|
|
Entrevista:
Robert
Redford
Privilégio
se conquista
Aos
66 anos, o ator explica por que ser o
maior ícone de Hollywood na década de 70
não foi o bastante para dar sentido à sua vida

Isabela Boscov
|
AP

|
"Há
alguns anos falam mais das minhas rugas que dos meus personagens.
A obsessão com a juventude é um aspecto
triste da nossa cultura" |
|
O
maior astro (e o homem mais bonito) de Hollywood nos anos 70; o
diretor premiado com o Oscar já em sua estréia, com
Gente Como a Gente; o visionário que criou o Instituto
Sundance nas montanhas do Estado de Utah, e que por meio dele pôs
o cinema independente no mapa; o aguerrido defensor de causas ambientais
e políticas. É raro que um indivíduo faça
por merecer um só desses epítetos. Que o californiano
Robert Redford seja capaz de batalhar em todas essas frentes e ainda
hoje, aos 66 anos, manter uma sólida carreira como ator,
faz dele um caso único. Dono de consideráveis inteligência
e disciplina, Redford tem também uma importância especial
para os brasileiros (e não só por causa de seu namorico
com Sonia Braga, nos anos 80). Foi com um prêmio de Sundance
que Walter Salles desenvolveu Central do Brasil, o marco
do ressurgimento do cinema nacional. E é Redford também
o produtor de Diários de Motocicleta, que Salles dirigiu
e que recria a juventude do líder revolucionário Che
Guevara. De sua propriedade de 2 000 hectares de natureza intocada
em Utah, Redford falou a VEJA sobre beleza e velhice, sobre liberdade
de expressão e o governo George W. Bush e também sobre
sua afinidade com a cultura latino-americana.
Veja O fato de ser um homem bonito alguma vez limitou
a sua carreira?
Redford Não quero parecer falsamente modesto,
mas nunca me vi como um homem bonito. Em termos práticos,
claro, o que importa é que os outros me viam dessa forma,
e isso logo se tornou um dado perturbador. Cada vez que eu lia uma
crítica sobre um filme que havia feito, essa questão
da aparência parecia se sobrepor à qualidade do trabalho
em si. A beleza se torna um rótulo e, como tal, é
um fator de limitação. Mas não há nada
que se possa fazer a respeito. É preciso conviver com o rótulo,
e pronto. A única coisa que eu podia fazer, e fiz, foi começar
a produzir os filmes em que atuava. Comecei em 1970 e produzi quase
todos os filmes em que trabalhei naquela década.
Veja Da mesma forma, o senhor se surpreendeu quando
as pessoas começaram a comentar que o senhor estava envelhecendo?
Redford Esse é um aspecto triste da nossa cultura.
Nos Estados Unidos, ao menos, existe uma obsessão com a juventude.
O envelhecimento é um processo inevitável, e não
acho que se deveria escondê-lo como se fosse motivo de vergonha.
Somos quem somos, e temos de carregar nossa vida conosco. Há
alguns anos já as pessoas tendem a falar mais das minhas
rugas que dos meus personagens, mas fazer o quê?
Veja O senhor chegou aos anos 80 como o maior astro
de Hollywood e um diretor premiado com o Oscar já em sua
estréia, com Gente Como a Gente. E então diminuiu
muito seu ritmo, em favor das causas do cinema independente e do
ambientalismo. O senhor se arrepende desse relativo sumiço?
Redford O sucesso extremo é perigoso, porque
pode levar as pessoas a perder o rumo. Durante toda a década
de 70, fiz dois ou três filmes por ano. Alguns deles foram
fruto de grande investimento pessoal, como Todos os Homens do
Presidente e O Candidato. Então, em 1980, decidi
fazer uma pausa. Eu estava com mais de 40 anos, e esse me parecia
ser um bom momento para refletir sobre o que eu gostaria de fazer
com o meu futuro. Nunca cogitei deixar de atuar ou dirigir. Essa
é a minha vida. Mas eu queria pôr em prática
a idéia de um instituto dedicado ao fomento do cinema independente
ou seja, a idéia de Sundance e sabia que teria
de devotar muito tempo e energia a ela. Eu só não
sabia quanto tempo e energia isso viria a me custar realmente, daí
ter atuado menos nos anos 80. Hoje Sundance está muito bem
estabelecido e não depende tanto de mim. Então posso
voltar àquilo de que mais gosto, que é trabalhar no
cinema e dar chance a outros profissionais para ingressar nele.
Veja Como o senhor escolhe seus papéis hoje
em dia?
Redford Está cada vez mais difícil achar
um bom papel. A indústria de cinema se tornou muito formulaica.
