Edição 1 644 -12/4/2000

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No papel de mocinho

Brasileiros acham que os índios são bons e protegem a natureza. As coisas ruins aprenderam dos brancos

Alexandre Mansur


Paulo Jares

Crianças no Parque Nacional do Xingu: saúde melhor e terras regularizadas


O escrivão da frota de Cabral, Pero Vaz de Caminha, não conteve o entusiasmo e escreveu ao rei de Portugal sobre a graça e a boa índole dos habitantes da terra recém-descoberta. Os colonizadores que desbravaram o território, contudo, entraram em conflito com os nativos, que acabaram reduzidos a uma porcentagem ínfima da população – apenas 0,2%. Eles foram igualmente desprezados como selvagens e preguiçosos. A novidade é que, 500 anos depois da louvação de Vaz de Caminha, os índios voltaram a usufruir excelente imagem pública. Uma pesquisa inédita conduzida pelo Ibope a pedido de uma ONG ecológica, o Instituto Socioambiental (ISA), constatou que a esmagadora maioria dos brasileiros atribui a eles características positivas, como pureza moral e respeito ao meio ambiente. O resultado surpreende pela consistência. Oito em cada dez brasileiros acreditam que os índios são bons por natureza e aprendem dos brancos as coisas ruins. Nove em dez acham que ajudam a conservar o meio ambiente. O apoio às reivindicações por terras e à preservação cultural é majoritário.

A imagem favorável não se deixou abalar por evidências desabonadoras recentes – a condenação do cacique Paulinho Paiakan por estupro, em 1992 – ou pela constatação de que os caiapós vendem ilegalmente o mogno da reserva aos madeireiros. Os freqüentes conflitos com posseiros e garimpeiros, por sua vez, só reforçaram a opinião de que os índios são vítimas da cobiça dos brancos. Embora quase 40% dos entrevistados admitam que os índios são violentos, 89% pensam que eles só recorrem à força bruta contra aqueles que invadem suas terras. "Pode ser que exista uma visão até romântica das pessoas", admite o antropólogo Carlos Alberto Ricardo, do ISA. "Mas o capital simbólico é o que os índios têm de mais valioso." A imagem idealizada do bom selvagem é antiga e qualquer um que já leu os romances de José de Alencar sabe dos exageros de bom-mocismo atribuído aos índios. A novidade é a aura de heroísmo ecológico e político agregado ao pessoal de cocar. É quase sempre sob esse prisma que os indígenas aparecem na imprensa e nos programas de televisão.

Os índios são, naturalmente, sujeitos às mesmas tentações que qualquer ser humano. Apesar da tanga e das penas coloridas, eles são motivados por sentimentos universais, incluindo ambição, cobiça sexual e desejo de poder. O que colocou a maioria dos brasileiros na mesma trincheira com os índios parece ter sido o convencimento geral de que se trata de um povo frágil, que precisa ser ajudado a preservar uma identidade cultural ameaçada pelos recursos infinitamente superiores da população majoritária. Os próprios indígenas já entenderam que a melhor arma é o apoio da opinião pública. Foi assim com o xavante Mário Juruna, que se tornou popular gravando as promessas das autoridades em Brasília e se elegeu deputado no início da década de 80. Ou com o cacique Raoni, um caiapó que virou amigo de roqueiros internacionais e exibiu seu beiço de pau no exterior. A pesquisa do Ibope constatou que 60% dos entrevistados acreditam que os índios vão sobreviver e preservar sua identidade, seja nas reservas ou vivendo nas cidades.

