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A
loja que é um comércio
Com picos diários de vendas de
1 bilhão de dólares, a Wal-Mart
é o fenômeno
do momento na
economia dos EUA
A rede de lojas americana Wal-Mart, presente em nove países, inclusive
no Brasil, faz parte do pequeno grupo de empresas que se tornam símbolos
de seu tempo. Nas últimas semanas, suas vendas mundiais atingiram
picos diários de 1 bilhão de dólares. É mais
do que o Ponto Frio leva um ano para vender. A Wal-Mart chegou ao posto
de maior empresa do mundo em faturamento e está entre as dez mais
respeitadas e as cinco que mais retorno dão a seus acionistas.
Foi responsável por 25% de todo o ganho de produtividade da economia
americana entre 1995 e 1999, segundo a consultoria McKinsey, e é
a maior empregadora do setor privado em todo o mundo. Tudo isso sem produzir
um único veículo nem explorar um barril de petróleo.
Também não fabrica computadores nem produz softwares. O
negócio da Wal-Mart é vender. Desperta admiração
justamente por triunfar numa atividade aparentemente singela, mas com
uma eficiência ímpar no sistema econômico que prima
pela eficácia.
A Wal-Mart vende de carros usados a talheres e chega a atender 100 milhões
de clientes por semana. É como se toda a população
do México andasse pelos corredores das lojas semanalmente. Em 2002,
o aumento das vendas em relação ao ano anterior foi equivalente
ao PIB de um país como a Eslováquia. Estima-se que o faturamento
tenha chegado ao patamar de 250 bilhões de dólares, ou quase
a metade de toda a riqueza produzida num país do tamanho do Brasil
durante um ano. Esse ritmo frenético dos negócios obriga
a empresa a ter uma frota de vinte aviões para transportar gerentes
pelos Estados Unidos e ao redor do mundo. O número de milhas por
passageiro é semelhante ao de uma companhia aérea de porte
médio.
O
lema de Sam Walton, o fundador da empresa, morto em 1992, ainda é
seguido à risca: preços baixos é a meta número
1. As histórias de como Walton, que começou com um pequeno
negócio em 1962, reduzia custos são lendárias. "Tio
Sam", como era conhecido, orientava seus principais executivos a usar
canetas recebidas de brinde. Sam cobrava deles também o café
e a água mineral que bebiam. Essa preocupação em
economizar se estendia à vida pessoal. Apesar de ser um dos homens
mais ricos do mundo, Walton vestia-se como um gerente e dirigia uma picape
velha. Hoje a Wal-Mart busca o objetivo do preço baixo de forma
tão eficiente que até ajuda a puxar o índice de inflação
para baixo nos Estados Unidos, onde estão 70% de suas lojas. Consegue
isso porque tem enorme poder de barganha junto aos fornecedores. Por ser
o maior cliente até de companhias como a Gillette e a Procter &
Gamble, vê suas demandas por preço e especificações
de produtos atendidas. "Os fornecedores sofrem muito nas negociações
por causa da força da Wal-Mart", disse a VEJA Ira Kalish, diretor
da Retail Forward, uma empresa de consultoria americana especializada
em varejo. "Por outro lado, ninguém quer perder um canal direto
com milhões de consumidores." Com cerca de 6% do setor varejista
americano, a Wal-Mart é grande e poderosa, mas não pode
ser acusada de monopolista.
Em uma entrevista ao jornal inglês Financial Times em janeiro,
Lee Scott, o atual presidente da Wal-Mart, disse que o sucesso da empresa
é mais uma questão de evolução que de revolução.
"Quando comecei a trabalhar, em 1979, passávamos as manhãs
de sexta-feira discutindo as estratégias dos competidores", disse
Scott ao jornal inglês. Resumir a estratégia da maior companhia
do mundo à imitação é pura modéstia.
A empresa investiu pesadamente em logística. O Retail Link, um
sistema que une a Wal-Mart a seus fornecedores, dá informações
sobre os estoques das lojas e as vendas. Assim, os fornecedores começam
a produzir e entregam exatamente quando é necessário.
De cada 3 dólares pagos à Wal-Mart, 1 é resultado
da venda de alimentos. Com custos de mão-de-obra cerca de 25% inferiores
aos dos supermercados, a empresa consegue vender a preços 15% mais
baixos. As tentativas para sindicalizar os funcionários até
agora não vingaram porque a Wal-Mart tem fama de ser uma boa empregadora.
Já esteve entre as 100 melhores companhias para trabalhar nos Estados
Unidos, de acordo com o ranking da revista Fortune. Nem mesmo as
acusações de que está acabando com o pequeno comércio
tradicional e exportando empregos por comprar do exterior abalam sua reputação.
A empresa chegou ao Brasil em 1995. A estratégia de crescimento
orgânica, com a construção de lojas, não levou
a Wal-Mart a posições de liderança. Com 22 lojas,
a companhia não está nem entre as cinco maiores do setor
no Brasil. "É provável que a rede seja mais agressiva no
mercado brasileiro nos próximos meses", diz Marcos Gouvêa
de Souza, consultor do setor varejista. Se de fato decidir se mexer, dizem
os analistas, a gigante americana provavelmente crescerá pela compra
de concorrentes no Brasil.
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