Primeiro passo
Empresa americana anuncia ter completado
o
seqüenciamento do código genético humano
Um
dos acontecimentos científicos mais aguardados foi
anunciado na semana passada: o primeiro seqüenciamento
completo do DNA humano, concluído pela empresa americana
Celera Genomics. O mapeamento do genoma humano (veja
quadro ao lado), que contém todas as instruções
de funcionamento do organismo, é um passo que pode
mudar a história da ciência e da medicina –
mas ainda está longe de ser o último. Ainda
demorará de um a três anos, na melhor das hipóteses,
para completar o mapeamento total dos mais de 100.000
genes humanos. Imagine o genoma como um livro, com aproximadamente
3 bilhões de "letras", as bases químicas dos
genes. Sabia-se apenas que há quatro tipos diferentes
de "letras", mas não havia como desvendar o ordenamento
correto delas – como se o livro
estivesse fora de ordem. Os cientistas da Celera têm
agora as "palavras" e até "frases" desse livro da
vida, mas ainda não conseguiram montar uma história
com começo, meio e fim. "O grande feito será
quando pudermos ter o 'livro' do ser humano completo", diz
o bioquímico Fernando Reinach, pesquisador da Universidade
de São Paulo. "Por enquanto, a história que
podemos ler ainda é incompleta e o que temos são
apenas páginas isoladas." Quando o "livro" estiver
pronto, será possível descobrir a origem,
prever e prevenir a manifestação de pelo menos
1 200 doenças hereditárias.
AFP
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| Craig Venter, da Celera: "livro
da vida" completo até o fim do ano |
O presidente da Celera, Craig Venter, anunciou que pretende
terminar esse "livro" até o final do ano. Para isso
dispõe do segundo maior conglomerado de computadores
do mundo, com capacidade inferior apenas à das máquinas
do Departamento de Energia americano. Apesar de toda a euforia
e parafernália tecnológica, não há
garantias de êxito. O primeiro animal a ter o DNA
totalmente mapeado foi o verme Caenorhabditis elegans,
com 19.099 genes, em 1997. A
espécie humana tem sete vezes mais genes. Antes de
anunciar a obtenção da seqüência
completa, os cientistas da Celera coletaram onze vezes mais
dados do que o código genético do homem apresenta.
Isso pode não ser o bastante. No Brasil, pesquisadores
coletaram 111 milhões de "letras" para mapear a Xanthomonas
citri, a bactéria de uma praga da laranja. Mesmo
trabalhando com um número vinte vezes maior de dados,
ainda não foi possível chegar ao genoma da
bactéria.
No dia em que a descoberta da Celera foi anunciada, as
ações da empresa subiram quase 25% na Bolsa
de Nova York. Uma disputa no meio científico explica
a pressa na divulgação do seqüenciamento
do genoma. De um lado, a Celera, empresa privada que se
lançou no desafio de desvendar o genoma há
apenas dois anos. De outro, o Projeto Genoma Humano, de
1990, um consórcio financiado pelo governo dos Estados
Unidos, pelas melhores universidades americanas e por laboratórios
da Inglaterra, da Alemanha e do Japão. A Celera pretende
chegar primeiro à descoberta e ser dona por algum
tempo das patentes das seqüências dos genes,
o que pode render-lhe lucros astronômicos. Já
os responsáveis pelo Projeto Genoma Humano entendem
que o código genético não pode ser
de exclusividade de uma empresa e, por isso, divulgam suas
descobertas diariamente na internet.
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