
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Decolagem
em vôo duplo
Sob as bênçãos do governo, Varig
e
TAM unem esforços para sair do atoleiro
Marcelo
Carneiro
De um lado, um gigante atolado em dívidas que beiram 3 bilhões
de reais. Do outro, uma companhia mais bem estruturada, mas que, a cada
decolagem, mal consegue encher metade dos assentos de suas aeronaves.
Abatidas por uma crise que afeta o setor mundialmente e que, no Brasil,
atingiu seu momento mais agudo, as duas principais empresas aéreas
do país decidiram juntar forças. Na semana passada, sob
as bênçãos do governo federal, Varig e TAM assinaram
um protocolo de entendimentos para a criação de uma nova
empresa, que poderia resultar de uma fusão. O acordo veio em boa
hora. Duas semanas atrás, a Varig teve um Boeing arrestado em Paris,
por não honrar dívidas de uma operação de
leasing, o aluguel de seus aviões. Foi o fundo do poço para
a maior companhia da América Latina, que, apesar do tamanho, nunca
esteve tão perto da quebradeira. Já a TAM amargou um prejuízo
de 619 milhões de reais entre janeiro e setembro do ano passado.
O acordo só deve ser sacramentado em junho e, pelo menos por enquanto,
não há previsão de aporte de novos recursos, estatais
ou privados.
A solenidade de assinatura do protocolo, porém, mostrou que o governo
faz questão de apadrinhar esse casamento. Dois ministros
Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, e José Viegas, da Defesa
e o comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Luiz Carlos
Bueno, prestigiaram a cerimônia. Furlan foi categórico ao
afirmar que o BNDES, sob seu comando, "não atuará como um
hospital de empresas", rejeitando a hipótese de novos financiamentos.
Mas é óbvio que a solução para as dívidas
passará por negociações em Brasília. Entre
os principais credores da Varig estão o Banco do Brasil e a BR
Distribuidora. Parte desses problemas financeiros se deve ao fato de que
a aviação é uma operação comercial
de alto risco. O custo de manutenção das aeronaves é
elevado, a oscilação do preço do petróleo
sempre preocupa e qualquer abalo na economia gera a diminuição
do número de passageiros. No caso das companhias brasileiras, que
têm receita em reais e 40% das despesas em dólares, o problema
torna-se dramático. Como o Planalto vê com bons olhos a fusão,
resta saber de que forma apoiará a concretização
do acordo.
Apesar do empenho em ajudar a encontrar saídas para a crise das
empresas aéreas, o governo pouco falou sobre um dos aspectos mais
importantes de uma fusão desse porte: os benefícios aos
passageiros. Juntas, Varig e TAM dominarão mais de 70% do mercado
de vôos domésticos uma concentração
pesada, o que poderia representar o fim de uma saudável guerra
entre as companhias por tarifas reduzidas e melhores serviços.
Há dois anos, o governo liberou os preços, e hoje as empresas
ainda enfrentam a concorrência da novata Gol, que segue a filosofia
de custos baixos e bilhetes baratos, uma tendência em alta no mundo
da aviação nos últimos anos. "Se a fusão for
aprovada, as duas principais companhias vão parar de competir,
e isso é grave", avalia o economista Claudio Considera, ex-secretário
de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda.
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) acredita, no
entanto, que a concentração, por si só, não
representa uma ameaça aos interesses dos usuários. Apesar
dos temores, a avaliação de especialistas do setor é
que o crescimento, em todo o mundo, das empresas com tarifas mais baixas
se tornou um obstáculo à concentração. "No
Brasil, a Gol já tem uma boa fatia do mercado e é a única
que está crescendo", diz o consultor em aviação Paulo
Sampaio. Se a guerra de preços continuar, poderá haver redução
no número de linhas e rotas. Menos ofertas e opções
nunca são uma boa notícia para o consumidor. Hoje, uma viagem
de São Paulo ao Recife pode custar 425 reais pela Varig, 412 pela
TAM ou 361 pela Gol, que ainda oferece melhores condições
de pagamento. Em compensação, o vôo nas duas principais
companhias é sem escalas e dura 45 minutos menos que pela Gol,
na qual o passageiro terá de parar no Rio de Janeiro e em Salvador.
Outro aspecto da fusão que causa dúvidas nos analistas é
se, de fato, duas companhias como Varig e TAM, com culturas empresariais
tão distintas, poderão resultar em uma só companhia.
Na Varig, por exemplo, o problema está na gestão da empresa
pela Fundação Ruben Berta, dona de 87% das ações.
Composta de um colegiado de 200 funcionários que elege membros
para um conselho curador, a fundação sempre imprimiu um
tom de corporativismo na solução dos problemas financeiros
da companhia. Todas as tentativas anteriores de saneamento esbarraram
na resistência à adoção de medidas mais duras,
como demissões. É bom lembrar que, como o próprio
nome indica, no momento tudo não passa de um protocolo de intenções.
No ano passado, a fusão entre a Companhia Siderúrgica Nacional
e a indústria anglo-holandesa Corus foi dada como certa. Meses
depois, os executivos das duas empresas anunciaram o rompimento do noivado.
|
GIGANTE
NO AR
Juntas, TAM e Varig dominariam 70% do mercado de vôos domésticos
A nova empresa teria 218 aeronaves, quase quarenta
a mais que a italiana Alitalia
As duas companhias registraram grandes prejuízos, mas a situação
da Varig é bem mais difícil. O patrimônio líquido
da empresa já é de 1,5 bilhão de reais negativo
Analistas de mercado calculam que, com a fusão, a redução
de custos das duas companhias poderia chegar a 80 milhões
de dólares por ano
|
|
|
 |