
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
Mendicância
chique
O
pobre que imita o rico
pode
ser cômico
ou
trágico. O
rico que
imita
o pobre é puro humor
negro
Nada mais familiar aos brasileiros do que as esquinas cheias de gente
pedindo esmola. Entre os pedintes há os que se apresentam em cadeiras
de rodas ou muletas. Há os velhos, os barbudos, os bêbados
e as mulheres com bebês no colo. Há as crianças, sobretudo,
muitas crianças. De uns tempos para cá elas se especializaram
em fazer malabarismo na frente dos carros. Algumas são realmente
competentes na arte de manter no ar três, quatro ou cinco bolinhas.
Demonstram que tiveram sagacidade e persistência para aprender,
o que pode ser sinal de talento também para outras coisas na vida.
Outras vão mal, constrangedoramente mal. Fazem papel de pequenos
palhaços involuntários no show das esquinas. Todos têm
em comum os andrajos com que se vestem e a fuligem da pobreza que lhes
cola à pele, sinais do desvio social em que estão metidos.
Todos? Não. Há uma exceção: uma tribo de mendigos
chiques que sazonalmente invade as ruas. Vestem roupa de butique. Não
raro, terminado o expediente nas esquinas, dirigem-se ao carro que estacionaram
nos arredores carro bom, de modelo recente. O compromisso seguinte
será uma compra no shopping center ou, se estiver na época,
uma sessão da Fashion Week. A noite terá o restaurante da
moda e a balada. São os novos alunos das faculdades. Nesta época,
de divulgação dos resultados dos vestibulares, eles se postam
nos cruzamentos, monitorados pelos "veteranos", para pedir dinheiro. Não
dizem que estão pedindo esmolas. Dizem que é para arrecadar
fundos para a festa dos calouros, para a cervejada, algo nessa linha.
O.k., assim é mais elegante para com a clientela, ainda que cruelmente
deselegante com quem pede para comer mesmo.
Tanto melhor, dirão alguns, que o trote dos calouros se limite
a pedir dinheiro. Há versões piores, que vão da violência
física a situações de humilhação moral
muito mais perversas do que esmolar. Quatro anos atrás, em São
Paulo, um calouro de medicina morreu na piscina onde, sem saber nadar,
fora forçado a mergulhar. Há algo de deprimente, no entanto,
nessa gente bem-posta, bem-vestida e, em regra, claro, branca a
cor de pele da esmagadora maioria dos que entram nas faculdades
reunida nas esquinas para mendigar. Para começar, os calouros pecam
contra os princípios da sadia concorrência. Drenam os trocados
que, de outra forma, poderiam destinar-se ao andrajoso de pele escura
da esquina seguinte. Mas esse é um aspecto secundário da
questão. Importante é o significado que o exercício
da mendicância chique assume no plano mais simbólico.
Outrora, uma das cenas favoritas, nos desenhos ou nas gravuras que exploravam
a estética do grotesco, era o festim dos mendigos. Em torno de
uma mesa farta, reuniam-se os maltrapilhos, os sujos, os desdentados.
Considerava-se muito divertida a inversão dos papéis. Na
mesa dos ricos, por vezes até provida de finas toalhas e cristais,
os pobres se esbaldavam. No caso da mendicância dos calouros, observa-se
a mesma inversão de papéis, mas em sentido contrário:
são os ricos que imitam os pobres. É a velha história
do príncipe e do mendigo, na faceta não do mendigo reinando
no palácio, mas do príncipe esmolando pela rua.
Quando o pobre imita o rico, o resultado pode ser cômico ou trágico,
dependendo do talento de quem imita e do espírito de quem observa.
Quando o rico imita o pobre, o resultado é humor negro, o mais
puro e desabrido humor negro, ainda mais no Brasil. A caricata versão
do mendigo de camiseta de grife é o Brasil achincalhando a si mesmo.
É a encenação, na avenida, para usar da linguagem
carnavalesca, do enredo da imitação da miséria, campeão
indiscutível, num país já suficientemente aquinhoado
de miséria, no quesito escárnio. A figura do pedinte que
acaba de ingressar no círculo do privilégio que é
a universidade é um monumento ao contra-senso.
Ainda não chegamos, porém, ao pior efeito da mendicância
chique. O pior, porque melancolicamente ilustrativo de uma sociedade fragmentada,
é a inter-relação que se estabelece entre pedintes
e doadores, esmoleiros e esmoleres. Há uma relação
de cumplicidade. Com o mendigo de verdade, a reação é
de medo, de asco ou, mesmo quando há simpatia, de distância
e instintivo alerta. Os sentidos põem-se em guarda. Todo cuidado
é pouco. Com o falso mendigo representado pelo calouro, relax,
ele é um dos nossos. São os nossos meninos. As nossas meninas.
Ah, essas nossas crianças e suas travessuras! Não são
como aquelas outras, assustadores seres de um mundo que não conhecemos
senão por raros vislumbres através da janela do automóvel.
Pode-se até não dar esmola alguma, mas sai-se com a alma
leve. Foi como encontrar um amigo, como rever-se na juventude. No caso
do mendigo de verdade, pode-se até dar a esmola, mas a alma sai
pesada de temores. O contraste entre as duas situações magnifica,
nas esquinas, o sulco que, além de dividir no plano objetivo a
sociedade brasileira, se prolonga insidiosamente para dentro de cada um
de nós.
|
|
 |