Edição 1 644 -12/4/2000

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O salário delas

Pesquisa traça um retrato da prostituição e
revela quanto ganham as garotas de programa

José Edward

Antonio Milena
"Dançarinas" em casa noturna da noite de São Paulo: a carreira costuma durar pouco

Um estudo da Faculdade de Ciências Humanas da Fundação Mineira de Educação e Cultura (Fumec) traz algumas revelações surpreendentes sobre o submundo da prostituição no país. A pesquisa traçou um perfil sócio-econômico e psicológico de cerca de 7.000 prostitutas residentes em Belo Horizonte. Com base nesses dados e em algumas projeções, os pesquisadores esboçaram um quadro nacional do problema. O estudo diz que o Brasil possui um exército de 1,5 milhão de pessoas que vendem o corpo como fonte de renda. É um mercado amplo que agrega desde prostitutas com mais de dez anos de profissão, geralmente o tempo máximo da carreira, até garotas de programa iniciantes. Um dos dados que mais chamam a atenção é que pelo menos 8% do total dessas profissionais do sexo cerca de 120.000 se enquadram na categoria "luxo". Elas têm rendimentos mensais em torno de 3.000 reais e, em muitos casos, formação universitária. Em São Paulo, por exemplo, o teto salarial da categoria ultrapassa a casa dos 15.000 reais. "Às vezes, as prostitutas têm poder aquisitivo e grau de instrução superiores aos de seus clientes", afirma o psicólogo Emerson Tardieu, chefe do Departamento de Psicologia da Fumec e coordenador do estudo.

O mercado do sexo movimenta por ano cerca de meio bilhão de reais no país. Boa parte desse "PIB" está ligada à prostituição de luxo. É uma extensa rede integrada por boates, motéis, saunas e casas de massagem. Nesses estabelecimentos, é comum encontrar catálogos oferecendo "acompanhantes" para todos os gostos e bolsos. Segundo o estudo, as jovens de classe média são atraídas pela possibilidade de altos rendimentos num curto espaço de tempo. Todas dizem que vão ficar provisoriamente, mas depois não conseguem abdicar da nova renda. São pessoas que têm família e podiam muito bem fazer outras escolhas, mas preferem prostituir-se para ter acesso fácil a roupas de grife, carros importados e viagens. Mais da metade das prostitutas disseram na pesquisa que não largam a carreira por causa do dinheiro que ela proporciona.

De acordo com as investigações dos pesquisadores, as figuras tradicionais do cafetão e da cafetina estão perdendo importância no ramo da prostituição. É crescente o número de garotas e garotos de programa que chegam até os clientes sem intermediários, por meio dos classificados de jornais ou dos sites pornográficos que proliferam como praga na internet. Nesses veículos, são cada vez mais comuns as ofertas de jovens que usam a formação universitária e a condição social como isca para atrair a clientela. Em alguns casos, o pagamento tem de ser depositado por antecipação numa conta corrente. Outra característica das prostitutas mais gabaritadas é que elas não gostam de ser tratadas como tal. Preferem ser chamadas de garotas de programa, acompanhantes. Quase todas usam nomes fictícios e fazem os contatos através de telefone celular, porque, na maioria dos casos, suas famílias não têm conhecimento dessa vida paralela.

A trajetória das prostitutas de luxo, em geral, começa em casas de massagem ou em boates privês, onde fazem shows de strip-tease e mantêm contatos com potenciais clientes. Nessa fase, realizam um número menor de programas, que geralmente acontecem em motéis e nunca saem por menos de 100 reais. A pesquisa também investigou a face menos sofisticada da prostituição e concluiu que as meninas que hoje estão nas boates estarão nas ruas em breve. Com o passar do tempo, por causa do desgaste com os clientes e da própria depreciação estética, muitas garotas passam a oferecer seus "serviços" em qualquer lugar. As relações sexuais são consumadas dentro do carro, num drive-in ou em motéis ao gosto do freguês. Nesses casos, o preço do programa cai para menos de 50 reais. Na ausência de clientes que as remunerem melhor e da segurança oferecida pelas casas noturnas, as garotas passam a ser vítimas da violência das ruas, incluindo o uso de drogas. Além disso, têm de realizar um número maior de programas por dia para manter a renda e, às vezes, sustentar os vícios. No estudo da Fumec, 76% das prostitutas entrevistadas apresentaram sintomas de depressão, 59% de stress crônico e 36% disseram ter pensado em suicídio alguma vez desde que começaram a se prostituir.

Algumas garotas de programa que migram das boates de luxo descem ainda mais baixo: vão parar nas ruas em zonas conhecidas como do baixo meretrício. É ali que a face mais perversa da prostituição se revela. Nos "hotéis de alta rotatividade" do centro de Belo Horizonte, por exemplo, existem cerca de 2.000 prostitutas trabalhando em condições desumanas. Além de pagar diárias pelo uso dos quartos, que mais parecem pardieiros, elas são responsáveis pela faxina do local e pelo fornecimento de roupas de cama e preservativos. Chegam a fazer quarenta programas por dia em troca de 5 reais por relação. "A perda do local privilegiado para trabalhar detona um processo quase irreversível de autoviolação dessas meninas", diz o psicólogo Emerson Tardieu.

Com reportagem de Leonardo Coutinho

 
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