Rabo astronômico
Quase por acaso, cientistas descobrem cauda
de cometa com 570 milhões de quilômetros
Uma
descoberta feita por cientistas ingleses está obrigando
os astrônomos a rever os conceitos até então
estabelecidos sobre os cometas. Na semana passada, pesquisadores
do Colégio Imperial, em Londres, identificaram o
maior rabo de cometa já visto. A cauda do Hyakutake,
um dos maiores cometas que passaram perto da Terra neste
século, tem 570 milhões de quilômetros
de extensão, distância suficiente para ir da
Terra ao Sol quatro vezes. Nenhum cientista imaginava que
pudesse haver algo semelhante. "Essa imensa cauda prova
que ainda conhecemos muito pouco sobre os cometas", disse
o astrônomo Geraint Jones, chefe da equipe responsável
pela descoberta, revelada na edição da semana
passada da revista Nature. A maior cauda que se conhecia
até então era a de um cometa sem nome, observado
pela primeira vez em 1843, que media cerca de 323 milhões
de quilômetros. A cauda do Halley, o cometa mais famoso,
se estendeu por no máximo 85 milhões de quilômetros
quando esteve mais próxima do Sol.
Os cometas são grandes pedras de gelo e sujeira
cósmica que descrevem longas órbitas em torno
do Sol. Quando um deles se aproxima da imensa bola de fogo,
o calor faz com que parte do gelo se evapore. Jatos de gases
e poeira saem na direção oposta ao Sol, formando
a grande cabeleira. Geraint Jones descobriu a cauda gigantesca
do Hyakutake quando resolveu debruçar-se sobre dados
colhidos pela sonda espacial euroamericana Ulysses em maio
de 1996. A sonda foi lançada em 1990 para medir e
enviar à Terra dados sobre os ventos solares, um
fluxo de partículas permanentemente emitidas pelo
Sol. Na época, a Ulysses passou por uma pane temporária
e ficou algumas horas perdida no espaço. As informações
confundiram os astrônomos. Pouco antes do incidente,
a variação no campo magnético e os
gases que estavam sendo detectados pela sonda tinham mais
relação com o que acontece no interior da
cauda de um cometa do que com o movimento dos ventos solares
no vácuo. Como os técnicos do projeto Ulysses
não estavam interessados em cometas, nenhum deles
deu importância ao registro dos sensores.
O que chamou a atenção de Geraint Jones
para os dados da Ulysses foi a publicação
do estranho incidente de 1996 na Revista de Pesquisa
Geofísica. A partir de então, ele ressuscitou
o calhamaço de números e gráficos enviado
pela sonda, que indicava a presença de uma cauda
de cometa viajando nas imediações. O incrível
é que o cometa em questão, o Hyakutake, estava
a centenas de milhões de quilômetros de distância.
A única explicação era que a cauda
do cometa tinha tamanho recorde. A descoberta de Jones trouxe
outra novidade. Com a sonda Ulysses, os cientistas descobriram
uma nova e eficiente técnica de pesquisa. Ninguém
imaginava que instrumentos planejados para medir ventos
solares pudessem detectar cometas. "Agora, podemos aprender
bastante sobre as condições no interior da
cauda dos cometas analisando os dados de sondas que já
estão no espaço", diz Jones.
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