o quê?

Veja – O senhor chegou aos anos 80 como o maior astro de Hollywood e um diretor premiado com o Oscar já em sua estréia, com Gente Como a Gente. E então diminuiu muito seu ritmo, em favor das causas do cinema independente e do ambientalismo. O senhor se arrepende desse relativo sumiço?
Redford – O sucesso extremo é perigoso, porque pode levar as pessoas a perder o rumo. Durante toda a década de 70, fiz dois ou três filmes por ano. Alguns deles foram fruto de grande investimento pessoal, como Todos os Homens do Presidente e O Candidato. Então, em 1980, decidi fazer uma pausa. Eu estava com mais de 40 anos, e esse me parecia ser um bom momento para refletir sobre o que eu gostaria de fazer com o meu futuro. Nunca cogitei deixar de atuar ou dirigir. Essa é a minha vida. Mas eu queria pôr em prática a idéia de um instituto dedicado ao fomento do cinema independente – ou seja, a idéia de Sundance – e sabia que teria de devotar muito tempo e energia a ela. Eu só não sabia quanto tempo e energia isso viria a me custar realmente, daí ter atuado menos nos anos 80. Hoje Sundance está muito bem estabelecido e não depende tanto de mim. Então posso voltar àquilo de que mais gosto, que é trabalhar no cinema e dar chance a outros profissionais para ingressar nele.

Veja – Como o senhor escolhe seus papéis hoje em dia?
Redford – Está cada vez mais difícil achar um bom papel. A indústria de cinema se tornou muito formulaica. Todo o interesse dela está no mercado jovem – que, por sinal, parece ficar mais e mais jovem a cada ano. Tudo tem a ver com ação e efeitos especiais, o que não é bem a minha praia. Como ator, gosto de usar todos os recursos que porventura eu tenha. Adoro comédias, por exemplo. Aliás, acho que deveria haver humor em tudo, até no drama mais profundo. Comecei minha carreira no teatro da Broadway, e a última peça que fiz foi uma comédia de muito sucesso, Descalços no Parque. Foi ela que me abriu as portas do cinema. Entrei nele, portanto, pela via da comédia. Mas, como também tinha feito muitos dramas na época em que havia televisão ao vivo, achei que deveria tentar combinar esses elementos sempre que possível nos papéis que escolho.

Veja – O senhor é um ferrenho defensor da idéia de que o governo deve dar financiamento às artes. Por quê?
Redford – Existe um excelente argumento de ordem prática para defender o fomento da produção artística nos Estados Unidos: trata-se de uma atividade que tem um impacto econômico considerável. Além de gerar milhares de empregos, o negócio da arte sem fins lucrativos movimenta algo como 134 bilhões de dólares por ano neste país. Ou seja, a arte não é boa só para a alma, ela também pode ser boa para os negócios. Esse é um dado que o governo gosta de escamotear. Uma das coisas que me incomodam nos governos deste país – e não apenas na atual gestão – é quanto eles negligenciam a arte. A arte é um componente valioso para o crescimento e a justiça sociais. Nós concedemos subsídios a muitas coisas questionáveis, mas não vejo como alguém pode questionar a importância da arte. O fato, contudo, é que, quanto mais conservador for o governo, mais ele tenderá a temer o poder da livre expressão e a descartá-la como irrelevante.

Veja – Algum dia essa situação já foi melhor?
Redford – Durante minha vida adulta, já passei por oito presidentes. Alguns períodos foram piores que outros – e este agora é o pior de todos. O que realmente mudou, contudo, foi o país. Não se pode olhar para a Presidência de Richard Nixon, por exemplo, e dizer que aqueles foram bons tempos na história americana. Mas havia uma divisão muito mais equilibrada entre democratas e republicanos nas esferas de poder, o que impedia ações unilaterais. Hoje, pela primeira vez na minha vida, vejo que temos algo apavorante, que é um mesmo partido – o Republicano – no controle do Congresso e do Senado. E também da Suprema Corte, e de vários setores da mídia. Ou seja, encolheu a oportunidade para que se expressem outros pontos de vista. E é isso que a América deveria representar, a chance de expressar diferentes opiniões e discuti-las abertamente. Reduzir essa chance, ou hostilizar as pessoas que se aproveitam dela, é antiamericano.

Veja – O senhor também já teve vários enfrentamentos com o atual governo em questões relativas ao ambiente.
Redford – Sim, em todos os pontos possíveis. Acho o governo atual uma desgraça do ponto de vista do ambientalismo. Ele está completamente amarrado aos interesses da indústria e do petróleo, e não hesita em sujar nosso ar e nossa água ou em devastar nossa terra para servir aos interesses de uns poucos. A gestão George W. Bush não quer nem ouvir falar em aquecimento global, por exemplo. São erros terríveis. Mas o pior insulto é como este governo se enrola na bandeira americana e manipula a opinião pública para que suas iniciativas pareçam uma questão de patriotismo – por exemplo, derrubar árvores e dizer que o objetivo é tornar mais saudáveis as florestas. Isso é uma farsa.

