
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Seja em que posição se estiver na carreira, a presença
de filhos é um fator que pesa na permanência da mulher no
emprego. Ao contrário do que se poderia pensar, no caso de gravidez,
o que menos preocupa as mulheres é a perda do emprego. A legislação
brasileira garante a elas estabilidade por mais de um ano, entre a concepção
e o período de amamentação, e os patrões já
não discriminam as grávidas, como ocorria até os
anos 70. "Nessa época, casamento e gravidez eram motivo de demissão",
diz Sônia Correia, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais
e Econômicas (Ibase), no Rio de Janeiro. "A concepção
de que a mulher trabalha apenas antes de ter filhos começou a mudar
na década de 80 e se intensificou nos anos 90." Estima-se que 47%
das mulheres com filhos com até 2 anos trabalhem. Entre aquelas
com filhos maiores de 7 anos, 65% continuam no emprego. O que faz a diferença
é o tamanho da aspiração profissional da mulher.
Em nome da carreira, a paulista Vera Balhestero, administradora de empresas
de 39 anos, abdicou de uma vez por todas de constituir família.
"Quando decidi fazer carreira em empresas maiores, tornar-me uma alta
executiva, desmanchei um noivado e fui estudar nos Estados Unidos", conta.
"Estava seguindo o caminho oposto de minhas colegas, todas prestes a subir
no altar. Abri mão de tudo para chegar aonde queria." Vera, que
já ocupou altos cargos em empresas como o grupo Vicunha e a Mercedes-Benz,
hoje é consultora de uma grande companhia brasileira. Ela não
se arrepende. "Priorizei minha carreira e sou extremamente realizada com
isso. Prefiro fazer uma coisa bem-feita a duas mais ou menos."
Claudio Rossi
 |
|
|
Ousadia
e determinação
A
paulistana Raquel Siqueira diz que sempre assumiu riscos para atingir
seus objetivos. Há três anos, logo após ser
promovida a diretora de uma multinacional especializada em pesquisa
de mercado, ela decidiu largar tudo para fazer um curso de pós-graduação
na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. "Meu marido sempre
me apoiou e também pediu demissão do colégio
em que dava aulas para me acompanhar", diz ela. Raquel engravidou
e retornou a São Paulo com três meses de gestação.
Apesar da gravidez, foi recontratada para o mesmo cargo anterior
e com salário maior. A filha, Ana, nasceu em setembro de
2002. Durante a licença médica, Raquel coordenou sua
equipe de casa, por telefone.
Raquel Siqueira, de 30 anos
Ocupação:
diretora da Research International
Carga
diária de trabalho:
doze horas
Filho:
Ana, de 4 meses
|
Na
decisão sobre ser mãe ou executiva de sucesso pesa também
outro fator moderno: as mulheres não querem voltar para a rotina
do lar. A condição de dona-de-casa, que "esquenta a barriga
no fogão e esfria no tanque", não tem reconhecimento no
mundo de hoje. Um estudo americano mostra que as mulheres gostam de trabalhar
fora porque as recompensas no âmbito profissional são mais
palpáveis que as obtidas no ambiente doméstico. "Duas décadas
atrás, as mulheres iam trabalhar para ajudar nas despesas. Hoje,
ter sucesso fora de casa é uma realização pessoal,
e não apenas um apêndice econômico", explica Christina
de Paula Leite, professora da Fundação Getúlio Vargas
de São Paulo e autora de um livro sobre o assunto. "Cuidar das
crianças pode ser maravilhoso, mas não costuma ser algo
remunerado nem valorizado à altura." Das 51 mulheres de sucesso
entrevistadas durante a elaboração do livro, nenhuma admitia
a hipótese de deixar a profissão para ficar em casa. Todas
disseram ser impossível abandonar tudo o que o alto cargo envolve:
o respeito e a admiração de funcionários e colegas,
o poder de liderar, o ambiente de trabalho e as regalias de um bom salário
e benefícios.
Algumas mulheres que não abdicam de jeito nenhum de agregar família
a sucesso profissional começaram a encontrar soluções
intermediárias. Recentemente, nos Estados Unidos, detectou-se que
essa dificuldade de conciliar carreira e filhos as está levando
a abrir seu próprio negócio. Quando isso não é
possível, migram para companhias menores e mais flexíveis.
