Edição 1 644 -12/4/2000

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Um peixe fora d'água

Fóssil de anfíbio que viveu há 370 milhões
de anos pode ser do elo perdido



Mandíbula: dentes com feições peculiares

Dois fragmentos de um estranho animal aquático, desenterrados às margens do Mar Báltico, no norte da Europa, podem ser a resposta para um dos mais instigantes mistérios da evolução: o elo na transição que nossos ancestrais fizeram da água para a vida terrestre. Os fósseis, com idade estimada em 370 milhões de anos, parecem ser de uma espécie a meio caminho entre um peixe e as criaturas de terra. Descobertos por uma equipe britânica na Letônia (um pedaço de 3,5 centímetros) e na Estônia (parte de uma mandíbula) e apresentados na semana passada no Museu de História Natural de Londres, os ossos são de um animal similar ao jacaré moderno. A espécie tinha quatro membros atarracados com os quais podia arrastar-se no terreno seco e uma longa cauda em forma de nadadeira para se locomover dentro da água. Supõe-se que tivesse um crânio alongado e os olhos quase juntos, localizados bem no topo da cabeça. "São características dos peixes mais evoluídos e dos anfíbios mais primitivos. O fóssil parece ser o intermediário perfeito entre essas duas formas de vida", disse o paleontólogo Per Ahlberg, coordenador da pesquisa.


Fotos AFP
Per Ahlberg: fóssil no Báltico

As mais de 25.000 espécies de vertebrados existentes atualmente, incluindo os seres humanos, dividem ancestrais comuns – um pequeno grupo de peixes que deixaram as águas há cerca de 370 milhões de anos. Os primeiros vertebrados a viver fora da água eram anfíbios muito parecidos com os peixes. Mas faltava preencher a lacuna existente nos registros fósseis exatamente entre os últimos peixes e os primeiros anfíbios. A espécie recém-descoberta encaixa-se com perfeição entre o peixe Panderichthys, que viveu há 375 milhões de anos, e o anfíbio quadrúpede Acanthostega, de 365 milhões de anos. Falta-lhe ainda um nome próprio, que só será conhecido em agosto, quando a equipe de Ahlberg pretende publicar um artigo na revista Palaeontology.

A paleontóloga Jenny Clack, do Museu de Zoologia da Universidade de Cambridge, diz que o formato da arcada dentária do espécime é um tesouro científico. "A disposição dos dentes é totalmente diferente do que já vimos em qualquer outra espécie identificada", explicou. A peculiaridade pode indicar que teria hábitos alimentares distintos dos outros seres da época. Embalada pelo sucesso do achado, a equipe de Per Ahlberg retomará as escavações na mesma região onde foram encontrados os fósseis. O objetivo agora é tentar desencavar outras partes do animal pré-histórico. Novos fósseis poderiam responder a uma outra pergunta importante: se o nosso ancestral anfíbio utilizava patas ou nadadeiras para se locomover.

 

Saiba mais
Da internet
  Museu de História Natural de Londres