No papel de mocinho
Brasileiros
acham que os índios são bons e protegem a
natureza. As coisas ruins aprenderam dos brancos
Alexandre Mansur
Paulo Jares

Crianças no
Parque Nacional do Xingu: saúde melhor e terras
regularizadas |
O escrivão da
frota de Cabral, Pero Vaz de Caminha, não conteve
o entusiasmo e escreveu ao rei de Portugal sobre a graça
e a boa índole dos habitantes da terra recém-descoberta.
Os colonizadores que desbravaram o território, contudo,
entraram em conflito com os nativos, que acabaram reduzidos
a uma porcentagem ínfima da população
apenas 0,2%. Eles foram igualmente desprezados como
selvagens e preguiçosos. A novidade é que,
500 anos depois da louvação de Vaz de Caminha,
os índios voltaram a usufruir excelente imagem pública.
Uma pesquisa inédita conduzida pelo Ibope a pedido
de uma ONG ecológica, o Instituto Socioambiental
(ISA), constatou que a esmagadora maioria dos brasileiros
atribui a eles características positivas, como pureza
moral e respeito ao meio ambiente. O resultado surpreende
pela consistência. Oito em cada dez brasileiros acreditam
que os índios são bons por natureza e aprendem
dos brancos as coisas ruins. Nove em dez acham que ajudam
a conservar o meio ambiente. O apoio às reivindicações
por terras e à preservação cultural
é majoritário.
A
imagem favorável não se deixou abalar por
evidências desabonadoras recentes a condenação
do cacique Paulinho Paiakan por estupro, em 1992
ou pela constatação de que os caiapós
vendem ilegalmente o mogno da reserva aos madeireiros. Os
freqüentes conflitos com posseiros e garimpeiros, por
sua vez, só reforçaram a opinião de
que os índios são vítimas da cobiça
dos brancos. Embora quase 40% dos entrevistados admitam
que os índios são violentos, 89% pensam que
eles só recorrem à força bruta contra
aqueles que invadem suas terras. "Pode ser que exista uma
visão até romântica das pessoas", admite
o antropólogo Carlos Alberto Ricardo, do ISA. "Mas
o capital simbólico é o que os índios
têm de mais valioso." A imagem idealizada do bom selvagem
é antiga e qualquer um que já leu os romances
de José de Alencar sabe dos exageros de bom-mocismo
atribuído aos índios. A novidade é
a aura de heroísmo ecológico e político
agregado ao pessoal de cocar. É quase sempre sob
esse prisma que os indígenas aparecem na imprensa
e nos programas de televisão.
Os índios são,
naturalmente, sujeitos às mesmas tentações
que qualquer ser humano. Apesar da tanga e das penas coloridas,
eles são motivados por sentimentos universais, incluindo
ambição, cobiça sexual e desejo de
poder. O que colocou a maioria dos brasileiros na mesma
trincheira com os índios parece ter sido o convencimento
geral de que se trata de um povo frágil, que precisa
ser ajudado a preservar uma identidade cultural ameaçada
pelos recursos infinitamente superiores da população
majoritária. Os próprios indígenas
já entenderam que a melhor arma é o apoio
da opinião pública. Foi assim com o xavante
Mário Juruna, que se tornou popular gravando as promessas
das autoridades em Brasília e se elegeu deputado
no início da década de 80. Ou com o cacique
Raoni, um caiapó que virou amigo de roqueiros internacionais
e exibiu seu beiço de pau no exterior. A pesquisa
do Ibope constatou que 60% dos entrevistados acreditam que
os índios vão sobreviver e preservar sua identidade,
seja nas reservas ou vivendo nas cidades.
Claudio Rossi

Xavantes de Mato Grosso:
crescimento populacional
acima da média |
Trata-se de uma espantosa
virada de expectativa. Há quinze anos, mesmo os defensores
dos índios eram pessimistas. "A opinião quase
consensual dos antropólogos, das autoridades e da
população em geral era que a causa indígena
estava perdida, que eles iam acabar absorvidos pela civilização
branca", diz o antropólogo Ricardo. A visão
mais otimista, se podemos dizer assim, era que os índios
sobreviveriam, mas misturados na população,
e se perderia a atual diversidade de tradições
e línguas. O cenário mudou em 1995, quando
os primeiros levantamentos confiáveis mostraram que
o contingente populacional indígena estava se recuperando.
