O salário delas
Pesquisa traça um retrato da prostituição
e
revela quanto ganham as garotas de programa
José Edward
Antonio Milena
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| "Dançarinas" em casa noturna
da noite de São Paulo: a carreira costuma durar
pouco |
Um estudo da Faculdade de Ciências Humanas da Fundação
Mineira de Educação e Cultura (Fumec) traz
algumas revelações surpreendentes sobre o
submundo da prostituição no país. A
pesquisa traçou um perfil sócio-econômico
e psicológico de cerca de 7.000
prostitutas residentes em Belo Horizonte. Com base nesses
dados e em algumas projeções, os pesquisadores
esboçaram um quadro nacional do problema. O estudo
diz que o Brasil possui um exército de 1,5 milhão
de pessoas que vendem o corpo como fonte de renda. É
um mercado amplo que agrega desde prostitutas com mais de
dez anos de profissão, geralmente o tempo máximo
da carreira, até garotas de programa iniciantes.
Um dos dados que mais chamam a atenção é
que pelo menos 8% do total dessas profissionais do sexo
– cerca de 120.000
– se enquadram na categoria
"luxo". Elas têm rendimentos mensais em torno de 3.000
reais e, em muitos casos, formação universitária.
Em São Paulo, por exemplo, o teto salarial da categoria
ultrapassa a casa dos 15.000
reais. "Às vezes, as prostitutas têm poder
aquisitivo e grau de instrução superiores
aos de seus clientes", afirma o psicólogo Emerson
Tardieu, chefe do Departamento de Psicologia da Fumec e
coordenador do estudo.
O mercado do sexo movimenta por ano cerca de meio bilhão
de reais no país. Boa parte desse "PIB" está
ligada à prostituição de luxo. É
uma extensa rede integrada por boates, motéis, saunas
e casas de massagem. Nesses estabelecimentos, é comum
encontrar catálogos oferecendo "acompanhantes" para
todos os gostos e bolsos. Segundo o estudo, as jovens de
classe média são atraídas pela possibilidade
de altos rendimentos num curto espaço de tempo. Todas
dizem que vão ficar provisoriamente, mas depois não
conseguem abdicar da nova renda. São pessoas que
têm família e podiam muito bem fazer outras
escolhas, mas preferem prostituir-se para ter acesso fácil
a roupas de grife, carros importados e viagens. Mais da
metade das prostitutas disseram na pesquisa que não
largam a carreira por causa do dinheiro que ela proporciona.
De acordo com as investigações dos pesquisadores,
as figuras tradicionais do cafetão e da cafetina
estão perdendo importância no ramo da prostituição.
É crescente o número de garotas e garotos
de programa que chegam até os clientes sem intermediários,
por meio dos classificados de jornais ou dos sites pornográficos
que proliferam como praga na internet. Nesses veículos,
são cada vez mais comuns as ofertas de jovens que
usam a formação universitária e a condição
social como isca para atrair a clientela. Em alguns casos,
o pagamento tem de ser depositado por antecipação
numa conta corrente. Outra característica das prostitutas
mais gabaritadas é que elas não gostam de
ser tratadas como tal. Preferem ser chamadas de garotas
de programa, acompanhantes. Quase todas usam nomes fictícios
e fazem os contatos através de telefone celular,
porque, na maioria dos casos, suas famílias não
têm conhecimento dessa vida paralela.
A trajetória das prostitutas de luxo, em geral,
começa em casas de massagem ou em boates privês,
onde fazem shows de strip-tease e mantêm contatos
com potenciais clientes. Nessa fase, realizam um número
menor de programas, que geralmente acontecem em motéis
e nunca saem por menos de 100 reais. A pesquisa também
investigou a face menos sofisticada da prostituição
e concluiu que as meninas que hoje estão nas boates
estarão nas ruas em breve. Com o passar do tempo,
por causa do desgaste com os clientes e da própria
depreciação estética, muitas garotas
passam a oferecer seus "serviços" em qualquer lugar.
As relações sexuais são consumadas
dentro do carro, num drive-in ou em motéis –
ao gosto do freguês. Nesses casos, o preço
do programa cai para menos de 50 reais. Na ausência
de clientes que as remunerem melhor e da segurança
oferecida pelas casas noturnas, as garotas passam a ser
vítimas da violência das ruas, incluindo o
uso de drogas. Além disso, têm de realizar
um número maior de programas por dia para manter
a renda e, às vezes, sustentar os vícios.
No estudo da Fumec, 76% das prostitutas entrevistadas apresentaram
sintomas de depressão, 59% de stress crônico
e 36% disseram ter pensado em suicídio alguma vez
desde que começaram a se prostituir.
Algumas garotas de programa que migram das boates de luxo
descem ainda mais baixo: vão parar nas ruas em zonas
conhecidas como do baixo meretrício. É ali
que a face mais perversa da prostituição se
revela. Nos "hotéis de alta rotatividade" do centro
de Belo Horizonte, por exemplo, existem cerca de 2.000
prostitutas trabalhando em condições desumanas.
Além de pagar diárias pelo uso dos quartos,
que mais parecem pardieiros, elas são responsáveis
pela faxina do local e pelo fornecimento de roupas de cama
e preservativos. Chegam a fazer quarenta programas por dia
em troca de 5 reais por relação. "A
perda do local privilegiado para trabalhar detona um processo
quase irreversível de autoviolação
dessas meninas", diz o psicólogo Emerson Tardieu.
Com reportagem de
Leonardo Coutinho
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