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Edição 1 789 - 12 de fevereiro de 2003
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A loja que é um comércio

Com picos diários de vendas de
1 bilhão de dólares, a Wal-Mart
é o fenômeno
do momento na
economia dos EUA

A rede de lojas americana Wal-Mart, presente em nove países, inclusive no Brasil, faz parte do pequeno grupo de empresas que se tornam símbolos de seu tempo. Nas últimas semanas, suas vendas mundiais atingiram picos diários de 1 bilhão de dólares. É mais do que o Ponto Frio leva um ano para vender. A Wal-Mart chegou ao posto de maior empresa do mundo em faturamento e está entre as dez mais respeitadas e as cinco que mais retorno dão a seus acionistas. Foi responsável por 25% de todo o ganho de produtividade da economia americana entre 1995 e 1999, segundo a consultoria McKinsey, e é a maior empregadora do setor privado em todo o mundo. Tudo isso sem produzir um único veículo nem explorar um barril de petróleo. Também não fabrica computadores nem produz softwares. O negócio da Wal-Mart é vender. Desperta admiração justamente por triunfar numa atividade aparentemente singela, mas com uma eficiência ímpar no sistema econômico que prima pela eficácia.

A Wal-Mart vende de carros usados a talheres e chega a atender 100 milhões de clientes por semana. É como se toda a população do México andasse pelos corredores das lojas semanalmente. Em 2002, o aumento das vendas em relação ao ano anterior foi equivalente ao PIB de um país como a Eslováquia. Estima-se que o faturamento tenha chegado ao patamar de 250 bilhões de dólares, ou quase a metade de toda a riqueza produzida num país do tamanho do Brasil durante um ano. Esse ritmo frenético dos negócios obriga a empresa a ter uma frota de vinte aviões para transportar gerentes pelos Estados Unidos e ao redor do mundo. O número de milhas por passageiro é semelhante ao de uma companhia aérea de porte médio.


O lema de Sam Walton, o fundador da empresa, morto em 1992, ainda é seguido à risca: preços baixos é a meta número 1. As histórias de como Walton, que começou com um pequeno negócio em 1962, reduzia custos são lendárias. "Tio Sam", como era conhecido, orientava seus principais executivos a usar canetas recebidas de brinde. Sam cobrava deles também o café e a água mineral que bebiam. Essa preocupação em economizar se estendia à vida pessoal. Apesar de ser um dos homens mais ricos do mundo, Walton vestia-se como um gerente e dirigia uma picape velha. Hoje a Wal-Mart busca o objetivo do preço baixo de forma tão eficiente que até ajuda a puxar o índice de inflação para baixo nos Estados Unidos, onde estão 70% de suas lojas. Consegue isso porque tem enorme poder de barganha junto aos fornecedores. Por ser o maior cliente até de companhias como a Gillette e a Procter & Gamble, vê suas demandas por preço e especificações de produtos atendidas. "Os fornecedores sofrem muito nas negociações por causa da força da Wal-Mart", disse a VEJA Ira Kalish, diretor da Retail Forward, uma empresa de consultoria americana especializada em varejo. "Por outro lado, ninguém quer perder um canal direto com milhões de consumidores." Com cerca de 6% do setor varejista americano, a Wal-Mart é grande e poderosa, mas não pode ser acusada de monopolista.

Em uma entrevista ao jornal inglês Financial Times em janeiro, Lee Scott, o atual presidente da Wal-Mart, disse que o sucesso da empresa é mais uma questão de evolução que de revolução. "Quando comecei a trabalhar, em 1979, passávamos as manhãs de sexta-feira discutindo as estratégias dos competidores", disse Scott ao jornal inglês. Resumir a estratégia da maior companhia do mundo à imitação é pura modéstia. A empresa investiu pesadamente em logística. O Retail Link, um sistema que une a Wal-Mart a seus fornecedores, dá informações sobre os estoques das lojas e as vendas. Assim, os fornecedores começam a produzir e entregam exatamente quando é necessário.

De cada 3 dólares pagos à Wal-Mart, 1 é resultado da venda de alimentos. Com custos de mão-de-obra cerca de 25% inferiores aos dos supermercados, a empresa consegue vender a preços 15% mais baixos. As tentativas para sindicalizar os funcionários até agora não vingaram porque a Wal-Mart tem fama de ser uma boa empregadora. Já esteve entre as 100 melhores companhias para trabalhar nos Estados Unidos, de acordo com o ranking da revista Fortune. Nem mesmo as acusações de que está acabando com o pequeno comércio tradicional e exportando empregos por comprar do exterior abalam sua reputação. A empresa chegou ao Brasil em 1995. A estratégia de crescimento orgânica, com a construção de lojas, não levou a Wal-Mart a posições de liderança. Com 22 lojas, a companhia não está nem entre as cinco maiores do setor no Brasil. "É provável que a rede seja mais agressiva no mercado brasileiro nos próximos meses", diz Marcos Gouvêa de Souza, consultor do setor varejista. Se de fato decidir se mexer, dizem os analistas, a gigante americana provavelmente crescerá pela compra de concorrentes no Brasil.

 
 
   
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