Sabe-se agora que não apenas se preservou a pluralidade
cultural como ela está aumentando à medida
que novas tribos são contactadas pela Funai. Estima-se
que possam existir até duas dezenas de tribos ainda
sem contacto com a civilização.
O ritmo de crescimento
da população indígena é vigoroso.
Segundo o levantamento do ISA, cerca de 300.000 pessoas
habitam terras indígenas. Somando-se aos que vivem
em áreas urbanas, chega-se a 350.000. Significa um
crescimento de 17% em cinco anos, muito acima da média
da população em geral. A recuperação
não é homogênea. Alguns grupos estão
em situação delicada. Cerca de 70% das etnias
têm menos de 1.000 pessoas. A tribo juma, da bacia
do Rio Purus, no Amazonas, está com os anos contados.
As três últimas mulheres jumas casaram-se com
índios uru-eu-wau-wau e a etnia vai desaparecer.
De qualquer forma, a situação já foi
pior. Estima-se que 900 etnias desapareceram nos últimos
cinco séculos. Hoje, entre as 227 etnias no país,
os principais grupos estão crescendo.
A explicação
fundamental para o crescimento acelerado da população
indígena é a melhoria nas condições
de saúde. Nos últimos cinco anos, a Fundação
Nacional de Saúde (Funasa), órgão do
Ministério da Saúde, está fazendo um
esforço para aumentar a quantidade de postos e pessoas
treinadas nas tribos. Já há 1 600 agentes
de saúde indígena no país e a Funasa
espera chegar a 2.600 até o final de 2001, o que
daria um para cada aldeia. A primeira turma de 110 índios
vai receber o diploma de enfermagem em junho. "Esse pessoal
tem mais acesso às populações do que
os enfermeiros brancos, o que lhes dá melhores condições
de disseminar informações sobre higiene e
cuidados pessoais", diz o médico Ubiratan Pedrosa,
diretor de operações da Funasa. Nos últimos
quatro anos, a cobertura de vacinação entre
crianças nas aldeias aumentou de 33% para 50%. No
ano passado, pela primeira vez, 59% dos índios foram
vacinados contra o vírus da gripe. Fora da Amazônia,
a maioria das reservas são pequenas e próximas
aos centros urbanos, com graves problemas de saneamento.
A principal causa de mortalidade infantil é a diarréia
provocada por infecções intestinais. São
comuns as gripes que evoluem para pneumonia e, em algumas
regiões, a tuberculose é endêmica. Outras
áreas são de difícil acesso, dificultando
o trabalho dos agentes de saúde. Apenas um terço
das aldeias tem comunicação por rádio.
Outro fator decisivo
na melhoria das condições de vida nas tribos
é a situação fundiária bem mais
confortável. No início da década de
90, apenas 27 milhões de hectares estavam regularizados,
o equivalente a menos de 28% do território indígena.
Agora, já estão garantidos 96% das terras.
Nos últimos cinco anos, eles ganharam uma área
equivalente ao Estado de Goiás. Em 1991, os guaranis
kaiowás de Mato Grosso do Sul se espremiam em oito
reservas. Cada família dispunha do equivalente a
1,5 hectare, perto de vinte vezes menos que um módulo-padrão
do Incra. Os índios sobreviviam como trabalhadores
nas fazendas próximas e as oito aldeias se transformaram
em vilas-dormitórios. Agora o número de reservas
cresceu para 22. Os exemplos de recuperação
estão por toda parte. Na década de 70, a população
panará, na divisa de Mato Grosso com o Pará,
reduziu-se a 79 sobreviventes, todos velhos e crianças.
Hoje, donos de reserva própria, já são
200. "Nós estamos voltando", comemora o índio
Marcos Terena, coordenador dos Direitos Indígenas
na Funai.
Saiba
mais |
|
|
|