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Edição 1 789 - 12 de fevereiro de 2003
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O dilema das mulheres entre a carreira e os filhos
Nova técnica indica muito peso e movimentos lentos
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A roupa faz a diferença na vida profissional

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Seja em que posição se estiver na carreira, a presença de filhos é um fator que pesa na permanência da mulher no emprego. Ao contrário do que se poderia pensar, no caso de gravidez, o que menos preocupa as mulheres é a perda do emprego. A legislação brasileira garante a elas estabilidade por mais de um ano, entre a concepção e o período de amamentação, e os patrões já não discriminam as grávidas, como ocorria até os anos 70. "Nessa época, casamento e gravidez eram motivo de demissão", diz Sônia Correia, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), no Rio de Janeiro. "A concepção de que a mulher trabalha apenas antes de ter filhos começou a mudar na década de 80 e se intensificou nos anos 90." Estima-se que 47% das mulheres com filhos com até 2 anos trabalhem. Entre aquelas com filhos maiores de 7 anos, 65% continuam no emprego. O que faz a diferença é o tamanho da aspiração profissional da mulher. Em nome da carreira, a paulista Vera Balhestero, administradora de empresas de 39 anos, abdicou de uma vez por todas de constituir família. "Quando decidi fazer carreira em empresas maiores, tornar-me uma alta executiva, desmanchei um noivado e fui estudar nos Estados Unidos", conta. "Estava seguindo o caminho oposto de minhas colegas, todas prestes a subir no altar. Abri mão de tudo para chegar aonde queria." Vera, que já ocupou altos cargos em empresas como o grupo Vicunha e a Mercedes-Benz, hoje é consultora de uma grande companhia brasileira. Ela não se arrepende. "Priorizei minha carreira e sou extremamente realizada com isso. Prefiro fazer uma coisa bem-feita a duas mais ou menos."

 
Claudio Rossi

Ousadia e determinação
A paulistana Raquel Siqueira diz que sempre assumiu riscos para atingir seus objetivos. Há três anos, logo após ser promovida a diretora de uma multinacional especializada em pesquisa de mercado, ela decidiu largar tudo para fazer um curso de pós-graduação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. "Meu marido sempre me apoiou e também pediu demissão do colégio em que dava aulas para me acompanhar", diz ela. Raquel engravidou e retornou a São Paulo com três meses de gestação. Apesar da gravidez, foi recontratada para o mesmo cargo anterior e com salário maior. A filha, Ana, nasceu em setembro de 2002. Durante a licença médica, Raquel coordenou sua equipe de casa, por telefone.
Raquel Siqueira, de 30 anos
Ocupação:
diretora da Research International
Carga diária de trabalho: doze horas
Filho: Ana, de 4 meses

Na decisão sobre ser mãe ou executiva de sucesso pesa também outro fator moderno: as mulheres não querem voltar para a rotina do lar. A condição de dona-de-casa, que "esquenta a barriga no fogão e esfria no tanque", não tem reconhecimento no mundo de hoje. Um estudo americano mostra que as mulheres gostam de trabalhar fora porque as recompensas no âmbito profissional são mais palpáveis que as obtidas no ambiente doméstico. "Duas décadas atrás, as mulheres iam trabalhar para ajudar nas despesas. Hoje, ter sucesso fora de casa é uma realização pessoal, e não apenas um apêndice econômico", explica Christina de Paula Leite, professora da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e autora de um livro sobre o assunto. "Cuidar das crianças pode ser maravilhoso, mas não costuma ser algo remunerado nem valorizado à altura." Das 51 mulheres de sucesso entrevistadas durante a elaboração do livro, nenhuma admitia a hipótese de deixar a profissão para ficar em casa. Todas disseram ser impossível abandonar tudo o que o alto cargo envolve: o respeito e a admiração de funcionários e colegas, o poder de liderar, o ambiente de trabalho e as regalias de um bom salário e benefícios.