Todo o interesse dela está no mercado jovem que, por
sinal, parece ficar mais e mais jovem a cada ano. Tudo tem a ver
com ação e efeitos especiais, o que não é
bem a minha praia. Como ator, gosto de usar todos os recursos que
porventura eu tenha. Adoro comédias, por exemplo. Aliás,
acho que deveria haver humor em tudo, até no drama mais profundo.
Comecei minha carreira no teatro da Broadway, e a última
peça que fiz foi uma comédia de muito sucesso, Descalços
no Parque. Foi ela que me abriu as portas do cinema. Entrei
nele, portanto, pela via da comédia. Mas, como também
tinha feito muitos dramas na época em que havia televisão
ao vivo, achei que deveria tentar combinar esses elementos sempre
que possível nos papéis que escolho.
Veja O senhor é um ferrenho defensor da
idéia de que o governo deve dar financiamento às artes.
Por quê?
Redford Existe um excelente argumento de ordem
prática para defender o fomento da produção
artística nos Estados Unidos: trata-se de uma atividade que
tem um impacto econômico considerável. Além
de gerar milhares de empregos, o negócio da arte sem fins
lucrativos movimenta algo como 134 bilhões de dólares
por ano neste país. Ou seja, a arte não é boa
só para a alma, ela também pode ser boa para os negócios.
Esse é um dado que o governo gosta de escamotear. Uma das
coisas que me incomodam nos governos deste país e
não apenas na atual gestão é quanto
eles negligenciam a arte. A arte é um componente valioso
para o crescimento e a justiça sociais. Nós concedemos
subsídios a muitas coisas questionáveis, mas não
vejo como alguém pode questionar a importância da arte.
O fato, contudo, é que, quanto mais conservador for o governo,
mais ele tenderá a temer o poder da livre expressão
e a descartá-la como irrelevante.
Veja Algum dia essa situação já
foi melhor?
Redford Durante minha vida adulta, já passei
por oito presidentes. Alguns períodos foram piores que outros
e este agora é o pior de todos. O que realmente mudou,
contudo, foi o país. Não se pode olhar para a Presidência
de Richard Nixon, por exemplo, e dizer que aqueles foram bons tempos
na história americana. Mas havia uma divisão muito
mais equilibrada entre democratas e republicanos nas esferas de
poder, o que impedia ações unilaterais. Hoje, pela
primeira vez na minha vida, vejo que temos algo apavorante, que
é um mesmo partido o Republicano no controle
do Congresso e do Senado. E também da Suprema Corte, e de
vários setores da mídia. Ou seja, encolheu a oportunidade
para que se expressem outros pontos de vista. E é isso que
a América deveria representar, a chance de expressar diferentes
opiniões e discuti-las abertamente. Reduzir essa chance,
ou hostilizar as pessoas que se aproveitam dela, é antiamericano.
Veja O senhor também já teve vários
enfrentamentos com o atual governo em questões relativas
ao ambiente.
Redford Sim, em todos os pontos possíveis.
Acho o governo atual uma desgraça do ponto de vista do ambientalismo.
Ele está completamente amarrado aos interesses da indústria
e do petróleo, e não hesita em sujar nosso ar e nossa
água ou em devastar nossa terra para servir aos interesses
de uns poucos. A gestão George W. Bush não quer nem
ouvir falar em aquecimento global, por exemplo. São erros
terríveis. Mas o pior insulto é como este governo
se enrola na bandeira americana e manipula a opinião pública
para que suas iniciativas pareçam uma questão de patriotismo
por exemplo, derrubar árvores e dizer que o objetivo
é tornar mais saudáveis as florestas. Isso é
uma farsa.
Veja Quando o senhor se for, o que pode impedir
que os 2 000 hectares de natureza intocada que o senhor mantém
em Utah caiam em mãos erradas, ou que o Instituto Sundance
passe a ser controlado pelos grandes estúdios?
Redford Tratei de elaborar alguns arranjos legais
para impedir que as coisas que me são caras caiam em mãos
erradas. Dos meus 2 000 hectares, cerca de 1 800 estão vetados
a qualquer tipo de exploração, mesmo após minha
morte. Da mesma forma, o Instituto Sundance será obrigado
a prosseguir como uma organização sem fins lucrativos
e aberta apenas à comunidade artística, para que ali
ela possa ter o direito de experimentar novas idéias e, se
for o caso, cometer erros, sem que venha a ser cerceada por isso.
Veja Diz a lenda que o senhor encontrou sua propriedade
em Utah enquanto caçava leões da montanha. Não
é algo que combine muito com a imagem de um ambientalista.
Redford Até a minha juventude, de fato eu gostava
de caçar, e também de correr de automóvel.
