Edição 1853 . 12 de maio de 2004

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André Petry
Fuerza, Dieguito!

"Maradona, com a rebeldia peculiar
de infringir todas as normas, deve ser
destronado de sua condição de ídolo
nacional, pois representa o que há
de pior
na Argentina"

Desde que Diego Armando Maradona, o astro do futebol argentino, voltou a viver o drama das internações hospitalares provocadas pela dependência da cocaína, produziram-se algumas interpretações sobre o caso. Alguns exemplos:

• Maradona, com sua negação pública da vida e seu hábito de responsabilizar terceiros por sua desgraça pessoal, traduz à perfeição o espírito melancólico de seu povo: os argentinos, que, exilados em seu território austral, também vivem a culpar os outros pelos próprios erros.

• Maradona, com sua trajetória ímpar de festejadíssima celebridade mundial a um atormentado viciado em drogas, é a encarnação da história recente do país – a exemplar Argentina do início do século passado, que rivalizava em riqueza e abundância com as maiores potências mundiais, ao país naufragado da atualidade.

• Maradona, com a rebeldia peculiar de infringir todas as normas, seja no célebre gol de mão que levou a seleção argentina a levantar a taça de campeão mundial em 1986, seja no consumo quase público de drogas ilícitas, deve ser destronado de sua condição de ídolo nacional, na medida em que representa o que há de pior na Argentina.

Também apareceram algumas das inevitáveis teses comparando Maradona e a Argentina com Pelé e o Brasil, com uma óbvia vantagem para o atleta brasileiro, que mantém sua estrela em alta e nunca fugiu de clínicas ou se envolveu com drogas. E vantagem, também, para os brasileiros em geral, que, tendo ídolos mais compatíveis com o bom modelo, seriam mais felizes e menos dramáticos que os argentinos. É raro que um acontecimento como as internações de Maradona provoque explicações tão estapafúrdias. Falta a percepção básica de que não convém confundir o controle social dos comportamentos humanos com o controle químico. Em condições aparentemente normais, é o controle social que vale. Vale para Pelé. Na situação de Maradona, infelizmente, em que o atleta é vítima de um vício, a neurobiologia ensina que seu comportamento – errático, alterado, transtornado – é fortemente determinado pela necessidade química. A isso é que se dá o nome de vício. E vício, ora, não é a expressão da história ou do caráter do argentino.

O muchacho de Villa Fiorito, que saiu da pobreza para brilhar nos gramados do mundo, virou uma celebridade. Era unanimidade mundial, tal como Pelé. Derrotado pela droga, Maradona conheceu o inferno pessoal e o purgatório social. Por onde quer que ande, é visto como um pária, um delinqüente, um excluído em decorrência das drogas e do comportamento amalucado, razão pela qual talvez tenha optado por exilar-se na ilha de Fidel Castro. Mas, ao mesmo tempo em que é um excluído social, Maradona também é visto como ídolo nacional, monumento ao talento e à habilidade, pois aos 43 anos ainda é suficientemente jovem para remeter ao seu passado recente de glórias. Como será o drama de conviver com a condição, simultânea e antagônica, de ídolo nacional e pária social? Para um povo que teve Jorge Luis Borges, Carlos Gardel, Evita Perón ou Che Guevara não são ídolos que faltam. A luta de Maradona para vencer seu demônio do meio-dia, para não se entregar à morte e ao frio, é comovente. Seria bom que despertasse nos teóricos um pouco de compaixão.

 
 
 
 
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