Edição 1 644 -12/4/2000

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Rabo astronômico

Quase por acaso, cientistas descobrem cauda
de cometa com 570 milhões de quilômetros

Uma descoberta feita por cientistas ingleses está obrigando os astrônomos a rever os conceitos até então estabelecidos sobre os cometas. Na semana passada, pesquisadores do Colégio Imperial, em Londres, identificaram o maior rabo de cometa já visto. A cauda do Hyakutake, um dos maiores cometas que passaram perto da Terra neste século, tem 570 milhões de quilômetros de extensão, distância suficiente para ir da Terra ao Sol quatro vezes. Nenhum cientista imaginava que pudesse haver algo semelhante. "Essa imensa cauda prova que ainda conhecemos muito pouco sobre os cometas", disse o astrônomo Geraint Jones, chefe da equipe responsável pela descoberta, revelada na edição da semana passada da revista Nature. A maior cauda que se conhecia até então era a de um cometa sem nome, observado pela primeira vez em 1843, que media cerca de 323 milhões de quilômetros. A cauda do Halley, o cometa mais famoso, se estendeu por no máximo 85 milhões de quilômetros quando esteve mais próxima do Sol.

Os cometas são grandes pedras de gelo e sujeira cósmica que descrevem longas órbitas em torno do Sol. Quando um deles se aproxima da imensa bola de fogo, o calor faz com que parte do gelo se evapore. Jatos de gases e poeira saem na direção oposta ao Sol, formando a grande cabeleira. Geraint Jones descobriu a cauda gigantesca do Hyakutake quando resolveu debruçar-se sobre dados colhidos pela sonda espacial euroamericana Ulysses em maio de 1996. A sonda foi lançada em 1990 para medir e enviar à Terra dados sobre os ventos solares, um fluxo de partículas permanentemente emitidas pelo Sol. Na época, a Ulysses passou por uma pane temporária e ficou algumas horas perdida no espaço. As informações confundiram os astrônomos. Pouco antes do incidente, a variação no campo magnético e os gases que estavam sendo detectados pela sonda tinham mais relação com o que acontece no interior da cauda de um cometa do que com o movimento dos ventos solares no vácuo. Como os técnicos do projeto Ulysses não estavam interessados em cometas, nenhum deles deu importância ao registro dos sensores.

O que chamou a atenção de Geraint Jones para os dados da Ulysses foi a publicação do estranho incidente de 1996 na Revista de Pesquisa Geofísica. A partir de então, ele ressuscitou o calhamaço de números e gráficos enviado pela sonda, que indicava a presença de uma cauda de cometa viajando nas imediações. O incrível é que o cometa em questão, o Hyakutake, estava a centenas de milhões de quilômetros de distância. A única explicação era que a cauda do cometa tinha tamanho recorde. A descoberta de Jones trouxe outra novidade. Com a sonda Ulysses, os cientistas descobriram uma nova e eficiente técnica de pesquisa. Ninguém imaginava que instrumentos planejados para medir ventos solares pudessem detectar cometas. "Agora, podemos aprender bastante sobre as condições no interior da cauda dos cometas analisando os dados de sondas que já estão no espaço", diz Jones.

 

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