Edição 1 644 -12/4/2000

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A descoberta do
planeta Terra

National Geographic exibe as imagens
mais impressionantes de seus 112 anos

de expedições e
pesquisas científicas

Bia Barbosa

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Chris Johns
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Gil M. Grosvenor
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NATUREZA E FÉ: na Flórida, jacarés recém-nascidos encontram abrigo junto a sua mãe. Na foto à direita, habitantes de Bali envolvidos em um ritual religioso


Lugares inacessíveis à maioria das pessoas, histórias bem contadas e fotografias de tirar o fôlego. Essa é a fórmula que garante, há mais de um século, o sucesso de uma das publicações mais famosas do mundo: a National Geographic. É a revista mais respeitada por sua qualidade nos Estados Unidos, segundo a Total Research, conceituada empresa de análise de mercado. Os números comprovam: a cada mês, são 10 milhões de exemplares com impressão primorosa, em onze idiomas e distribuídos em noventa países. Para manter um público tão fiel, a National Geographic, com sede em Washington, investe pesado na produção de suas reportagens. Dependendo do assunto, repórter e fotógrafo podem passar mais de um ano em campo. A fotografia é o carro-chefe da revista. "Fazemos de tudo para que nossos profissionais consigam a melhor foto", diz o diretor de fotografia Kent Kobersteen. "Eles são jornalistas que usam câmaras em vez de papel e caneta." A quantidade de fotos feitas para concluir cada edição impressiona. No ano passado, o laboratório fotográfico da revista revelou 25.000 rolos de filmes. Em média são gastos 400 rolos por reportagem, ou 14.000 fotos. Em geral, na primeira avaliação, são selecionadas as oitenta melhores. E, no final, não serão publicadas mais do que vinte.


W. E. Garrett
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MISTÉRIOS DO CAMBOJA: em 1968, W.E. Garrett registrou com precisão o momento em que dois monges budistas aparecem em uma janela do templo Angkor Thom

Uma seleção de imagens célebres produzidas pela National Geographic pode ser vista de perto na exposição Um Olhar Sobre o Mundo, que abre nesta terça-feira, 11, no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. A mostra reúne oitenta fotos das quais selecionamos e publicamos oito e marca o lançamento da versão em português da revista. Produzida pela Editora Abril, que também publica VEJA, ela chega às bancas em maio. "O descobrimento do mundo encanta tanto os leitores quanto os próprios fotógrafos da revista", diz Matthew Shirts, redator-chefe da edição brasileira. "Alguns são verdadeiros Indiana Jones." Diversas vezes, o departamento de Engenharia Fotográfica da revista projetou e construiu câmaras especiais, para atender às necessidades de uma reportagem. Em 1913, os técnicos da National Geographic equiparam uma câmara com tripé de 4 metros para produzir uma fotografia em close de um inseto no alto de uma árvore, sem assustá-lo.


Chris Johns
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PICADA DO MAL: o instante exato em que o mosquito transmissor da malária ataca um pássaro no Havaí foi captado pelas lentes de Chris Johns, em 1995


Muitas fotos publicadas pela National Geographic entraram para a história pelo pioneirismo. Em 1926, o fotógrafo Charles Martin fez as primeiras imagens subaquáticas coloridas, no litoral da Flórida. Em 1979, o fotógrafo Bruce Dale e o redator Rick Gore foram os primeiros jornalistas americanos a percorrer o interior da China depois da tomada do poder pelos comunistas, trinta anos antes. Há quinze anos, uma equipe integrou a expedição que descobriu os restos do Titanic no leito do Atlântico Norte, e fotografou sua proa a 4.000 metros de profundidade. O fotógrafo Thomas J. Abercrombie, que entrou na revista em 1956, tanto cobriu o Oriente Médio que acabou se convertendo ao islamismo. Só assim conseguiu tirar as primeiras fotos das peregrinações a Meca, local proibido aos não-islâmicos, em 1965. Algumas fotos têm repercussão inesperada. Em 1981, William Albert Allard registrou o choro de uma criança peruana ao perder as seis ovelhas atropeladas por um táxi, o que representou um golpe devastador na economia de subsistência de sua família. Comovidos com a matéria publicada na revista, os leitores doaram 7.000 dólares ao menino.

 
W. E. Garrett
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À ESPERA DA BATALHA: W.E. Garrett flagrou duas irmãs se abraçando no Laos, momentos antes de sua aldeia ser atacada durante a guerra civil, em 1973

