Ao sinal, deixe o seu
recado
Os pais dão
celular para controlar os filhos.
Só que eles não atendem
Bel Moherdaui

Os reis do telefone:
para falar entre eles não falta disposição.
Já para ligar para casa...
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No final de março,
a Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel) anunciou que o Brasil já conta com 16 milhões
de celulares em funcionamento. Desse total, segundo as operadoras,
10% estão nas mãos de clientes com até
18 anos. Entre eles, o campeoníssimo é o pré-pago,
uma boa maneira de evitar o susto da conta astronômica
no fim do mês. Celular virou presente de Natal e de
aniversário, prêmio por passar de ano e até
mimo sem data especial. Os pais acham que, com o aparelho,
fica mais fácil monitorar os passos de seus filhos.
Preocupação justíssima, dados os índices
de violência nas cidades e os irrefreáveis
ataques de autonomia da rapaziada, que volta e meia some
sem dar explicação alguma. Só que,
na maioria das vezes, o celular do adolescente não
cumpre a função para a qual foi comprado.
A razão é simples: como não quer ter
pai e mãe em seu encalço o tempo inteiro (aliás,
em hora nenhuma), o jovem simplesmente deixa seu aparelho
desligado.
"Dei o celular para
controlar mesmo: para saber onde ele anda, a que horas vai
voltar etc. O problema é que nunca está ligado",
reclama a paulista Beth Milane, mãe de Leonardo,
de 16 anos. Beth, que é dona de uma loja e trabalha
dez horas por dia, conta que deixa inúmeros recados
na caixa postal de Leonardo e o rapaz jamais retorna suas
ligações. Filho único, Leonardo confessa:
desliga o telefone de propósito para não receber
ligações indesejáveis. "Depois digo
que estava sem sinal", acrescenta. Ou, então, que
não ouviu porque tinha barulho demais na festa, que
tentou retornar o telefonema mas a ligação
não foi completada, e assim por diante, até
esgotar o estoque de desculpas esfarrapadas. A última
saída é jurar de tênis juntos, e sem
corar de vergonha, que deixou o telefone ligado, sim, mas
ele simplesmente não tocou. As mentirinhas ou mentironas
deixam como saldo discussões intermináveis
quando o jovem chega em casa e caras emburradas de ambos
os lados, até que as cabeças esfriem. Conclusão:
em vez de resolver um problema, o da ansiedade causada pela
incomunicabilidade, o celular do jovem adiciona mais um
à conflituosa relação entre pais e
adolescentes.
Convém admitir,
no entanto, que certas mães exageram (está
provado: quem liga para filho é mãe, pai é
mais cabeça fria). "Um dia, eu estava no shopping
com minhas amigas e minha mãe me ligou cinco vezes
seguidas", suspira Ana Carolina Pacheco, de 15 anos. A mãe,
a engenheira Wafa Spiridon, de 46 anos, concorda que andou
passando dos limites, até mesmo para uma supermãezona.
Depois que a filha chamou sua atenção, num
bate-papo suficientemente amigável, Wafa vem procurando
controlar seus impulsos maternos e telefônicos.
Ela foi obrigada a concordar que ninguém, ninguém
mesmo, de qualquer idade, gosta de ter um chato no pé
24 horas por dia.
Contrato
Os psicólogos recomendam exatamente isso:
conversa e mais conversa frente a frente, claro,
e sem tom de cobrança para contornar o problema.
Aquela história de diálogo franco e aberto,
sabe como é? Muitos pais só percebem que estão
indo além do suportável quando os filhos avisam
ou quando enfim se dão conta de que, pelo
celular, não conseguem falar com eles. Da mesma forma,
os pais precisam dizer aos filhos que pelo menos ouçam
e respondam aos recados na caixa postal. "É importante
estabelecer uma espécie de contrato", ensina a psicóloga
Paula Inez Cunha Gomide, que tem dois filhos, uma de 19
e outro de 21, cada um com seu celular. Ela jura que isso
funciona a não ser que, infelizmente, justo
naquele instante o telefone esteja fora de área.