Um peixe fora d'água
Fóssil de anfíbio que viveu
há 370 milhões
de anos pode ser do elo perdido
 |
| Mandíbula: dentes com feições
peculiares |
Dois fragmentos de um estranho animal aquático,
desenterrados às margens do Mar Báltico, no
norte da Europa, podem ser a resposta para um dos mais instigantes
mistérios da evolução: o elo na transição
que nossos ancestrais fizeram da água para a vida
terrestre. Os fósseis, com idade estimada em 370
milhões de anos, parecem ser de uma espécie
a meio caminho entre um peixe e as criaturas de terra. Descobertos
por uma equipe britânica na Letônia (um pedaço
de 3,5 centímetros) e na Estônia (parte de
uma mandíbula) e apresentados na semana passada no
Museu de História Natural de Londres, os ossos são
de um animal similar ao jacaré moderno. A espécie
tinha quatro membros atarracados com os quais podia arrastar-se
no terreno seco e uma longa cauda em forma de nadadeira
para se locomover dentro da água. Supõe-se
que tivesse um crânio alongado e os olhos quase juntos,
localizados bem no topo da cabeça. "São características
dos peixes mais evoluídos e dos anfíbios mais
primitivos. O fóssil parece ser o intermediário
perfeito entre essas duas formas de vida", disse o paleontólogo
Per Ahlberg, coordenador da pesquisa.
Fotos AFP
 |
| Per Ahlberg:
fóssil no Báltico |
As mais de 25.000 espécies
de vertebrados existentes atualmente, incluindo os seres
humanos, dividem ancestrais comuns um pequeno grupo
de peixes que deixaram as águas há cerca de
370 milhões de anos. Os primeiros vertebrados a viver
fora da água eram anfíbios muito parecidos
com os peixes. Mas faltava preencher a lacuna existente
nos registros fósseis exatamente entre os últimos
peixes e os primeiros anfíbios. A espécie
recém-descoberta encaixa-se com perfeição
entre o peixe Panderichthys, que viveu há
375 milhões de anos, e o anfíbio quadrúpede
Acanthostega, de 365 milhões de anos. Falta-lhe
ainda um nome próprio, que só será
conhecido em agosto, quando a equipe de Ahlberg pretende
publicar um artigo na revista Palaeontology.
A paleontóloga Jenny Clack, do Museu de Zoologia
da Universidade de Cambridge, diz que o formato da arcada
dentária do espécime é um tesouro científico.
"A disposição dos dentes é totalmente
diferente do que já vimos em qualquer outra espécie
identificada", explicou. A peculiaridade pode indicar que
teria hábitos alimentares distintos dos outros seres
da época. Embalada pelo sucesso do achado, a equipe
de Per Ahlberg retomará as escavações
na mesma região onde foram encontrados os fósseis.
O objetivo agora é tentar desencavar outras partes
do animal pré-histórico. Novos fósseis
poderiam responder a uma outra pergunta importante: se o
nosso ancestral anfíbio utilizava patas ou nadadeiras
para se locomover.
Saiba
mais |
|
|
|