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Edição 1 789 - 12 de fevereiro de 2003
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O crime de ser mulher

A China vem mudando há décadas.
Mas ser chinesa ainda não ficou
mais fácil, diz a jornalista Xinran Hue

Isabela Boscov

 
Xinran, em Londres: primeiro abraço na mãe depois dos 40 anos


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Trecho do livro

Aos 7 anos, Xinran Hue viu o pai ser preso e os móveis e livros da família serem atirados numa fogueira por policiais. Nem suas tranças escaparam do fogo. Por causa das fitas "imperialistas" e "reacionárias" que as prendiam, elas foram cortadas e queimadas. Logo depois foi a vez de a mãe de Xinran ser detida, e de a menina e seu irmão pequeno serem enviados a uma escola militar – o único tipo de estabelecimento de ensino que permaneceu aberto durante o período da Revolução Cultural chinesa, nos anos 60. Como eram filhos de "lacaios do capitalismo", Xinran e seu irmão entraram no rol das crianças "negras". Só se alimentavam de sobras, não podiam brincar com as crianças "vermelhas" para não conspurcar o clima de pureza maoísta reinante entre elas, agüentavam cusparadas e agressões dos colegas, sob os auspícios da guarda local, e passavam por horas diárias de massacre ideológico para admitir a natureza reacionária de sua família. Nos anos 80, quando a China começou a ensaiar seu processo de abertura e Xinran pôde finalmente escolher uma profissão, ela quis trabalhar como jornalista na rádio de Nanquim, no leste do país. Lá, ela deu início a um experimento inédito entre os chineses, ainda que velhíssimo e consagrado em todo o Ocidente: um programa para o qual os ouvintes – e principalmente as ouvintes – mandassem cartas, dividindo seus problemas e pedindo conselhos. Xinran acabou se tornando uma espécie de celebridade, e é dessa sua experiência com as misérias pessoais femininas, num país que nunca teve consideração por elas, que nasceu As Boas Mulheres da China (tradução de Manoel Paulo Ferreira; Companhia das Letras; 286 páginas; 35 reais).

O livro só pôde ser publicado porque, em 1997, Xinran trocou a China pela Inglaterra, onde se casou com um inglês e dá aulas na Universidade de Londres. Composto de quinze histórias, cada uma sobre uma personagem encontrada pela jornalista por intermédio do programa Palavras na Brisa Noturna, ele pretende traçar um panorama da condição feminina na China revolucionária. Uma menina foi vendida em casamento para um velho e acorrentada, sem que os moradores do povoado ou as autoridades se dispusessem a interferir – isso porque existem "36 virtudes, mas não ter herdeiros é um mal que nega todas elas", e o velho estaria, portanto, no direito de assegurar sua continuidade. Outra garota, continuamente molestada pelo pai, arruinou deliberadamente sua saúde para se refugiar num hospital – onde morreu de septicemia. Há ainda o caso de uma moça que foi reduzida a um estado permanente de catatonia depois de assistir à tortura da irmã, acusada de ser contra a revolução. Xinran fala também de universitárias tornadas cínicas e descrentes pela competição com os homens, de homossexuais à margem da lei e de belas militantes dadas como esposas a figurões do Exército. A despeito de sua prosa meio desajeitada, Xinran consegue aquilo que pretende: mostrar como as mulheres chinesas passaram, em 1949, de joguetes da tradição a peões do todo-poderoso Partido Comunista, e como sempre coube a elas a pior parte nas diversas e traumáticas fases da revolução. Não menos interessante é o cenário que o livro compõe do dia-a-dia dos chineses, com os obstáculos da burocracia, os sobressaltos da vigilância ideológica e sexual e, apesar disso, o apego ao país e à cultura.

As Boas Mulheres da China, entretanto, se torna notavelmente mais forte quando Xinran faz com o leitor aquilo que suas ouvintes faziam com ela: compartilhar as suas próprias histórias. Neta de um grande industrial e filha de cientistas, a autora levou a vida típica de alguém que cresceu junto com a China revolucionária: primeiro ocultando as riquezas que haviam sobrado, depois as perdendo todas e enfrentando a perseguição, tudo sempre sob a guarda do governo e longe dos pais, que estavam ora a serviço do Partido, ora atravessando árduos períodos de reeducação ideológica. Xinran calcula que todo o tempo que passou junto da família não some dois anos. Já quarentona, abraçou a mãe pela primeira vez, e foi recebida com constrangimento visível. Pelo que se pode depreender de seus relatos, esse tipo de amargura não é exatamente uma exceção. É, na verdade, algo próximo da regra num país onde, por gerações, os relacionamentos amorosos e familiares foram assunto de Estado.

 

Cidadãs de segunda

"A garota (acorrentada) tinha só doze anos. Nós a tiramos do velho (que a comprara), que chorava e praguejava amargamente. (...) Não recebi nenhum elogio por salvar a menina, só críticas por 'deslocar soldados, causar agitação entre as pessoas' e desperdiçar o tempo e o dinheiro da emissora. Fiquei abalada com essas queixas. Havia uma garota em perigo e, ainda assim, ir em socorro dela foi visto como 'exaurir as pessoas e drenar o Tesouro'. Quanto valia, exatamente, a vida de uma mulher na China?"

Trecho de As Boas Mulheres da China, de Xinran

 

   
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