Edição 1 644 -12/4/2000

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Como pagar tudo?

Para honrar a prestação semanal da dívida com
a Infraero, a Vasp retém o salário dos pilotos

Cristine Prestes

 

J.J. Leister/AE
Moninca Zaratini/AE
Avião da Vasp arrestado por ordem judicial e Canhedo: seus concorrentes se reuniram com o DAC para montar um plano de contingência caso ele não pagasse a Infraero

Quando as grandes empresas fazem projeções para o futuro, discutem como agirão nos próximos cinco, dez ou vinte anos. Na Vasp, as projeções para o futuro avançam pelos próximos sete, não anos, mas dias. E depois mais sete dias e mais sete dias, e assim por diante, vivendo uma semana depois da outra. O futuro vaspiano é semanal porque toda sexta-feira a firma de Wagner Canhedo precisa depositar 1,3 milhão de reais na conta da Infraero, a estatal responsável pela manutenção dos aeroportos e pelo apoio durante o embarque e desembarque de passageiros. As demais companhias pagam pelo mesmo serviço mensalmente, mas a Vasp é tratada de forma diferente. Como Canhedo deve 370 milhões de reais à Infraero e já fez seis renegociações da dívida, sem cumprir nenhuma delas, o governo decidiu tratar a empresa com cabresto curto. Se pagar na sexta-feira, voa por mais sete dias. Do contrário, seus aviões não decolam já no sábado.

Na semana passada, a Vasp viveu seus piores dias desde que o sistema de semanada foi implantado, há três meses. Motivo: além do 1,3 milhão, a firma precisaria depositar em nome da Infraero, também na sexta-feira, uma parcela de 1,1 milhão de reais referente a dívidas atrasadas. E mais 6 milhões para pagar o salário dos funcionários da companhia. Se o mercado já ficava nervoso quando o depósito era de 1,3 milhão, o que dizer dos dias que antecedem um pagamento monstro de 8,4 milhões? A Vasp arrumaria o dinheiro? Foram dias de grande agitação. O Departamento da Aviação Civil (DAC) convocou os dirigentes das empresas aéreas para uma reunião de emergência na quarta-feira. A Vasp não foi chamada para o encontro. Varig, Transbrasil e TAM se comprometeram a transportar os passageiros da Vasp caso o pagamento não fosse efetuado, situação em que a empresa seria proibida de decolar. Decidiu-se ainda que a polícia da Aeronáutica ocuparia os aeroportos para garantir a ordem.


Raul Júnior
Rolim Amaro: primeiro prejuízo depois de anos de bons resultados

Adjetivos fortes Os amigos de Canhedo também se mexeram. O senador José Arruda (PSDB-DF) procurou o ministro da Defesa, Geraldo Quintão, a quem está subordinado o DAC. Na conversa, disse ao ministro que havia um desbalanceamento na aviação civil. A Transbrasil, lembrou o senador, acionou a União e recebeu uma indenização milionária. Já a Vasp tem ação semelhante e não recebe. Arruda saiu da conversa convencido de que o governo não tem a menor simpatia pela companhia de seu amigo. Para sorte das pessoas que compraram um bilhete da Vasp, Canhedo pagou o que devia à estatal. Para azar dos funcionários de sua firma, ele não efetuou o pagamento dos empregados que ganham mais de 900 reais. Em outras palavras, pilotos, co-pilotos e comissários de bordo ficaram sem salário. A promessa é pagar essas pessoas na sexta-feira desta semana quando vence mais uma parcela de 1,3 milhão de reais. Agora, a Vasp está duplamente pendurada. Não é só a Infraero que pode mantê-la no chão. Os pilotos sem salário também podem. Para piorar ainda mais a situação, a Vasp é acusada de não pagar o leasing de três aviões, que foram arrestados por ordem da Justiça. Na área econômica do governo, a situação da empresa é tratada com adjetivos fortes, como "aflitiva" e "terminal".

Para tornar o ambiente aéreo ainda mais pesado, saiu na semana passada o balanço financeiro das empresas do setor. Após anos de lucros consecutivos, TAM e Rio-Sul anunciaram prejuízos consideráveis no balanço de 1999. A Transbrasil, após dois anos de bons resultados, também registrou perdas. Varig e Vasp fecharam boa parte dos anos 90 em prejuízo. É difícil compreender como o segmento pode trabalhar com prejuízo. A cada hora voada, são 11.500 reais de receita. As quatro maiores empresas do setor brasileiras faturam, juntas, 10 bilhões de reais por ano. Seria de esperar lucros fantásticos. Mas a conta não é assim.

No mundo inteiro o setor enfrenta dificuldades. No caso brasileiro a situação tem uma agravante estrutural. Inchadas e mal administradas durante anos, as companhias não tinham motivo para se tornar eficientes. Com o aval do governo, dividiam o céu em cotas e não precisavam competir. Após a abertura do mercado, e a entrada de mais empresas estrangeiras a voar para o Brasil, a crise se acentuou. Na luta pelo passageiro, as companhias chegaram a oferecer descontos de até 60% nas passagens. As vendas aumentaram, mas não o suficiente, e a taxa média de ocupação das aeronaves é inferior a 60%, contra a média mundial de 69%. Soma-se a isso a questão tributária. As empresas americanas pagam apenas 7,5% de impostos sobre suas receitas e custos e as européias, 16%. As brasileiras são taxadas em 35%. As companhias acabaram deixando de pagar os impostos e estão entre as maiores devedoras do governo. Em 1999, a crise piorou. Com a desvalorização do real, as empresas, já endividadas e com 40% dos custos em dólar, chegaram a seu pior momento.

As companhias tentam em vão conseguir melhores resultados reduzindo custos, demitindo pessoal e fazendo promoções para atrair o passageiro. Para aumentar a taxa de ocupação de seus vôos, a Vasp diminuiu os preços da ponte aérea para 71 reais. Nesta semana, a Transbrasil faz uma promoção válida por um mês, baixando o bilhete São PauloRio de Janeiro de 119 para 88 reais. Se a aviação fosse um setor como qualquer outro, os abalos talvez não fossem preocupantes. Quando uma empresa gigante como a Mesbla vai à falência, preocupam-se funcionários e credores. Para o consumidor, basta atravessar a rua e comprar na outra loja. É diferente com a aviação. Empresas aéreas com problemas não preocupam apenas o governo, os fornecedores e funcionários, mas todos os brasileiros que precisam atravessar os céus do país em segurança.

 
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