Edição 1 644 -12/4/2000

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O professor, a cidade
e a civilidade

Ironia e paradoxo: as idéias certas para a eleição municipal estão na agenda do candidato errado

Tudo é possível neste mundo, mas se em alguma parte houvesse um campeonato de improbabilidades, vale dizer, um concurso sobre os eventos mais cotados para não acontecer, uma aposta segura seria a de que o professor Roberto Mangabeira Unger não será o prefeito de São Paulo. Dito isto, registre-se que ele é o candidato, ou candidato a candidato, com as propostas mais pertinentes. Unger tem um plano radical para tirar os automóveis das ruas. Um cinturão seria traçado em torno do centro expandido da cidade. Para circular na área assim circunscrita, haveria duas opções. Ou bem se pagaria, caso se quisesse entrar com o carro particular, ou se recorreria a uma renovada rede de transporte público, composta de metrô de superfície, ônibus e microônibus. As propostas de Unger valem não apenas para São Paulo, mas para as grandes cidades brasileiras em geral, e mesmo as médias. Conhecê-las pode interessar mesmo a quem não mora na capital paulista.

Quem é o professor Unger?, estará se perguntando o leitor a esta altura. Filho de mãe brasileira e pai americano, trata-se do espécime com quem menos se espera deparar numa eleição municipal. Unger é um intelectual, sobretudo. Aos 22 anos já era professor da Universidade Harvard, onde fez brilhante carreira. Paralelamente à vida acadêmica, sempre nos Estados Unidos, onde morou a maior parte da vida, foi dando suas estocadas na política brasileira. A primeira foi quando, na década de 70, publicou, em parceria com outro jovem professor, o economista Edmar Bacha, uma proposta para a abertura do regime, então sob a tutela militar. Mais tarde tentou uma parceria com Leonel Brizola e, na última eleição presidencial, com Ciro Gomes. Nada que desse muito certo. Desta vez é candidato a candidato, em São Paulo, pelo partido de Ciro, o PPS. Não deve dar certo, de novo, mesmo que venha a ser realmente candidato. Nem por isso suas idéias valem menos.

Eis outra, das expostas num artigo de jornal (Folha de S. Paulo, 16/3/2000): devolver um centro, ou centros, para São Paulo. "Um dos problemas básicos de São Paulo é ter afundado num pluricentrismo bastardo", escreveu. O centro histórico deteriorou-se. Os novos são "pouco mais que avenidas comerciais". Sumiram os lugares de convivência, substituídos por esse arremedo de espaço público que são os shopping centers. O professor propõe uma política de instauração de "centros verdadeiros", com a instalação de parques e praças, a ampliação de pontos de encontro e de embarque, a multiplicação de festas, feiras e casas de espetáculo. Outra idéia ainda é mobilizar a comunidade para participar de uma política de segurança. Desarmadas, mas organizadas, e dotadas de equipamento de comunicação, as pessoas atuariam na prevenção ao crime, em contato permanente com a polícia.

Não é apenas a eleição de Unger que é improvável. Ele é, em si, o mais improvável dos candidatos. Para começar, fala com sotaque americano. Adivinha-se o espanto do povinho da periferia ao dar com tal tipo pedindo-lhe o voto. Mesmo que tivesse alguma chance, é duvidoso que se devesse votar nele. Boas idéias são uma coisa, viabilizá-las é outra. Viabilizá-las depende de liderança, diálogo com a sociedade, ampla circulação em diferentes setores e capacidade de articulá-los para a fabricação de consensos, qualidades do bom político que o professor Unger, neófito que é na área, em princípio não tem. Presta ele um serviço, no entanto, com suas propostas – para começar, porque põe a eleição municipal nos devidos termos. Pode-se ter por certo que na campanha que vem aí se falará de tudo, menos do que se deve. De desemprego, por exemplo, se falará muito. Ora, não há o que um prefeito possa fazer contra o desemprego a não ser empregar gente na prefeitura, o que não significa senão dar alento ao empreguismo. A tendência a "nacionalizar" as eleições municipais, agitando nelas os temas mais gerais, como os de política econômica, é irmã gêmea de outra, igualmente nefasta, que é considerar tais eleições apenas escada para as seguintes, estaduais ou federais.

Unger revaloriza a campanha municipal ao propor temas de fato municipais, mas também por propor os temas certos. Há muito ficou claro que automóvel e cidade são incompatíveis. Ou se salva um ou a outra. Até agora, no Brasil, trabalhou-se para salvar o automóvel. Talvez seja chegada a hora de salvar a cidade. Têm-se multiplicado os investimentos em condomínios fechados e shopping centers, antíteses da cidade, no sentido de que representam uma fuga dela e uma proteção contra ela, na mesma medida em que escasseiam os programas voltados para os reais espaços urbanos. De cidade, a "civitas" romana, ou do espaço urbano, a "urbs", derivam substantivos como civilidade e urbanidade. Ao investir na cidade, é na civilidade e na urbanidade que se investe. A eleição, não só a de São Paulo, pode ser um caminho para isso, desde que na campanha se proponham os temas certos.