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Gastos bilionários,
risco exagerado
Tragédia
com o Columbia põe em
dúvida a sabedoria de enviar
astronautas para orbitar a Terra
Fotos AP, AFP e Reuters
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AS
VÍTIMAS
A
bordo da nave, o israelense Ilan Ramon tenta comer cereal na gravidade
zero (no
alto), a engenheira Kalpana Chawla revisa os planos de vôo
e a médica Laurel
Clark flutua em sua primeira viagem. No destaque, o
comandante Rick
Husband (com Ramon): eles souberam que algo estava errado
com a nave um minuto antes do desastre (foto maior)
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Veja também |
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Uma
espaçonave é a metáfora de grandes ambições
humanas: o desejo de conhecimentos científicos, a busca de outros
mundos que dêem à humanidade novas chances de felicidade,
a esperança de que, se espalhada pela universo, nossa espécie
conquistará a eternidade. Só que essa nave de sonhos é
a Enterprise do capitão Kirk em Jornada nas Estrelas,
aquela que escapa incólume de espantosas aventuras. A realidade
das pesquisas espaciais são vôos sem glamour, feitos rotineiramente
por americanos e russos. São realizações tecnologicamente
espetaculares. Mas, desde que o homem desceu na Lua, há 33 anos,
despertam escassa atenção exceto, infelizmente, quando
terminam em tragédia, como ocorreu com o ônibus espacial
Columbia na manhã de sábado 1º de fevereiro. Os sete
tripulantes da espaçonave permaneceram dezesseis dias em órbita
a 280 quilômetros de altitude, além dos limites da atmosfera
terrestre. Só se tornaram celebridades mundiais depois que o ônibus
espacial explodiu a 63 quilômetros de altitude, espalhando destroços
de metal e restos humanos por uma área de 1.200 quilômetros
quadrados em dois Estados americanos.
A causa da explosão, apenas dezesseis minutos antes do horário
previsto para o pouso em Cabo Canaveral, na Flórida, ainda é
um mistério. A reentrada na atmosfera é uma das operações
mais complexas do vôo espacial. Durante a descida, a parte inferior
da fuselagem do ônibus espacial precisa resistir ao calor gerado
pelo atrito com a atmosfera, que chega a atingir a temperatura de 1.650
graus. Foi durante a manobra de descida que o Columbia explodiu, o que
faz supor que o desastre tenha sido provocado por falhas no revestimento
térmico do casco. Na sexta-feira, a Nasa divulgou imagens tiradas
por uma câmera da Força Aérea americana pouco antes
de a nave explodir que mostravam uma possível avaria na asa esquerda.
Os tripulantes souberam da gravidade da situação um minuto
e meio antes da destruição, quando perderam a comunicação
com a Terra. A nave deve ter trepidado bastante durante esse tempo, com
o computador de bordo tentando amenizar o atrito com o ar nas áreas
mais aquecidas da fuselagem. "Eu fico imaginando o que se passou com meu
filho e os outros naquela nave durante esse tempo", diz Eliezer Wolferman,
pai de Ilan Ramon, astronauta israelense que morreu a bordo. "Nesses momentos,
um segundo é como vinte anos. Isso para mim é o inferno,
o inferno no céu." Piloto de combate e herói de guerra em
Israel, Ramon entrou como convidado no Columbia exatamente para que a
missão (a de número 28 do veículo construído
em 1981) despertasse maior interesse na opinião pública.
O que dá tom ainda mais sombrio à perda de vidas tão
talentosas é a sensação de inutilidade da própria
missão que os levou à morte. Com exceção de
estudos acerca dos efeitos da gravidade zero sobre o organismo humano,
as tarefas executadas nos ônibus espaciais, entre elas as oitenta
experiências científicas realizadas pela tripulação
do Columbia em sua última viagem, podem ser feitas por mecanismos
robotizados mais baratos, que não colocam em risco a vida humana.
Tudo o que o israelense Ramon fez a bordo foi apertar alguns botões.