Veja – Quando o senhor se for, o que pode impedir que os 2 000 hectares de natureza intocada que o senhor mantém em Utah caiam em mãos erradas, ou que o Instituto Sundance passe a ser controlado pelos grandes estúdios?
Redford – Tratei de elaborar alguns arranjos legais para impedir que as coisas que me são caras caiam em mãos erradas. Dos meus 2 000 hectares, cerca de 1 800 estão vetados a qualquer tipo de exploração, mesmo após minha morte. Da mesma forma, o Instituto Sundance será obrigado a prosseguir como uma organização sem fins lucrativos e aberta apenas à comunidade artística, para que ali ela possa ter o direito de experimentar novas idéias e, se for o caso, cometer erros, sem que venha a ser cerceada por isso.

Veja – Diz a lenda que o senhor encontrou sua propriedade em Utah enquanto caçava leões da montanha. Não é algo que combine muito com a imagem de um ambientalista.
Redford – Até a minha juventude, de fato eu gostava de caçar, e também de correr de automóvel. Fui criado numa área muito pobre de Los Angeles. Estávamos em plena II Guerra Mundial, e vivíamos com muito sacrifício. O único escape parecia ser o esporte. Muito cedo, portanto, me tornei um pescador e caçador. Quando meus filhos nasceram, contudo, algo mudou. A idéia de preservar algo para eles ganhou importância. Este é um país com grande vocação para o desenvolvimento, mas é preciso tomar cuidado para que não nos desenvolvamos até a morte. A verdade é que desde o século XIX não precisamos mais caçar para comer. Eu mesmo parei em 1965.

Veja – O senhor já pensou em se candidatar a um cargo político?
Redford – Nunca. Isso seria um desastre. Cinema é o que eu sei fazer.

Veja – A militância política já enterrou várias carreiras artísticas, mas não parece ter prejudicado a sua. Ao que o senhor atribui isso?
Redford – Tento usar toda a inteligência possível na maneira como conduzo meu ativismo. Quando faço uma declaração pública, tomo cuidado para que todos os fatos sejam absolutamente precisos. Também não adoto a tática de inflamar os ânimos. Você nunca vai me ver num comício ou manifestação gritando e acusando o governo de pertencer ao mal. Tento ser sensato e racional, e me atenho sempre aos princípios constitucionais deste país. Se observo que eles estão sendo feridos, particularmente pelas altas lideranças da nação, preocupo-me. Mas não saio por aí bufando. Procuro usar os meios que estão à minha disposição, como o cinema. Creio que alguns atores gostam de militar de forma mais espalhafatosa para satisfazer ao próprio ego. Eu acredito em colocar o ego no lugar certo dele – usando o talento ou a profissão, e não a celebridade, para chamar a atenção do público para considerações que talvez não sejam tão evidentes. Minhas paixões pessoais, como a liberdade de expressão ou o conservacionismo, são bem pouco práticas. Mas vivemos num sistema, e só se pode chegar até um certo ponto quando se trabalha por fora desse sistema. Para avançar, é preciso trabalhar também no interior dele.

Veja – Por que o senhor decidiu produzir um filme sobre Che Guevara?
Redford – Eu conhecia o diário de viagem de Guevara fazia um bom tempo, e sentia que ali havia uma história especial. A maioria das pessoas, acho eu, não sabe qual foi a semente de que germinou o interesse de Guevara pelo continente e pelo povo latino-americano. O diário que ele escreveu durante uma viagem da Argentina até a Venezuela com o amigo Alberto Granado, em 1952, é muito revelador. Mostra que tudo começou como uma aventura de dois jovens, e terminou naquilo que hoje conhecemos como a iconografia de Che Guevara – seu engajamento com a esquerda e com a revolução. Aquele trecho da juventude dele era uma história que merecia ser contada. Além disso, há o meu forte interesse pela cultura latina, um interesse que cultivo desde a minha juventude.

Veja – Por que o senhor quis confiar Diários de Motocicleta a Walter Salles?
Redford – Alguns anos atrás, Sundance concedeu um prêmio a novos realizadores de vários países, para ajudá-los a seguir adiante. Um dos prêmios foi dado a Walter Salles, para que ele desenvolvesse Central do Brasil. Conheci Walter à época do prêmio, portanto, e nos tornamos muito amigos. Sinto que ele tem um talento especial, e quis buscar um projeto em que pudéssemos trabalhar juntos e, ao mesmo tempo, reforçar essa ligação dos Estados Unidos com a América Latina. Afinal, vocês são nossos vizinhos.

Veja – O senhor conhece a América Latina?
Redford – A ironia é que nunca visitei a América do Sul. Algo sempre parece dar errado.

Veja – O senhor namorou Sonia Braga, alguns anos atrás. Ela nunca o convidou para visitar o Brasil?
Redford – Sonia é uma grande amiga e uma pessoa maravilhosa. Ela me falava muito da América do Sul, e em especial do Brasil. Tenho muitos outros amigos sul-americanos também, o que tornaria uma viagem ainda mais prazerosa. Mas algo sempre parece surgir na última hora e atrapalhar os meus planos.

Veja – Certa vez um repórter perguntou por que o senhor tinha tanto senso de responsabilidade, e o senhor respondeu: "Culpa". Culpa pelo quê?
Redford – Culpa é a herança de qualquer família irlandesa católica, acho eu. Prefiro não analisar muito essa resposta porque não sei se, a esta altura da minha vida, esse tipo de auto-análise seria uma boa idéia. Mas acredito em fazer por merecer os privilégios que se tenha recebido.

 
 
 
 
topo voltar