Edição 1 644 -12/4/2000

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Um drama carioca

"A privatização do saneamento, como todas as outras, envolve problemas político-ideológicos em que estão
em jogo os interesses das corporações
de funcionários
em oposição aos dos usuários"


Ilustração Alê Setti

O episódio recente de vazamento de óleo na Baía de Guanabara reviveu um antigo e curioso problema de jurisdição para as bobagens da administração pública. A recuperação ambiental, de responsabilidade da Petrobras, limita-se aos danos causados pelo óleo. Já os coliformes fecais, moradores no local de longa data graças à companhia de saneamento do Estado do Rio de Janeiro (a Cedae), terão seus direitos adquiridos preservados.

É provável que os milhares de vazamentos de esgoto que há anos impiedosamente maltratam a Baía de Guanabara já tenham causado mais estragos que as poucas horas de óleo que a Petrobras nos serviu. Mas como o dano desse esgoto é feito aos bocadinhos, e a responsável é uma empresa estadual falida, o nível de reclamação é pequeno. De que adianta queixar-se? Mesmo depois do estouro do emissário submarino em Ipanema, da mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas e das algas venenosas na Lagoa de Marapendi, o povo carioca exibe para com a Cedae, responsável por tudo isso, uma tolerância apenas comparável à que tinha com a extinta Telerj. Como a incompetência da Telerj era testada e conhecida, o carioca divertia-se com o assunto, produzindo piadas em vez de se aborrecer.

Pois bem, bastou a Telerj ser privatizada, mudar de nome e administração que a postura mudou totalmente. A despeito do aumento extraordinário nos investimentos feitos pela nova companhia, a Telemar é líder de queixas no Procon; agora que reclamação funciona, o carioca exercita o seu "jus sperneandi" com o mais genuíno e merecido senso de vingança. Foram, afinal, muitos anos de maus-tratos, de telefones mudos e "corretores" cobrando 5.000 dólares por uma linha. Por isso mesmo prevalece uma certa má vontade com a companhia, e perde-se a clareza sobre quanto as coisas melhoraram com a privatização.

Mas, voltando ao cerco imposto ao Rio de Janeiro pelos coliformes fecais, a responsabilidade, convém repetir, é da companhia estadual, que está em péssima situação financeira, é a campeã mundial de incorporações salariais, não tem recursos nem para pagar suas contas, quanto mais para investir, e opera em regime de caixa único com o Estado. A única coisa sensata a fazer com essa companhia, antes que ela se acabe, é privatizar, talvez até sem ônus para o comprador, dependendo dos compromissos de investimento e de recuperação ambiental que se puderem empurrar ao novo dono. Quanto será o passivo ambiental dessa companhia? Qual o valor da multa (que, aliás, é federal) para quem estraga quase todas as praias e lagoas do Rio de Janeiro? Um, dois, cem bilhões? Se houver privatização, e o Estado ficar com essa conta (que lhe pertence de direito), a União vai perdoar? O carioca vai perdoar?

Em fins de 1998, a Cedae quase foi vendida para a Lyonnaise des Eaux, uma das maiores do mundo no setor. A Assembléia Legislativa e o governador recém-eleito, hoje no exercício do mandato, fizeram de tudo para impedir a venda e conseguiram. Dois anos e vários desastres ambientais depois, o carioca pode perfeitamente se perguntar como teria sido: os franceses, cuja competência é reconhecida mundialmente, mas desconhecida por nossos governantes, teriam feito melhor que a Cedae, a cuja incompetência estamos submetidos e acostumados?

O drama carioca se repete Brasil afora. A falta de recursos para investimentos no setor não vai resolver-se com o tempo. São conhecidos os problemas fiscais que existem nas três esferas de governo. Não há mágica nesse terreno: quem tem recursos para investir no setor é a iniciativa privada. A privatização do saneamento, como todas as outras, envolve problemas político-ideológicos em que estão em jogo os interesses das corporações de funcionários em oposição aos dos usuários. A diferença é que, nesse caso, quanto mais tempo demorar, maiores serão os danos ao meio ambiente e o número de pessoas doentes por causa da falta de esgoto e da água suja na bica.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)