Edição 1 644 -12/4/2000

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Ao sinal, deixe o seu recado

Os pais dão celular para controlar os filhos.
Só que eles não atendem

Bel Moherdaui

 

Os reis do telefone: para falar entre eles não falta disposição. Já para ligar para casa...

No final de março, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anunciou que o Brasil já conta com 16 milhões de celulares em funcionamento. Desse total, segundo as operadoras, 10% estão nas mãos de clientes com até 18 anos. Entre eles, o campeoníssimo é o pré-pago, uma boa maneira de evitar o susto da conta astronômica no fim do mês. Celular virou presente de Natal e de aniversário, prêmio por passar de ano e até mimo sem data especial. Os pais acham que, com o aparelho, fica mais fácil monitorar os passos de seus filhos. Preocupação justíssima, dados os índices de violência nas cidades e os irrefreáveis ataques de autonomia da rapaziada, que volta e meia some sem dar explicação alguma. Só que, na maioria das vezes, o celular do adolescente não cumpre a função para a qual foi comprado. A razão é simples: como não quer ter pai e mãe em seu encalço o tempo inteiro (aliás, em hora nenhuma), o jovem simplesmente deixa seu aparelho desligado.

"Dei o celular para controlar mesmo: para saber onde ele anda, a que horas vai voltar etc. O problema é que nunca está ligado", reclama a paulista Beth Milane, mãe de Leonardo, de 16 anos. Beth, que é dona de uma loja e trabalha dez horas por dia, conta que deixa inúmeros recados na caixa postal de Leonardo e o rapaz jamais retorna suas ligações. Filho único, Leonardo confessa: desliga o telefone de propósito para não receber ligações indesejáveis. "Depois digo que estava sem sinal", acrescenta. Ou, então, que não ouviu porque tinha barulho demais na festa, que tentou retornar o telefonema mas a ligação não foi completada, e assim por diante, até esgotar o estoque de desculpas esfarrapadas. A última saída é jurar de tênis juntos, e sem corar de vergonha, que deixou o telefone ligado, sim, mas ele simplesmente não tocou. As mentirinhas ou mentironas deixam como saldo discussões intermináveis quando o jovem chega em casa e caras emburradas de ambos os lados, até que as cabeças esfriem. Conclusão: em vez de resolver um problema, o da ansiedade causada pela incomunicabilidade, o celular do jovem adiciona mais um à conflituosa relação entre pais e adolescentes.

Convém admitir, no entanto, que certas mães exageram (está provado: quem liga para filho é mãe, pai é mais cabeça fria). "Um dia, eu estava no shopping com minhas amigas e minha mãe me ligou cinco vezes seguidas", suspira Ana Carolina Pacheco, de 15 anos. A mãe, a engenheira Wafa Spiridon, de 46 anos, concorda que andou passando dos limites, até mesmo para uma supermãezona. Depois que a filha chamou sua atenção, num bate-papo suficientemente amigável, Wafa vem procurando controlar seus impulsos – maternos e telefônicos. Ela foi obrigada a concordar que ninguém, ninguém mesmo, de qualquer idade, gosta de ter um chato no pé 24 horas por dia.

Contrato — Os psicólogos recomendam exatamente isso: conversa e mais conversa — frente a frente, claro, e sem tom de cobrança — para contornar o problema. Aquela história de diálogo franco e aberto, sabe como é? Muitos pais só percebem que estão indo além do suportável quando os filhos avisam — ou quando enfim se dão conta de que, pelo celular, não conseguem falar com eles. Da mesma forma, os pais precisam dizer aos filhos que pelo menos ouçam e respondam aos recados na caixa postal. "É importante estabelecer uma espécie de contrato", ensina a psicóloga Paula Inez Cunha Gomide, que tem dois filhos, uma de 19 e outro de 21, cada um com seu celular. Ela jura que isso funciona — a não ser que, infelizmente, justo naquele instante o telefone esteja fora de área.