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André
Petry
Fuerza, Dieguito!
"Maradona,
com
a rebeldia peculiar
de infringir todas as normas, deve ser
destronado de sua condição de ídolo
nacional, pois representa o que há
de pior na
Argentina"
Desde
que Diego Armando Maradona, o astro do futebol argentino, voltou
a viver o drama das internações hospitalares provocadas
pela dependência da cocaína, produziram-se algumas
interpretações sobre o caso. Alguns exemplos:
Maradona, com sua negação pública da vida e
seu hábito de responsabilizar terceiros por sua desgraça
pessoal, traduz à perfeição o espírito
melancólico de seu povo: os argentinos, que, exilados em
seu território austral, também vivem a culpar os outros
pelos próprios erros.
Maradona, com sua trajetória ímpar de festejadíssima
celebridade mundial a um atormentado viciado em drogas, é
a encarnação da história recente do país
a exemplar Argentina do início do século passado,
que rivalizava em riqueza e abundância com as maiores potências
mundiais, ao país naufragado da atualidade.
Maradona, com a rebeldia peculiar de infringir todas as normas,
seja no célebre gol de mão que levou a seleção
argentina a levantar a taça de campeão mundial em
1986, seja no consumo quase público de drogas ilícitas,
deve ser destronado de sua condição de ídolo
nacional, na medida em que representa o que há de pior na
Argentina.
Também
apareceram algumas das inevitáveis teses comparando Maradona
e a Argentina com Pelé e o Brasil, com uma óbvia vantagem
para o atleta brasileiro, que mantém sua estrela em alta
e nunca fugiu de clínicas ou se envolveu com drogas. E vantagem,
também, para os brasileiros em geral, que, tendo ídolos
mais compatíveis com o bom modelo, seriam mais felizes e
menos dramáticos que os argentinos. É raro que um
acontecimento como as internações de Maradona provoque
explicações tão estapafúrdias. Falta
a percepção básica de que não convém
confundir o controle social dos comportamentos humanos com o controle
químico. Em condições aparentemente normais,
é o controle social que vale. Vale para Pelé. Na situação
de Maradona, infelizmente, em que o atleta é vítima
de um vício, a neurobiologia ensina que seu comportamento
errático, alterado, transtornado é fortemente
determinado pela necessidade química. A isso é que
se dá o nome de vício. E vício, ora, não
é a expressão da história ou do caráter
do argentino.
O
muchacho de Villa Fiorito, que saiu da pobreza para brilhar nos
gramados do mundo, virou uma celebridade. Era unanimidade mundial,
tal como Pelé. Derrotado pela droga, Maradona conheceu o
inferno pessoal e o purgatório social. Por onde quer que
ande, é visto como um pária, um delinqüente,
um excluído em decorrência das drogas e do comportamento
amalucado, razão pela qual talvez tenha optado por exilar-se
na ilha de Fidel Castro. Mas, ao mesmo tempo em que é um
excluído social, Maradona também é visto como
ídolo nacional, monumento ao talento e à habilidade,
pois aos 43 anos ainda é suficientemente jovem para remeter
ao seu passado recente de glórias. Como será o drama
de conviver com a condição, simultânea e antagônica,
de ídolo nacional e pária social? Para um povo que
teve Jorge Luis Borges, Carlos Gardel, Evita Perón ou Che
Guevara não são ídolos que faltam. A luta de
Maradona para vencer seu demônio do meio-dia, para não
se entregar à morte e ao frio, é comovente. Seria
bom que despertasse nos teóricos um pouco de compaixão.
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