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Como
nos anos 50
Defesa da volta do hospital
de empresas faz governo
mandar Lessa se calar
Lucila
Soares
O economista carioca Carlos Lessa, 66 anos, é dono de um respeitável
currículo acadêmico, ao qual junta dois títulos curiosos:
torcedor do modesto Olaria Atlético Clube e fundador de um bloco
carnavalesco chamado Minerva Assanhada. Em dezembro, licenciou-se do cargo
de reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para aceitar
a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES). Na cerimônia de posse em 17 de janeiro, prometeu
mudar radicalmente os rumos de uma das instituições mais
poderosas do país (veja
quadro).
Enfatizou a prioridade à inclusão social e criticou
duramente a "opção neoliberal". Nos dias que se seguiram,
deu entrevistas cheias de frases de efeito. Afirmou que não teme
correr riscos em nome da nação e do desenvolvimento e ressuscitou
a idéia nefasta do banco que funciona como hospital de empresas.
Essa concepção a respeito do papel do BNDES vigorou até
o início da década de 90. "Se o BNDES tiver de ser hospital,
será", declarou. Lessa já tivera divergências públicas
com seu chefe imediato, o ministro Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior. Os desentendimentos, aparentemente
contornados, foram indisfarçáveis na posse, quando o discurso
de Furlan estava mais afinado com o de Eleazar de Carvalho, que transmitiu
o cargo a Lessa. O novo presidente do BNDES acabou desautorizado pelo
ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e, no final de janeiro, sua
cruzada verbal foi interrompida. A ordem para que Lessa seja mais contido
foi transmitida pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu.
Lessa é um intelectual inquieto, debatedor incansável e
orador inflamado. São características de efeito colateral
funesto para um executivo: ele fala demais e, em nome de uma boa polêmica,
sacrifica sem dó a objetividade. A primeira a adverti-lo foi a
loquaz economista Maria da Conceição Tavares, responsável
pela indicação de Lessa, um peemedebista histórico,
para o cargo. Não adiantou. Um ex-dirigente do BNDES no governo
Sarney, quando o economista foi diretor do Finsocial, lembra que Lessa
não consegue se conter: "Ele infernizava as reuniões de
diretoria com suas teorias". Quase vinte anos depois, o professor
como gosta de ser chamado continua o mesmo. Literalmente. Defende
o ideário nacional-desenvolvimentista que foi hegemônico
nas décadas de 50 e 60 e, mal chegou, fez um pedido de dinossauro:
uma máquina de escrever.
A questão é que o BNDES mudou. Deixou de ter o papel de
indutor do desenvolvimento que desempenhou em sua origem. Também
ficou para trás o tempo em que bancava generosos subsídios
a empresas nem sempre eficientes. Principalmente do início da década
de 90 para cá, o banco passou a se preocupar com competitividade
e retorno, palavras de importância crucial no mundo globalizado.
Para Lessa, esse foi o caminho pelo qual a instituição teria
se desvirtuado. "O BNDES é um banco de desenvolvimento, no qual
as prioridades nacionais superam a visão estritamente bancária
de risco", define. É uma afirmativa perigosa. O BNDES é
gestor de dinheiro público inclusive de 40% dos recursos
do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e não poderia simplesmente
jogá-lo fora em projetos inviáveis.
Rogério Montenegro
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| O
ministro Furlan, que não queria Lessa no BNDES: governo não
será hospital |
Mas a discussão mais importante é outra. Ninguém
duvida, nos dias de hoje, de que o mercado seja incapaz de promover sozinho
a saúde econômica e o bem-estar social de uma nação.
O Estado tem de agir para preencher as lacunas que o mercado não
pode suprir. É na hora de identificá-las que surgem as grandes
divergências. No limite, pode-se concluir que toda a economia é
uma lacuna a ser preenchida. Lessa deixa essa dúvida no ar quando
defende a proteção a setores estratégicos, ou a empresas
vitais, e não explicita os critérios a ser utilizados. Para
o economista José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade
Princeton, é necessário medir as conseqüências.
Seria um desastre repetir experiências como a da reserva de mercado
de informática, que protegeu os fabricantes nacionais e atrasou
brutalmente todo o restante do parque industrial brasileiro.
Na equipe de Lula, o papel do Estado na economia é um marco de
diferenças aparentemente inconciliáveis. Uma das mais evidentes
é justamente entre Lessa e Furlan. Não haveria problema
se a política do governo estivesse clara. Mas não está.
Tanto que Lessa foi nomeado mesmo repetindo idéias que defende
há mais de quarenta anos e que estão publicadas em doze
livros. Ele é discípulo de Celso Furtado, o maior expoente
do desenvolvimentismo. Outra forte influência vem de Maria da Conceição
Tavares, autora de um trabalho clássico sobre substituição
de importações. Se o governo o escolheu para presidir o
BNDES ignorando as preferências de Furlan , é
porque, em princípio, concorda com a essência de seu pensamento.
A questão é: o governo concorda com o ideário de
Lessa ou com o de Furlan? Na semana passada, o ministro Furlan disse,
sobre a fusão entre Varig e TAM, que o governo não será
hospital de empresas. Foi uma clara resposta a Lessa. Resta saber que
posição prevalecerá.
Só isso já seria suficiente para tornar muito difícil
a atuação do BNDES. Mas o furacão Lessa está
virando o banco de cabeça para baixo. Reduziu à metade o
número de superintendências de 26 para treze. Da gestão
anterior, mantiveram-se apenas três superintendentes. Os outros
dez foram substituídos, junto com os cinco diretores. Entre os
nomeados existem funcionários aposentados e outros afastados há
muitos anos do banco. Só no fim do mês a reestruturação
deverá estar concluída. O resultado é que o BNDES
se encontra virtualmente paralisado. Ninguém sabe se ocorrerão
mudanças operacionais. O que anda funcionando a todo o vapor na
sede do banco, no centro do Rio de Janeiro, é uma bolsa de apostas
sobre o tempo de permanência de Lessa na presidência. Poucos
apostam em mais de seis meses.
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O
poder do BNDES
O BNDES é a única fonte brasileira de financiamento
de longo prazo
Neste ano, deverá desembolsar 34 bilhões de reais,
mais que todo o crédito concedido pelo Banco Interamericano
de Desenvolvimento (BID) em 2001
O retorno das aplicações é responsável
por quase 90% dos recursos do banco, que também faz captações
no mercado internacional e administra 40% do dinheiro do Fundo de
Amparo ao Trabalhador (FAT)
O banco atua em todos os segmentos da economia agropecuária,
indústria, infra-estrutura, comércio e serviços
além da área social
Os empreendimentos financiados em 2002 geraram 3 000 empregos diretos
e indiretos
Fontes: BNDES e Banco Interamericano de Desenvolvimento
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