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Em
foco: Gustavo
Franco
Favela
e informalidade
"Não
há dúvida de que, assim como a favela é o berço
do traficante, a economia informal é a creche da corrupção,
pública e privada"
Favela
pode ter muitos significados. Um dos mais interessantes diz respeito
à reação das pessoas e empresas diante de dificuldades,
freqüentemente impostas pelo próprio poder público,
para o desempenho de suas atividades, inclusive a de morar. Pode-se
dizer, por exemplo, que nosso sistema tributário, bem como
a legislação trabalhista, "faveliza" a economia, pois
condena empresas e pessoas a permanecer à margem das regras.
A "favela", nessa acepção, é a expressão
espacial da "economia informal", que adquire, na Rocinha como em
qualquer parte do Brasil, uma feição concreta, a de
uma "cidade precária", sem leis nem direitos, sobreposta
à cidade "formal".
Ilustração Ale Setti
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A economia informal e a favela se confundem, ambas desenvolvendo
uma relação de coexistência pacífica
com a política, no âmbito da qual se formam certas
reciprocidades. Sucessivas gerações de políticos,
cariocas em especial, foram tornando a favela intocável,
reforçando a identidade dessas "comunidades", as quais, tal
como as empresas informais, passam a não funcionar pelas
mesmas regras que valem para o resto da cidade. A começar
pelo direito de propriedade, que permanece mal definido, e de propósito,
para que o político "proteja" as comunidades. Estas, dessa
forma, se vêem cercadas de um "muro" invisível, que
impede a entrada do Estado, com seus atestados, impostos, posturas,
serviços, inclusive o de polícia.
Esse
"muro", todavia, é instável, como a dualidade entre
o formal e o informal, e tende à degeneração.
A favela e a cidade se repelem, embora dependam uma da outra. Na
cidade há desconforto, para não falar de tentações,
em perceber-se que na favela, ou na "informalidade", tudo é
permitido, não há tributos, encargos trabalhistas,
restrições ambientais, nada disso.
Na
favela, por outro lado, a ausência de Estado resulta na ascensão
de uma liderança "orgânica", capaz de exercer o chamado
poder de polícia. Ou seja, em razão do "muro", cria-se
a situação ideal para o crime organizado "governar",
cooptar e transformar essas comunidades em reféns ou apêndices
de atividades ilegais porém muito rentáveis.
Na
economia informal o processo é semelhante, também
degenerativo, embora não tenha, por ora, no Brasil, alcançado
os extremos a que chegou na Rússia, por exemplo. O sujeito
pode começar meio inocente, abandonando certas regrinhas
tributárias e trabalhistas, mas, com o crescimento do "caixa
dois", aparece a necessidade de "lavar" dinheiro, ou de estreitar
relacionamentos com fornecedores "ilegais", contrabandistas ou receptadores,
e transportadores ou distribuidores que podem se organizar como
quadrilhas, e que garantem vantagens comerciais, e assim, aos pouquinhos,
a empresa vai se enredando com toda sorte de criminosos. Na Rússia,
formaram-se gigantescos "grupos empresariais", associados a "máfias",
que se embrenham nos mais variados setores onde, por motivos variados,
prevalece a informalidade.
Na
favela, o sujeito não investe no barraco porque a posse é
duvidosa, daí o gasto em eletrodomésticos, antenas
parabólicas e aparelhos de DVD, que se amontoam em barracos
de péssima aparência. Nas empresas "informais", a "propriedade"
também é controversa, em razão de contingências
tributárias e inadimplências, e o empresário
investe fora da empresa, que também tem péssima aparência
quando observada através de sua contabilidade formal.
Não
há dúvida de que, assim como a favela é o berço
do traficante, a economia informal é a creche da corrupção,
pública e privada. Sendo assim, é exasperante perceber
que o poder público não reconhece a favela, ou a economia
informal, como problema. Episodicamente reage com violência
diante do que considera abuso ou provocação, o que
apenas agrava as coisas. A atitude é semelhante à
que prevalecia no tempo em que se achava que a inflação
não era problema, e, quando se entendeu contrariamente, a
primeira reação foi violenta e ineficaz: congelamentos
e confiscos. Demoramos a compreender a abrangência do problema
e a extensão do esforço intelectual e da mobilização
para erradicá-lo. O mesmo deve ocorrer com a informalidade.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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