Uma pesquisa feita pela Korn/Ferry, a maior agência de headhunters
dos Estados Unidos, buscou analisar por que as profissionais de sucesso
em grandes corporações deixaram essas empresas para se arriscar
num empreendimento seu. Das 425 mulheres pesquisadas, 52% responderam
que o desejo de dispor de mais tempo para os filhos, a família
e os projetos pessoais foi o principal motivo para abandonar a carreira
promissora numa grande companhia. Questionadas sobre se estão felizes
com a nova ocupação, 77% disseram que sim, porque têm
mais tempo para a família. No Brasil, estima-se que a situação
esteja se repetindo. Segundo o estudo da Organização Mundial
do Trabalho, as mulheres são donas de 30% dos pequenos e micronegócios
brasileiros.
Selmy Yassuda
 |
Exigente, mesmo a distância
A baiana Ieda Correia Gomes é conhecida como "Senhora Energia"
em seu escritório, em Londres. Quando engravidou, estava
para subir os últimos degraus rumo à presidência
da Comgás, companhia de distribuição de gás
em São Paulo. "Morri de medo de ser despedida depois da licença",
diz ela. Para mostrar que a maternidade não afetara sua vida
profissional, continuou a trabalhar de doze a dezesseis horas por
dia e não faltava a jantares de negócios. Seu segredo
para criar o filho é estar presente, mesmo a distância.
"Se estou viajando, ligo para casa para saber se ele escovou os
dentes", conta. "O importante é ele saber que tem mãe,
que ela é exigente e gosta dele, como qualquer mãe
do mundo."
Ieda
Correia Gomes, de 46 anos
Ocupação:
vice-presidente
da British Petroleum
Carga
diária de trabalho:
doze a dezesseis horas
Filho:
Leon, de 15 anos
|
Uma
atenta jornalista da Business Week, revista americana especializada
em negócios, notou que a maioria dos homens mortos no ataque terrorista
ao World Trade Center, especialmente aqueles entre 30 e 40 anos e que
trabalhavam no mercado financeiro, deixou mulher e filhos. Suas colegas,
ao contrário, eram lembradas sobretudo por pais e amigos. A explicação
dessa dicotomia reside no seguinte fenômeno: nos Estados Unidos,
49% das mulheres com mais de 40 anos e carreira bem-sucedida não
têm filhos. Apenas 19% dos homens estão na mesma situação.
Os números são de uma pesquisa em escala nacional da economista
Sylvia Ann Hewlett, autora de um livro de grande repercussão, Creating
a Life: Professional Women and the Quest for Children (Criando uma
Vida: As Profissionais e a Busca por Crianças). Uma razão
para essas americanas não terem filhos é que também
não têm marido. Apenas 56% delas são casadas, em comparação
com 83% dos homens na mesma posição profissional.
A maioria dos especialistas acredita que as executivas brasileiras estão
mais propensas a enfrentar a dobradinha maternidade e trabalho. "As mulheres
em nosso país acham que a família e os filhos são
um ponto de apoio para o crescimento profissional", afirma o consultor
de empresas Julio Lobos, que ouviu 550 profissionais de 400 empresas para
tentar identificar o perfil da mulher de comando no Brasil. "Nos Estados
Unidos, elas são mais competitivas, não há licença-maternidade
nem existe uma estrutura de suporte, como empregadas domésticas,
para ajudar na criação dos filhos", diz ele. A paulistana
Eneida Bini, de 41 anos, presidente da filial brasileira da Avon, uma
das maiores empresas de cosméticos do mundo, conta que abraçou
"cada uma das oportunidades que surgiram na minha carreira". Mas isso
não a impediu de ficar grávida de César, hoje com
16 anos. "Tive muita sorte, pois a empresa oferecia um bom berçário,
de forma que consegui amamentar e ficar perto do meu bebê sem sair
do local de trabalho", lembra. Ela acredita que a maternidade é
fundamental para toda mulher e que é possível dedicar-se
à profissão sem sacrificar a vida pessoal. "A gente precisa
sempre gerenciar a carreira, a família e o filho ao mesmo tempo.
É uma questão de boa gestão", diz. Fiel a essas idéias,
no ano passado Eneida promoveu uma mulher grávida ao cargo de diretora.