A revista sempre esteve intimamente ligada ao avanço científico. Ela foi criada em 1888 pela National Geographic Society, fundação cujo objetivo era financiar e divulgar as pesquisas geográficas. As primeiras edições, coordenadas pelo rico advogado americano Gardiner Greene Hubbard, eram indigestas, com uma capa sisuda e pesada linguagem científica. Tinha poucos leitores e quase levou a sociedade à falência. A maré virou em 1898, quando a direção da revista passou às mãos do genro de Hubbard, o pesquisador Alexander Graham Bell, aquele mesmo que inventou o telefone. Hoje, a publicação gera uma receita de 350 milhões de dólares por ano. O dinheiro, junto com polpudas doações, ajuda a sustentar a fundação, a maior instituição científica e educacional sem fins lucrativos do mundo. Recursos como esses já financiaram mais de 6.500 bolsas de estudo, projetos que vão de pesquisas submarinas a escaladas inéditas e exploração de cavernas subterrâneas. Graças ao patrocínio da National Geographic, Robert E. Peary foi um dos primeiros exploradores do Pólo Norte, em 1909, depois de perder oito dedos dos pés congelados. De 1912 a 1915, a sociedade financiou as expedições do historiador Hiram Bingham que revelaram Machu Picchu, a fabulosa cidade do império inca que escapou incólume à conquista espanhola do Peru. Com o apoio da fundação, o oceanógrafo Jacques Cousteau foi pioneiro na exploração dos oceanos. Em 1963, a sociedade bancou a primeira equipe de americanos a alcançar o cume da montanha mais alta do mundo.

 
O. Louis Mazzatenta
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RETRATO DA TRAGÉDIA: essa mulher foi fotografada em 1983 na mesma posição em que morreu quando, no ano de 79, o vulcão Vesúvio soterrou a cidade de Herculano, na Itália

Quando a National Geographic Society foi fundada, há mais de um século, boa parte do planeta nunca havia sido pisada pelo homem ou simplesmente estava fora dos mapas. Hoje, há poucos lugares intocados e, a rigor, nada resta para ser mapeado. "Mas existem novas fronteiras para explorar", diz o americano Bernard Ohanian, diretor da entidade. "Não conhecemos nada do nosso sistema solar e dos vastos oceanos que cobrem o planeta." Há também pesquisas científicas que precisam de financiamento para que possam revelar novos aspectos do mundo que já conhecemos. O trabalho de Dian Fossey, que conduziu pesquisas com gorilas em Ruanda, na África, foi essencial para ajudar a preservar a espécie, ameaçada de extinção. O filme Na Montanha dos Gorilas, estrelado por Sigourney Weaver, conta essa história. Na semana passada, arqueólogos financiados pela National Geographic descobriram nos Estados Unidos indícios de que seres humanos já habitavam a região 17.000 anos atrás. É uma descoberta importante, pois indica que os primeiros humanos atravessaram o Estreito de Bering pelo menos 2.000 anos antes do que se pensava. A National Geographic está financiando atualmente sete projetos brasileiros. A equipe do Instituto de Pesquisas Ecológicas que está salvando da extinção os micos-leões-pretos, no Pontal do Paranapanema, em São Paulo, recebe 15.000 dólares por ano. Os micos-leões-pretos brasileiros já apareceram em um documentário da National Geographic, o que ajudou a atrair mais doações internacionais. "Ter o nome ligado à National Geographic abre portas em todo o mundo", afirma o biólogo Cláudio Valladares Pádua, coordenador do projeto.

 
Robert W. Madden
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NA HORA E NO LUGAR CERTO: Robert W. Madden registrou o inusitado choque de um avião, desviado da rota por uma corrente de ar, com um caminhão no solo. O fotógrafo cobria a devastação causada por um terremoto na Guatemala em 1976

A participação da National Geographic Society não se restringe à pesquisa. A constatação do baixo grau de conhecimento em geografia por parte dos alunos nos Estados Unidos levou a fundação a investir 110 milhões de dólares nos últimos onze anos em um programa nacional de educação. Grupos de professores e geógrafos reúnem-se em várias partes do país para desenvolver e trocar métodos educacionais. A fundação promove até concursos entre estudantes, com 50.000 dólares em prêmios. "Estamos investindo no futuro", diz Dale Petroskey, vice-presidente sênior para programas de missões na National Geographic Society. À disposição desses professores, estão os mapas da sociedade, quase tão conhecidos quanto a revista. O setor de cartografia da publicação nasceu na I Guerra, quando o editor da revista constatou que não havia mapas confiáveis da Europa e contratou cartógrafos para a tarefa.

 
Joseph F. Rock
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Numa terra distante: os três presos, acusados de assassinato, foram retirados do calabouço, onde estavam havia meses, só para ser fotografados por Joseph F. Rock na China, em 1928

Os mapas deram origem a uma série de produtos, hoje agregados à revista. São livros, CD-ROM, as revistas Traveler, World (infantil), Adventure e uma série de documentários em vídeo. O National Geographic Channel, especializado em programas educativos, tem 51 milhões de assinantes em sessenta países, com transmissão em nove línguas. A última novidade é a aposta no turismo. Os fãs da National podem visitar lugares inusitados, ciceroneados por cientistas da sociedade. Não são passeios convencionais. Um grupo pode se aventurar numa caminhada pelo Himalaia, no Nepal, ou descer o Rio Yangtzé, na China. No dia 19 de dezembro, parte uma expedição rumo à Antártica. Passar o Natal e a virada do ano ao lado de pingüins e focas custa 7.000 dólares por pessoa. Um privilégio só para os poucos que podem dar-se ao luxo de fazer parte de uma equipe da National Geographic.

 
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