Claudio Rossi

Xavantes de Mato Grosso:
crescimento populacional
acima da média

Trata-se de uma espantosa virada de expectativa. Há quinze anos, mesmo os defensores dos índios eram pessimistas. "A opinião quase consensual dos antropólogos, das autoridades e da população em geral era que a causa indígena estava perdida, que eles iam acabar absorvidos pela civilização branca", diz o antropólogo Ricardo. A visão mais otimista, se podemos dizer assim, era que os índios sobreviveriam, mas misturados na população, e se perderia a atual diversidade de tradições e línguas. O cenário mudou em 1995, quando os primeiros levantamentos confiáveis mostraram que o contingente populacional indígena estava se recuperando. Sabe-se agora que não apenas se preservou a pluralidade cultural como ela está aumentando à medida que novas tribos são contactadas pela Funai. Estima-se que possam existir até duas dezenas de tribos ainda sem contacto com a civilização.

O ritmo de crescimento da população indígena é vigoroso. Segundo o levantamento do ISA, cerca de 300.000 pessoas habitam terras indígenas. Somando-se aos que vivem em áreas urbanas, chega-se a 350.000. Significa um crescimento de 17% em cinco anos, muito acima da média da população em geral. A recuperação não é homogênea. Alguns grupos estão em situação delicada. Cerca de 70% das etnias têm menos de 1.000 pessoas. A tribo juma, da bacia do Rio Purus, no Amazonas, está com os anos contados. As três últimas mulheres jumas casaram-se com índios uru-eu-wau-wau e a etnia vai desaparecer. De qualquer forma, a situação já foi pior. Estima-se que 900 etnias desapareceram nos últimos cinco séculos. Hoje, entre as 227 etnias no país, os principais grupos estão crescendo.

A explicação fundamental para o crescimento acelerado da população indígena é a melhoria nas condições de saúde. Nos últimos cinco anos, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), órgão do Ministério da Saúde, está fazendo um esforço para aumentar a quantidade de postos e pessoas treinadas nas tribos. Já há 1 600 agentes de saúde indígena no país e a Funasa espera chegar a 2.600 até o final de 2001, o que daria um para cada aldeia. A primeira turma de 110 índios vai receber o diploma de enfermagem em junho. "Esse pessoal tem mais acesso às populações do que os enfermeiros brancos, o que lhes dá melhores condições de disseminar informações sobre higiene e cuidados pessoais", diz o médico Ubiratan Pedrosa, diretor de operações da Funasa. Nos últimos quatro anos, a cobertura de vacinação entre crianças nas aldeias aumentou de 33% para 50%. No ano passado, pela primeira vez, 59% dos índios foram vacinados contra o vírus da gripe. Fora da Amazônia, a maioria das reservas são pequenas e próximas aos centros urbanos, com graves problemas de saneamento. A principal causa de mortalidade infantil é a diarréia provocada por infecções intestinais. São comuns as gripes que evoluem para pneumonia e, em algumas regiões, a tuberculose é endêmica. Outras áreas são de difícil acesso, dificultando o trabalho dos agentes de saúde. Apenas um terço das aldeias tem comunicação por rádio.

Outro fator decisivo na melhoria das condições de vida nas tribos é a situação fundiária bem mais confortável. No início da década de 90, apenas 27 milhões de hectares estavam regularizados, o equivalente a menos de 28% do território indígena. Agora, já estão garantidos 96% das terras. Nos últimos cinco anos, eles ganharam uma área equivalente ao Estado de Goiás. Em 1991, os guaranis kaiowás de Mato Grosso do Sul se espremiam em oito reservas. Cada família dispunha do equivalente a 1,5 hectare, perto de vinte vezes menos que um módulo-padrão do Incra. Os índios sobreviviam como trabalhadores nas fazendas próximas e as oito aldeias se transformaram em vilas-dormitórios. Agora o número de reservas cresceu para 22. Os exemplos de recuperação estão por toda parte. Na década de 70, a população panará, na divisa de Mato Grosso com o Pará, reduziu-se a 79 sobreviventes, todos velhos e crianças. Hoje, donos de reserva própria, já são 200. "Nós estamos voltando", comemora o índio Marcos Terena, coordenador dos Direitos Indígenas na Funai.

 

 

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