A consulta feita por VEJA a 100 das 500 maiores empresas brasileiras encontrou
uma realidade um pouco mais incômoda: nessas companhias, apenas
52% das mulheres em cargo de diretoria, vice-presidência ou presidência
têm filhos. A maioria delas está acima dos 35 anos. Devido
à metodologia aplicada, não se trata de um levantamento
estatístico que possa ser aplicado como um retrato do Brasil. Mas
é um bom indicativo de que pode estar começando a se reproduzir
por aqui uma parte do fenômeno americano das mulheres que abdicam
da maternidade em nome da carreira. É possível que se esteja
falando de pessoas para as quais os filhos nunca foram prioridade. Sobre
isso, a economista Hewlett diz que a maioria das mulheres não escolheu
realmente não ter filhos. Quando ela pediu às executivas
que relembrassem seus planos no momento em que deixavam a faculdade, soube
que apenas 14% já tinham decidido que não queriam crianças.
Ficaram sem filhos simplesmente porque o trabalho ofereceu oportunidades
novas e envolventes, incluindo a possibilidade de definir sucesso em outros
reinos que não o da maternidade.
|
COMO
CONCILIAR CRIANÇAS E TRABALHO
Não
exclua a criança da vida profissional. Ela deve saber o que
você faz fora de casa e a importância da carreira para
sua realização pessoal
Acompanhe
os trabalhos escolares. Saber o que seu filho aprendeu na escola
e cobrar as lições demonstra seu interesse por ele
Não
relute em levar as crianças ao escritório, quando
possível. Elas se sentem integradas à sua vida profissional
e ficam orgulhosas de seu papel na empresa
Não
abandone a rotina dos filhos durante viagens de negócios.
Ligar duas vezes por dia, para saber se tomou banho e como andam
as aulas, é a melhor estratégia quando se está
distante
Por
mais que o trabalho consuma o dia inteiro, arrume uma brecha para
ir ocasionalmente a uma festa escolar ou reunião de pais
A
mulher que trabalha fora precisa da ajuda de pessoas para educar
a criança na sua ausência, sejam familiares, sejam
empregados de confiança
|
|
O
QUE UM HOMEM PODE FAZER NO
TRABALHO E A MULHER NÃO
Gail Evans é uma das executivas mais poderosas dos Estados
Unidos. Vice-presidente
da rede de televisão CNN, assistida por 1 bilhão de
pessoas em
212 países, ela tem três filhos e é avó
de quatro netos. Em seu livro Nos Negócios, Jogue como
Homem, Vença como Mulher, que esteve na lista dos mais
vendidos
do The New York Times por semanas, ela ensina o que uma mulher
deve
fazer para ascender profissionalmente. Veja alguns conselhos:
Eles podem chorar, elas não
"Os
homens podem chorar porque é inesperado e, se eles fazem
isso, é por uma excelente razão. As mulheres comumente
choram. Se elas choram, as pessoas acham que estão fazendo
isso por instinto, ou então para manipular os sentimentos
de quem as vê chorando."
Eles podem fazer sexo com as colegas. Elas não
"Culturalmente,
as pessoas não se incomodam em saber que um chefe tem um
caso com uma subordinada. Se ele termina o caso, também não
causa espanto. Se uma mulher mantém um relacionamento na
empresa, todos vão pensar que ela só progrediu por
causa do romance, mesmo que tenha talento."
Eles podem gritar. Elas não
"Estamos
acostumados a ver homens gritando e mostrando sua raiva publicamente.
Faz parte do comportamento masculino. Quando uma mulher grita, as
pessoas vêem
isso como fragilidade.
Acham-na despreparada para lidar com determinada situação."
Eles podem ser mal-educados. Elas não
"Desde
os tempos do colégio, os homens de sucesso são aqueles
de maus modos, que picham muros e matam aulas. Também desde
cedo as mulheres de sucesso são as dóceis, de bons
modos. Não queira mudar essas regras na empresa, pois elas
continuam as mesmas."
Eles podem ser feios. Elas não
"Não
são somente as roupas que interferem no que as pessoas pensam
de você. Para as mulheres também contam a aparência,
o peso e até o hálito. Os homens acham que todas as
mulheres querem ser magras. Portanto, se você está
acima do peso é porque não tem autocontrole, sua auto-estima
é baixa. São problemas que, na opinião deles,
podem interferir no seu trabalho."
|
Com
reportagem de Rosana Zakabi
|
|
 |
|
 |

|
 |