Algumas mulheres que não abdicam de jeito nenhum de agregar família a sucesso profissional começaram a encontrar soluções intermediárias. Recentemente, nos Estados Unidos, detectou-se que essa dificuldade de conciliar carreira e filhos as está levando a abrir seu próprio negócio. Quando isso não é possível, migram para companhias menores e mais flexíveis. Uma pesquisa feita pela Korn/Ferry, a maior agência de headhunters dos Estados Unidos, buscou analisar por que as profissionais de sucesso em grandes corporações deixaram essas empresas para se arriscar num empreendimento seu. Das 425 mulheres pesquisadas, 52% responderam que o desejo de dispor de mais tempo para os filhos, a família e os projetos pessoais foi o principal motivo para abandonar a carreira promissora numa grande companhia. Questionadas sobre se estão felizes com a nova ocupação, 77% disseram que sim, porque têm mais tempo para a família. No Brasil, estima-se que a situação esteja se repetindo. Segundo o estudo da Organização Mundial do Trabalho, as mulheres são donas de 30% dos pequenos e micronegócios brasileiros.

 
Selmy Yassuda


Exigente, mesmo a distância
A baiana Ieda Correia Gomes é conhecida como "Senhora Energia" em seu escritório, em Londres. Quando engravidou, estava para subir os últimos degraus rumo à presidência da Comgás, companhia de distribuição de gás em São Paulo. "Morri de medo de ser despedida depois da licença", diz ela. Para mostrar que a maternidade não afetara sua vida profissional, continuou a trabalhar de doze a dezesseis horas por dia e não faltava a jantares de negócios. Seu segredo para criar o filho é estar presente, mesmo a distância. "Se estou viajando, ligo para casa para saber se ele escovou os dentes", conta. "O importante é ele saber que tem mãe, que ela é exigente e gosta dele, como qualquer mãe do mundo."
Ieda Correia Gomes, de 46 anos
Ocupação:
vice-presidente da British Petroleum
Carga diária de trabalho: doze a dezesseis horas
Filho: Leon, de 15 anos

Uma atenta jornalista da Business Week, revista americana especializada em negócios, notou que a maioria dos homens mortos no ataque terrorista ao World Trade Center, especialmente aqueles entre 30 e 40 anos e que trabalhavam no mercado financeiro, deixou mulher e filhos. Suas colegas, ao contrário, eram lembradas sobretudo por pais e amigos. A explicação dessa dicotomia reside no seguinte fenômeno: nos Estados Unidos, 49% das mulheres com mais de 40 anos e carreira bem-sucedida não têm filhos. Apenas 19% dos homens estão na mesma situação. Os números são de uma pesquisa em escala nacional da economista Sylvia Ann Hewlett, autora de um livro de grande repercussão, Creating a Life: Professional Women and the Quest for Children (Criando uma Vida: As Profissionais e a Busca por Crianças). Uma razão para essas americanas não terem filhos é que também não têm marido. Apenas 56% delas são casadas, em comparação com 83% dos homens na mesma posição profissional.

A maioria dos especialistas acredita que as executivas brasileiras estão mais propensas a enfrentar a dobradinha maternidade e trabalho. "As mulheres em nosso país acham que a família e os filhos são um ponto de apoio para o crescimento profissional", afirma o consultor de empresas Julio Lobos, que ouviu 550 profissionais de 400 empresas para tentar identificar o perfil da mulher de comando no Brasil. "Nos Estados Unidos, elas são mais competitivas, não há licença-maternidade nem existe uma estrutura de suporte, como empregadas domésticas, para ajudar na criação dos filhos", diz ele. A paulistana Eneida Bini, de 41 anos, presidente da filial brasileira da Avon, uma das maiores empresas de cosméticos do mundo, conta que abraçou "cada uma das oportunidades que surgiram na minha carreira". Mas isso não a impediu de ficar grávida de César, hoje com 16 anos. "Tive muita sorte, pois a empresa oferecia um bom berçário, de forma que consegui amamentar e ficar perto do meu bebê sem sair do local de trabalho", lembra. Ela acredita que a maternidade é fundamental para toda mulher e que é possível dedicar-se à profissão sem sacrificar a vida pessoal. "A gente precisa sempre gerenciar a carreira, a família e o filho ao mesmo tempo. É uma questão de boa gestão", diz. Fiel a essas idéias, no ano passado Eneida promoveu uma mulher grávida ao cargo de diretora.

