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Edição 1 789 - 12 de fevereiro de 2003
Economia e Negócios BNDES

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Como nos anos 50

Defesa da volta do hospital
de empresas faz governo
mandar Lessa se calar

Lucila Soares

O economista carioca Carlos Lessa, 66 anos, é dono de um respeitável currículo acadêmico, ao qual junta dois títulos curiosos: torcedor do modesto Olaria Atlético Clube e fundador de um bloco carnavalesco chamado Minerva Assanhada. Em dezembro, licenciou-se do cargo de reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para aceitar a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Na cerimônia de posse em 17 de janeiro, prometeu mudar radicalmente os rumos de uma das instituições mais poderosas do país (veja quadro). Enfatizou a prioridade à inclusão social e criticou duramente a "opção neoliberal". Nos dias que se seguiram, deu entrevistas cheias de frases de efeito. Afirmou que não teme correr riscos em nome da nação e do desenvolvimento e ressuscitou a idéia nefasta do banco que funciona como hospital de empresas. Essa concepção a respeito do papel do BNDES vigorou até o início da década de 90. "Se o BNDES tiver de ser hospital, será", declarou. Lessa já tivera divergências públicas com seu chefe imediato, o ministro Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Os desentendimentos, aparentemente contornados, foram indisfarçáveis na posse, quando o discurso de Furlan estava mais afinado com o de Eleazar de Carvalho, que transmitiu o cargo a Lessa. O novo presidente do BNDES acabou desautorizado pelo ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e, no final de janeiro, sua cruzada verbal foi interrompida. A ordem para que Lessa seja mais contido foi transmitida pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu.

Lessa é um intelectual inquieto, debatedor incansável e orador inflamado. São características de efeito colateral funesto para um executivo: ele fala demais e, em nome de uma boa polêmica, sacrifica sem dó a objetividade. A primeira a adverti-lo foi a loquaz economista Maria da Conceição Tavares, responsável pela indicação de Lessa, um peemedebista histórico, para o cargo. Não adiantou. Um ex-dirigente do BNDES no governo Sarney, quando o economista foi diretor do Finsocial, lembra que Lessa não consegue se conter: "Ele infernizava as reuniões de diretoria com suas teorias". Quase vinte anos depois, o professor – como gosta de ser chamado – continua o mesmo. Literalmente. Defende o ideário nacional-desenvolvimentista que foi hegemônico nas décadas de 50 e 60 e, mal chegou, fez um pedido de dinossauro: uma máquina de escrever.

A questão é que o BNDES mudou. Deixou de ter o papel de indutor do desenvolvimento que desempenhou em sua origem. Também ficou para trás o tempo em que bancava generosos subsídios a empresas nem sempre eficientes. Principalmente do início da década de 90 para cá, o banco passou a se preocupar com competitividade e retorno, palavras de importância crucial no mundo globalizado. Para Lessa, esse foi o caminho pelo qual a instituição teria se desvirtuado. "O BNDES é um banco de desenvolvimento, no qual as prioridades nacionais superam a visão estritamente bancária de risco", define. É uma afirmativa perigosa. O BNDES é gestor de dinheiro público – inclusive de 40% dos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) – e não poderia simplesmente jogá-lo fora em projetos inviáveis.


Rogério Montenegro
O ministro Furlan, que não queria Lessa no BNDES: governo não será hospital


Mas a discussão mais importante é outra. Ninguém duvida, nos dias de hoje, de que o mercado seja incapaz de promover sozinho a saúde econômica e o bem-estar social de uma nação. O Estado tem de agir para preencher as lacunas que o mercado não pode suprir. É na hora de identificá-las que surgem as grandes divergências. No limite, pode-se concluir que toda a economia é uma lacuna a ser preenchida. Lessa deixa essa dúvida no ar quando defende a proteção a setores estratégicos, ou a empresas vitais, e não explicita os critérios a ser utilizados. Para o economista José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton, é necessário medir as conseqüências. Seria um desastre repetir experiências como a da reserva de mercado de informática, que protegeu os fabricantes nacionais e atrasou brutalmente todo o restante do parque industrial brasileiro.

Na equipe de Lula, o papel do Estado na economia é um marco de diferenças aparentemente inconciliáveis. Uma das mais evidentes é justamente entre Lessa e Furlan. Não haveria problema se a política do governo estivesse clara. Mas não está. Tanto que Lessa foi nomeado mesmo repetindo idéias que defende há mais de quarenta anos e que estão publicadas em doze livros. Ele é discípulo de Celso Furtado, o maior expoente do desenvolvimentismo. Outra forte influência vem de Maria da Conceição Tavares, autora de um trabalho clássico sobre substituição de importações. Se o governo o escolheu para presidir o BNDES – ignorando as preferências de Furlan –, é porque, em princípio, concorda com a essência de seu pensamento. A questão é: o governo concorda com o ideário de Lessa ou com o de Furlan? Na semana passada, o ministro Furlan disse, sobre a fusão entre Varig e TAM, que o governo não será hospital de empresas. Foi uma clara resposta a Lessa. Resta saber que posição prevalecerá.

Só isso já seria suficiente para tornar muito difícil a atuação do BNDES. Mas o furacão Lessa está virando o banco de cabeça para baixo. Reduziu à metade o número de superintendências – de 26 para treze. Da gestão anterior, mantiveram-se apenas três superintendentes. Os outros dez foram substituídos, junto com os cinco diretores. Entre os nomeados existem funcionários aposentados e outros afastados há muitos anos do banco. Só no fim do mês a reestruturação deverá estar concluída. O resultado é que o BNDES se encontra virtualmente paralisado. Ninguém sabe se ocorrerão mudanças operacionais. O que anda funcionando a todo o vapor na sede do banco, no centro do Rio de Janeiro, é uma bolsa de apostas sobre o tempo de permanência de Lessa na presidência. Poucos apostam em mais de seis meses.

 

O poder do BNDES

O BNDES é a única fonte brasileira de financiamento de longo prazo

Neste ano, deverá desembolsar 34 bilhões de reais, mais que todo o crédito concedido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em 2001

O retorno das aplicações é responsável por quase 90% dos recursos do banco, que também faz captações no mercado internacional e administra 40% do dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT)

O banco atua em todos os segmentos da economia – agropecuária, indústria, infra-estrutura, comércio e serviços – além da área social

Os empreendimentos financiados em 2002 geraram 3 000 empregos diretos e indiretos

Fontes: BNDES e Banco Interamericano de Desenvolvimento



 
 
   
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