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Edição 1 789 - 12 de fevereiro de 2003
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As novas e belas
faces do jazz

Visual caprichado e música com apelo
pop são as armas dessas cantoras
para conquistar legiões de fãs

Sérgio Martins


Veja também
Para ouvir: as novas divas do jazz

O jazz, assim como a ópera, sempre teve suas divas. Foi ao microfone que as mulheres deram sua principal contribuição a esse gênero musical. O exército das grandes cantoras supera em muito o dos cantores que se destacaram. Para cada Frank há uma Billie, uma Bessie, uma Ella e uma Sarah. Presença constante no jazz, a diva foi mudando de perfil ao longo do tempo (veja quadro). A sua mais nova encarnação surgiu no finzinho da década passada. Seus principais atributos: a sensualidade (devidamente ressaltada pelas gravadoras, que sabem que homens de meia-idade compõem uma fatia respeitável do público interessado nesse tipo de música) e o fato de emprestarem um tratamento pop ao jazz – em vez de dar um tratamento jazzístico ao popular. É essa receita que tem garantido o sucesso de intérpretes como Diana Krall, Norah Jones e Jane Monheit.

AP
A loiríssima Diana Krall (foto) e Norah Jones: elas cantam, encantam e influenciam


O caso da americana Norah Jones, de 23 anos, é emblemático. Ela é filha do citarista indiano Ravi Shankar e de uma enfermeira americana. Só ficou sabendo que tinha pai famoso na adolescência. Recusa-se a falar sobre ele e diz que seu interesse por música jamais esteve relacionado à profissão paterna. Seus estudos de piano e saxofone deram-se por indicação de um psicólogo: ela era uma criança hiperativa e a música fazia parte de uma terapia. Foi tiete do roqueiro Bon Jovi antes de se interessar por Louis Armstrong ou Miles Davis. Mas foi um selo de jazz que resolveu lançá-la: o Blue Note, que gravou vários grandes nomes do gênero e resolveu dar tratamento de grande estrela à novata. Compensou. Gravado em 2002, seu primeiro CD, Come Away with Me, já vendeu 3 milhões de cópias nos Estados Unidos. No Brasil, foram cerca de 30.000 unidades, valor significativo para um artista internacional. A crítica também gostou. Norah é uma das principais figuras do próximo Grammy, o Oscar da indústria fonográfica, que terá sua entrega de estatuetas realizada no fim deste mês. Ela concorre nas principais categorias, como disco e gravação do ano – e seu principal adversário é o rapper Eminem. Curiosamente, ela não consta da premiação de jazz. E não parece nem um pouco incomodada com isso. "O jazz é essencial no meu trabalho, mas tenho muitas outras influências, como o country", explica ela.

A pioneira nessa seara foi a canadense Diana Krall, de 38 anos. No início da carreira, ela preferia tocar piano a cantar. No fim dos anos 90, resolveu fazer algumas experiências para ver se ampliava seu público. Aprendeu alguns standards da bossa nova, uma ou outra balada célebre e deu-se um banho de loja. A loiríssima Diana sempre foi uma mulher bonita, mas quem a viu tocar antes da metamorfose diz que seu visual era mais relaxado. Atualmente, ela não sobe ao palco sem estar impecavelmente produzida. Seus três últimos discos venderam juntos mais de 3 milhões de cópias. When I Look in Your Eyes, que ela lançou em 1999, tornou-se o primeiro álbum de jazz a concorrer ao Grammy na categoria principal em 25 anos. Seu álbum seguinte, The Look of Love (2001), entrou na nona colocação da parada americana. Até veteranas do jazz mudaram seu comportamento por causa do fenômeno Diana Krall. Por exemplo, a pianista brasileira Eliane Elias. Ela se notabilizou pela destreza ao instrumento. Vez ou outra adicionava vocais a seus álbuns. No entanto, seu novo CD, Kissed by Nature, que chega nesta semana ao Brasil, traz canto em nove das treze faixas. "Fiz um disco para o fã de jazz que anseia por ouvir canções suaves após um dia de trabalho", afirma Eliane.

O ecletismo e o flerte com gêneros mais populares não são uma novidade no jazz. Nos anos 50 e 60, Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald já subiam ao palco para cantar um sucesso dos Beatles ou uma versão da bossa-nova Águas de Março. Ao fazerem isso, freqüentemente reinventavam a música, seja pelo virtuosismo técnico, que as levava a quebrar um fraseado, seja pela pura força de sua interpretação. Diana Krall e companhia não vão tão longe. Elas dão um verniz refinado ao pop – ao mesmo tempo que revisitam clássicos da tradição do jazz. Talvez lhes falte algo da profundidade emocional de suas antecessoras. Mas ninguém vai negar que é gostoso ouvi-las. Graças a elas, o jazz está saindo do nicho em que se encontrava, para tornar-se novamente um gênero grande e rentável. Entre os fãs das novas divas, há tanto senhores de meia-idade que conhecem as interpretações de Bessie Smith de trás para a frente quanto uma garotada que até pouco tempo atrás estava feliz com Alanis Morissette.

 

As divas de ontem e de hoje

A ÉPOCA DE OURO
ANOS 30 E 40

Tudo me dói

ESTILO: a especialidade aqui não era o virtuosismo vocal, e sim a emoção, proporcionada por fartas doses de aflições românticas, familiares e com drogas

ÍCONES: Billie Holiday (foto), Bessie Smith, Anita O'Day

ANOS 50 E 60

Eu posso tudo

ESTILO: intérpretes irretocáveis, as divas dessa época mostravam sua diversidade no repertório. Iam de standards da canção americana a bossa nova e canções dos Beatles

ÍCONES: Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Lena Horne



A ÉPOCA DO OURO
ANOS 70 E 80
Divulgação


Eu faço de tudo

ESTILO: as cantoras passaram a ser também instrumentistas. Umas recuperavam as raízes blues do gênero e outras incorporavam ritmos africanos

ÍCONES: Eliane Elias (foto), Diane Schuur, Nina Simone

ANOS 90 E 2000
Abril Music


Eu sou tudo

ESTILO: beldades que cantam, tocam, saem muito bem nas fotos e vendem milhões de discos dão as cartas na indústria do jazz hoje

ÍCONES: Jane Monheit (foto), Norah Jones e Diana Krall



   
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