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A pesquisa sertaneja"Enquanto
alguns cientistas de
Ficamos traumatizados com os números e soterrados pelo desafio de reproduzir tais façanhas por esses brasis afora. Mas erramos ao contemplar somente a ponta do iceberg. Chamam a atenção os megaprojetos. Como nos icebergs, porém, a parte maior está submersa. É a miríade de "projetinhos" que, ao se somarem, aumentam a produtividade e o bem-estar coletivos. Enquanto alguns cientistas de carteirinha esgrimem em controvérsias bolorentas, há um avanço sub-reptício na "pesquisinha". Fora dos grandes centros e das instituições badaladas, o fluxo de pesquisa & desenvolvimento se encorpa nos Senai, Cefet e, no caso do Ceará, nos seus três Centec. Todos têm cursos técnicos e de tecnólogos, em vez de graduação (além de programas robustos de apoio às empresas e de pesquisa aplicada). Em visita recente ao Ceará e ao Rio Grande do Norte, pude ver que essas instituições transformaram em rotina os serviços de consultoria às empresas e os contratos de pesquisa. Vi nas oficinas do Senai alunos construindo um dispositivo simples para mecanizar a produção de punhos de rede. Outros desenvolviam um aparato para cortar legumes e havia também o protótipo de uma máquina para automatizar uma fase da produção de panelas de pressão, encomendada por uma fábrica local. Em Natal, os técnicos da escola de gás natural desenvolveram equipamentos para usar gás, em vez de lenha, nos fornos das padarias (fazer pão devasta florestas!). Desenvolveram também técnicas para seu armazenamento e transporte em caminhão. Em um nível bem mais sofisticado, estão sendo credenciados para aferir medidores de vazão de gás, tendo toda a América do Sul como mercado potencial. No Ceará, vários milhares de agricultores mandam aos Centec amostras de solo para ser examinadas. Elas receberão um laudo avaliando sua adequação para a agricultura praticada e as eventuais necessidades de correção. Com o uso de espectrógrafos, a análise de uma folha diagnostica um eventual desequilíbrio na nutrição da planta, sugerindo deficiências do solo. Centenas de amostras de água indicam se está salinizada (o flagelo da irrigação). No caso de água potável, se está contaminada ou com excesso de alumínio. Em convênios com municípios, a qualidade e o valor nutricional da merenda escolar são controlados. O revolucionário não são as pesquisas, mas sim fazê-las rotineiramente no interior. No programa de alimentos, estão sendo desenvolvidas e testadas uma pimenta-malagueta em spray, uma lingüiça de peixe e uma mortadela de bode. Há também protótipos de tomate e pepino em pó. Existem pesquisas para usar os resíduos do caju como alimentação de caprinos. Outro grupo participa do desenvolvimento de um inseticida biológico para uma praga da banana (Cosmopolites sordidus). Em Santa Cruz (RN), os bicudos devoraram os algodoais, levando a cidade a uma crise profunda. Uma escola do Senai ajuda na implantação de um pólo de confecções, como alternativa para a cidade, preparando a mão-de-obra e oferecendo apoio técnico às empresas nascentes. Os mestrados em engenharia começaram com projetos mirabolantes, mas, com a falta de recursos, estão progressivamente pondo os pés no chão. Já no nível de graduação das engenharias, há muitas lamúrias e pouca pesquisa saindo no fim da linha. Mas os bons cursos técnicos e de tecnólogos trilharam a direção oposta. Começaram vendendo serviços técnicos e estão passando à pesquisa aplicada, financiada pelos próprios interessados embora já participem as grandes agências de fomento. Não há a nefanda "pesquisa de prateleira", pois a pesquisa é vendida antes de começar. Ainda existem poucas avaliações sistemáticas, embora a observação sugira bons resultados. E, ao contrário do que se poderia imaginar, observa-se uma desconcentração geográfica dessa pesquisa. Nasce a pesquisa sertaneja.
Claudio
de Moura Castro é economista |
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