Apesar disso, há mais de duas décadas o programa espacial
dos Estados Unidos é centrado nos vôos tripulados dos ônibus
espaciais. O desastre do Columbia incendeia o debate sobre a sabedoria
desse programa, que é tremendamente caro, muito perigoso e grande
demais para os fins a que se destina. As duas piores tragédias
espaciais foram exatamente com essas naves o Challenger, em 1986,
com a morte de sete tripulantes, e, agora, o Columbia. Dos cinco ônibus
espaciais construídos pela Nasa, a agência espacial americana,
restam três (Atlantis, Endeavour, Discovery). Quando foram projetados,
na década de 70, os veículos prometiam ser uma alternativa
segura e barata para colocar satélites em órbita. Com capacidade
de deslocar 25 toneladas, dez vezes mais que um foguete comum, poderiam
levar vários artefatos ao mesmo tempo. Havia ainda a vantagem de
ser reutilizáveis, como um avião. Já os foguetes
são veículos de uma única viagem, a de ida. A Nasa
previa 24 lançamentos anuais. A média atual é de
cinco.
Desde a explosão do Challenger, há dezessete anos, os ônibus
espaciais deixaram de ser usados como plataformas para o lançamento
de satélites. Cada vôo dessas espaçonaves custa meio
bilhão de dólares. Um foguete coloca um satélite
no espaço por apenas 50 milhões de dólares. Uma viagem
tripulada num foguete de grande porte, como o russo Soyuz, custa 60 milhões
de dólares. A Rússia, que chegou a construir um ônibus
espacial, o Buran, abandonou o projeto em 1993. Os russos preferem enviar
seus cosmonautas para a estação espacial em cápsulas
impulsionadas por foguetes. O sistema tem duas vantagens: custa barato
e o retorno, com a tripulação dentro de uma cápsula
presa a um pára-quedas, é mais simples que o do ônibus
espacial.
A Nasa sustenta que os vôos tripulados permitem que se conheçam
melhor os efeitos de viagens prolongadas no espaço. Para a maioria
das pessoas, é difícil engolir a explicação
de que o objetivo da pesquisa espacial é fazer mais pesquisa espacial.
Mesmo a Estação Espacial Internacional, um projeto acalentado
desde 1984 e que só deve ficar pronto em 2008, é duvidoso
no quesito utilidade. Até agora já foram gastos no projeto
35 bilhões de dólares. Nem os militares americanos estão
interessados em vôos tripulados. O Pentágono confia mais
em satélites espiões e nos mísseis teleguiados. A
própria Nasa tem obtido excelentes resultados com naves não-tripuladas,
que custam mais barato e não colocam em risco a vida humana. Mais
do que isso, podem viajar para lugares distantes e hostis, inacessíveis
aos astronautas. Na década passada, por exemplo, a Voyager 1 tirou
fotos espetaculares do sistema solar e a Mars Pathfinder pousou em Marte.
Por que os Estados Unidos continuam a gastar tanto num projeto de resultados
tão controversos? O jornalista americano Gregg Easterbrook, que
cinco anos antes do desastre da Challenger já alertava sobre a
falta de segurança de seus propulsores, diz que a resposta é
dinheiro. Em artigo na revista Time, ele afirma que no sistema
americano são as despesas que fazem o programa espacial politicamente
atraente. Aprovado na semana passada, o orçamento da Nasa para
o ano fiscal de 2004 prevê 6,2 bilhões de dólares
para o programa de vôos tripulados, dos quais 3,9 bilhões
serão para o ônibus espacial. O restante vai para a Estação
Espacial Internacional, que está sendo construída em parceria
com outros países. Essa verba estratosférica vai parar nas
mãos das empresas contratadas pela Nasa, entre elas gigantes como
a Boeing. É de olho nessa renda, que de alguma forma acaba chegando
a seus eleitores e patrocinadores nos Estados que representam, que muitos
deputados votam pela concessão de verbas bilionárias à
Nasa. A Columbia tinha passado por uma modernização geral,
que demorou dezessete meses e custou 90 milhões de dólares.
As reformas modernizaram equipamentos eletrônicos, mas não
mexeram nas características estruturais, como os foguetes obsoletos
e o problemático revestimento de placas refratárias que
pode ter provocado a destruição da nave. A velhice do ônibus
espacial pode ser medida pelo uso, até recentemente, em seus computadores
dos antiquados chips 8086, que deixaram de ser fabricados nos anos 80
e precisavam ser comprados no ferro-velho. Não é sem razão
que os vôos tripulados têm destino incerto.
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