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O
crime de ser mulher
A China vem mudando há décadas.
Mas
ser chinesa ainda não ficou
mais
fácil, diz a jornalista Xinran Hue
Isabela Boscov
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| Xinran,
em Londres: primeiro abraço na mãe depois dos 40 anos
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Veja também |
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Aos
7 anos, Xinran Hue viu o pai ser preso e os móveis e livros da
família serem atirados numa fogueira por policiais. Nem suas tranças
escaparam do fogo. Por causa das fitas "imperialistas" e "reacionárias"
que as prendiam, elas foram cortadas e queimadas. Logo depois foi a vez
de a mãe de Xinran ser detida, e de a menina e seu irmão
pequeno serem enviados a uma escola militar o único tipo
de estabelecimento de ensino que permaneceu aberto durante o período
da Revolução Cultural chinesa, nos anos 60. Como eram filhos
de "lacaios do capitalismo", Xinran e seu irmão entraram no rol
das crianças "negras". Só se alimentavam de sobras, não
podiam brincar com as crianças "vermelhas" para não conspurcar
o clima de pureza maoísta reinante entre elas, agüentavam
cusparadas e agressões dos colegas, sob os auspícios da
guarda local, e passavam por horas diárias de massacre ideológico
para admitir a natureza reacionária de sua família. Nos
anos 80, quando a China começou a ensaiar seu processo de abertura
e Xinran pôde finalmente escolher uma profissão, ela quis
trabalhar como jornalista na rádio de Nanquim, no leste do país.
Lá, ela deu início a um experimento inédito entre
os chineses, ainda que velhíssimo e consagrado em todo o Ocidente:
um programa para o qual os ouvintes e principalmente as ouvintes
mandassem cartas, dividindo seus problemas e pedindo conselhos.
Xinran acabou se tornando uma espécie de celebridade, e é
dessa sua experiência com as misérias pessoais femininas,
num país que nunca teve consideração por elas, que
nasceu As Boas Mulheres da China (tradução
de Manoel Paulo Ferreira; Companhia das Letras; 286 páginas; 35
reais).
O
livro só pôde ser publicado porque, em 1997, Xinran trocou
a China pela Inglaterra, onde se casou com um inglês e dá
aulas na Universidade de Londres. Composto de quinze histórias,
cada uma sobre uma personagem encontrada pela jornalista por intermédio
do programa Palavras na Brisa Noturna, ele pretende traçar
um panorama da condição feminina na China revolucionária.
Uma menina foi vendida em casamento para um velho e acorrentada, sem que
os moradores do povoado ou as autoridades se dispusessem a interferir
isso porque existem "36 virtudes, mas não ter herdeiros
é um mal que nega todas elas", e o velho estaria, portanto, no
direito de assegurar sua continuidade. Outra garota, continuamente molestada
pelo pai, arruinou deliberadamente sua saúde para se refugiar num
hospital onde morreu de septicemia. Há ainda o caso de uma
moça que foi reduzida a um estado permanente de catatonia depois
de assistir à tortura da irmã, acusada de ser contra a revolução.
Xinran fala também de universitárias tornadas cínicas
e descrentes pela competição com os homens, de homossexuais
à margem da lei e de belas militantes dadas como esposas a figurões
do Exército. A despeito de sua prosa meio desajeitada, Xinran consegue
aquilo que pretende: mostrar como as mulheres chinesas passaram, em 1949,
de joguetes da tradição a peões do todo-poderoso
Partido Comunista, e como sempre coube a elas a pior parte nas diversas
e traumáticas fases da revolução. Não menos
interessante é o cenário que o livro compõe do dia-a-dia
dos chineses, com os obstáculos da burocracia, os sobressaltos
da vigilância ideológica e sexual e, apesar disso, o apego
ao país e à cultura.
As
Boas Mulheres da China, entretanto, se torna notavelmente mais forte
quando Xinran faz com o leitor aquilo que suas ouvintes faziam com ela:
compartilhar as suas próprias histórias. Neta de um grande
industrial e filha de cientistas, a autora levou a vida típica
de alguém que cresceu junto com a China revolucionária:
primeiro ocultando as riquezas que haviam sobrado, depois as perdendo
todas e enfrentando a perseguição, tudo sempre sob a guarda
do governo e longe dos pais, que estavam ora a serviço do Partido,
ora atravessando árduos períodos de reeducação
ideológica. Xinran calcula que todo o tempo que passou junto da
família não some dois anos. Já quarentona, abraçou
a mãe pela primeira vez, e foi recebida com constrangimento visível.
Pelo que se pode depreender de seus relatos, esse tipo de amargura não
é exatamente uma exceção. É, na verdade, algo
próximo da regra num país onde, por gerações,
os relacionamentos amorosos e familiares foram assunto de Estado.
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Cidadãs
de segunda
"A
garota (acorrentada) tinha só doze anos. Nós
a tiramos do velho (que a comprara), que chorava e praguejava
amargamente. (...) Não recebi nenhum elogio por salvar a
menina, só críticas por 'deslocar soldados, causar
agitação entre as pessoas' e desperdiçar o
tempo e o dinheiro da emissora. Fiquei abalada com essas queixas.
Havia uma garota em perigo e, ainda assim, ir em socorro dela foi
visto como 'exaurir as pessoas e drenar o Tesouro'. Quanto valia,
exatamente, a vida de uma mulher na China?"
Trecho
de As Boas Mulheres da China, de
Xinran
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