Fui criado numa área muito pobre de Los Angeles. Estávamos
em plena II Guerra Mundial, e vivíamos com muito sacrifício.
O único escape parecia ser o esporte. Muito cedo, portanto,
me tornei um pescador e caçador. Quando meus filhos nasceram,
contudo, algo mudou. A idéia de preservar algo para eles
ganhou importância. Este é um país com grande
vocação para o desenvolvimento, mas é preciso
tomar cuidado para que não nos desenvolvamos até a
morte. A verdade é que desde o século XIX não
precisamos mais caçar para comer. Eu mesmo parei em 1965.
Veja O senhor já pensou em se candidatar
a um cargo político?
Redford Nunca. Isso seria um desastre. Cinema é
o que eu sei fazer.
Veja A militância política já
enterrou várias carreiras artísticas, mas não
parece ter prejudicado a sua. Ao que o senhor atribui isso?
Redford Tento usar toda a inteligência possível
na maneira como conduzo meu ativismo. Quando faço uma declaração
pública, tomo cuidado para que todos os fatos sejam absolutamente
precisos. Também não adoto a tática de inflamar
os ânimos. Você nunca vai me ver num comício
ou manifestação gritando e acusando o governo de pertencer
ao mal. Tento ser sensato e racional, e me atenho sempre aos princípios
constitucionais deste país. Se observo que eles estão
sendo feridos, particularmente pelas altas lideranças da
nação, preocupo-me. Mas não saio por aí
bufando. Procuro usar os meios que estão à minha disposição,
como o cinema. Creio que alguns atores gostam de militar de forma
mais espalhafatosa para satisfazer ao próprio ego. Eu acredito
em colocar o ego no lugar certo dele usando o talento ou
a profissão, e não a celebridade, para chamar a atenção
do público para considerações que talvez não
sejam tão evidentes. Minhas paixões pessoais, como
a liberdade de expressão ou o conservacionismo, são
bem pouco práticas. Mas vivemos num sistema, e só
se pode chegar até um certo ponto quando se trabalha por
fora desse sistema. Para avançar, é preciso trabalhar
também no interior dele.
Veja Por que o senhor decidiu produzir um filme
sobre Che Guevara?
Redford Eu conhecia o diário de viagem de Guevara
fazia um bom tempo, e sentia que ali havia uma história especial.
A maioria das pessoas, acho eu, não sabe qual foi a semente
de que germinou o interesse de Guevara pelo continente e pelo povo
latino-americano. O diário que ele escreveu durante uma viagem
da Argentina até a Venezuela com o amigo Alberto Granado,
em 1952, é muito revelador. Mostra que tudo começou
como uma aventura de dois jovens, e terminou naquilo que hoje conhecemos
como a iconografia de Che Guevara seu engajamento com a esquerda
e com a revolução. Aquele trecho da juventude dele
era uma história que merecia ser contada. Além disso,
há o meu forte interesse pela cultura latina, um interesse
que cultivo desde a minha juventude.
Veja Por que o senhor quis confiar Diários
de Motocicleta a Walter Salles?
Redford Alguns anos atrás, Sundance concedeu
um prêmio a novos realizadores de vários países,
para ajudá-los a seguir adiante. Um dos prêmios foi
dado a Walter Salles, para que ele desenvolvesse Central do Brasil.
Conheci Walter à época do prêmio, portanto,
e nos tornamos muito amigos. Sinto que ele tem um talento especial,
e quis buscar um projeto em que pudéssemos trabalhar juntos
e, ao mesmo tempo, reforçar essa ligação dos
Estados Unidos com a América Latina. Afinal, vocês
são nossos vizinhos.
Veja O senhor conhece a América Latina?
Redford A ironia é que nunca visitei a América
do Sul. Algo sempre parece dar errado.
Veja O senhor namorou Sonia Braga, alguns anos
atrás. Ela nunca o convidou para visitar o Brasil?
Redford Sonia é uma grande amiga e uma pessoa
maravilhosa. Ela me falava muito da América do Sul, e em
especial do Brasil. Tenho muitos outros amigos sul-americanos também,
o que tornaria uma viagem ainda mais prazerosa. Mas algo sempre
parece surgir na última hora e atrapalhar os meus planos.
Veja Certa vez um repórter perguntou por
que o senhor tinha tanto senso de responsabilidade, e o senhor respondeu:
"Culpa". Culpa pelo quê?
Redford Culpa é a herança de qualquer
família irlandesa católica, acho eu. Prefiro não
analisar muito essa resposta porque não sei se, a esta altura
da minha vida, esse tipo de auto-análise seria uma boa idéia.
Mas acredito em fazer por merecer os privilégios que se tenha
recebido.
|