A consulta feita por VEJA a 100 das 500 maiores empresas brasileiras encontrou uma realidade um pouco mais incômoda: nessas companhias, apenas 52% das mulheres em cargo de diretoria, vice-presidência ou presidência têm filhos. A maioria delas está acima dos 35 anos. Devido à metodologia aplicada, não se trata de um levantamento estatístico que possa ser aplicado como um retrato do Brasil. Mas é um bom indicativo de que pode estar começando a se reproduzir por aqui uma parte do fenômeno americano das mulheres que abdicam da maternidade em nome da carreira. É possível que se esteja falando de pessoas para as quais os filhos nunca foram prioridade. Sobre isso, a economista Hewlett diz que a maioria das mulheres não escolheu realmente não ter filhos. Quando ela pediu às executivas que relembrassem seus planos no momento em que deixavam a faculdade, soube que apenas 14% já tinham decidido que não queriam crianças. Ficaram sem filhos simplesmente porque o trabalho ofereceu oportunidades novas e envolventes, incluindo a possibilidade de definir sucesso em outros reinos que não o da maternidade.

 

COMO CONCILIAR CRIANÇAS E TRABALHO

• Não exclua a criança da vida profissional. Ela deve saber o que você faz fora de casa e a importância da carreira para sua realização pessoal

• Acompanhe os trabalhos escolares. Saber o que seu filho aprendeu na escola e cobrar as lições demonstra seu interesse por ele

• Não relute em levar as crianças ao escritório, quando possível. Elas se sentem integradas à sua vida profissional e ficam orgulhosas de seu papel na empresa

• Não abandone a rotina dos filhos durante viagens de negócios. Ligar duas vezes por dia, para saber se tomou banho e como andam as aulas, é a melhor estratégia quando se está distante

• Por mais que o trabalho consuma o dia inteiro, arrume uma brecha para ir ocasionalmente a uma festa escolar ou reunião de pais

• A mulher que trabalha fora precisa da ajuda de pessoas para educar a criança na sua ausência, sejam familiares, sejam empregados de confiança

 

O QUE UM HOMEM PODE FAZER NO
TRABALHO E A MULHER NÃO

Gail Evans é uma das executivas mais poderosas dos Estados Unidos. Vice-presidente da rede de televisão CNN, assistida por 1 bilhão de pessoas em 212 países, ela tem três filhos e é avó de quatro netos. Em seu livro Nos Negócios, Jogue como Homem, Vença como Mulher, que esteve na lista dos mais vendidos do The New York Times por semanas, ela ensina o que uma mulher deve fazer para ascender profissionalmente. Veja alguns conselhos:

Eles podem chorar, elas não
"Os homens podem chorar porque é inesperado e, se eles fazem isso, é por uma excelente razão. As mulheres comumente choram. Se elas choram, as pessoas acham que estão fazendo isso por instinto, ou então para manipular os sentimentos de quem as vê chorando."

Eles podem fazer sexo com as colegas. Elas não
"Culturalmente, as pessoas não se incomodam em saber que um chefe tem um caso com uma subordinada. Se ele termina o caso, também não causa espanto. Se uma mulher mantém um relacionamento na empresa, todos vão pensar que ela só progrediu por causa do romance, mesmo que tenha talento."

Eles podem gritar. Elas não
"Estamos acostumados a ver homens gritando e mostrando sua raiva publicamente. Faz parte do comportamento masculino. Quando uma mulher grita, as pessoas vêem isso como fragilidade. Acham-na despreparada para lidar com determinada situação."

Eles podem ser mal-educados. Elas não
"Desde os tempos do colégio, os homens de sucesso são aqueles de maus modos, que picham muros e matam aulas. Também desde cedo as mulheres de sucesso são as dóceis, de bons modos. Não queira mudar essas regras na empresa, pois elas continuam as mesmas."

Eles podem ser feios. Elas não
"Não são somente as roupas que interferem no que as pessoas pensam de você. Para as mulheres também contam a aparência, o peso e até o hálito. Os homens acham que todas as mulheres querem ser magras. Portanto, se você está acima do peso é porque não tem autocontrole, sua auto-estima é baixa. São problemas que, na opinião deles, podem interferir no seu trabalho."

 

Com reportagem de Rosana Zakabi

   
 
   
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