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Edição 1 789 - 12 de fevereiro de 2003
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Gastos bilionários,
risco exagerado

Tragédia com o Columbia põe em
dúvida a sabedoria de enviar
astronautas para orbitar a Terra

Fotos AP, AFP e Reuters

AS VÍTIMAS
A bordo da nave, o israelense Ilan Ramon tenta comer cereal na gravidade zero (no alto), a engenheira Kalpana Chawla revisa os planos de vôo e a médica Laurel Clark flutua em sua primeira viagem. No destaque, o comandante Rick Husband (com Ramon): eles souberam que algo estava errado com a nave um minuto antes do desastre (foto maior)




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Uma espaçonave é a metáfora de grandes ambições humanas: o desejo de conhecimentos científicos, a busca de outros mundos que dêem à humanidade novas chances de felicidade, a esperança de que, se espalhada pela universo, nossa espécie conquistará a eternidade. Só que essa nave de sonhos é a Enterprise do capitão Kirk em Jornada nas Estrelas, aquela que escapa incólume de espantosas aventuras. A realidade das pesquisas espaciais são vôos sem glamour, feitos rotineiramente por americanos e russos. São realizações tecnologicamente espetaculares. Mas, desde que o homem desceu na Lua, há 33 anos, despertam escassa atenção – exceto, infelizmente, quando terminam em tragédia, como ocorreu com o ônibus espacial Columbia na manhã de sábado 1º de fevereiro. Os sete tripulantes da espaçonave permaneceram dezesseis dias em órbita a 280 quilômetros de altitude, além dos limites da atmosfera terrestre. Só se tornaram celebridades mundiais depois que o ônibus espacial explodiu a 63 quilômetros de altitude, espalhando destroços de metal e restos humanos por uma área de 1.200 quilômetros quadrados em dois Estados americanos.

A causa da explosão, apenas dezesseis minutos antes do horário previsto para o pouso em Cabo Canaveral, na Flórida, ainda é um mistério. A reentrada na atmosfera é uma das operações mais complexas do vôo espacial. Durante a descida, a parte inferior da fuselagem do ônibus espacial precisa resistir ao calor gerado pelo atrito com a atmosfera, que chega a atingir a temperatura de 1.650 graus. Foi durante a manobra de descida que o Columbia explodiu, o que faz supor que o desastre tenha sido provocado por falhas no revestimento térmico do casco. Na sexta-feira, a Nasa divulgou imagens tiradas por uma câmera da Força Aérea americana pouco antes de a nave explodir que mostravam uma possível avaria na asa esquerda. Os tripulantes souberam da gravidade da situação um minuto e meio antes da destruição, quando perderam a comunicação com a Terra. A nave deve ter trepidado bastante durante esse tempo, com o computador de bordo tentando amenizar o atrito com o ar nas áreas mais aquecidas da fuselagem. "Eu fico imaginando o que se passou com meu filho e os outros naquela nave durante esse tempo", diz Eliezer Wolferman, pai de Ilan Ramon, astronauta israelense que morreu a bordo. "Nesses momentos, um segundo é como vinte anos. Isso para mim é o inferno, o inferno no céu." Piloto de combate e herói de guerra em Israel, Ramon entrou como convidado no Columbia exatamente para que a missão (a de número 28 do veículo construído em 1981) despertasse maior interesse na opinião pública.

O que dá tom ainda mais sombrio à perda de vidas tão talentosas é a sensação de inutilidade da própria missão que os levou à morte. Com exceção de estudos acerca dos efeitos da gravidade zero sobre o organismo humano, as tarefas executadas nos ônibus espaciais, entre elas as oitenta experiências científicas realizadas pela tripulação do Columbia em sua última viagem, podem ser feitas por mecanismos robotizados mais baratos, que não colocam em risco a vida humana. Tudo o que o israelense Ramon fez a bordo foi apertar alguns botões. Apesar disso, há mais de duas décadas o programa espacial dos Estados Unidos é centrado nos vôos tripulados dos ônibus espaciais. O desastre do Columbia incendeia o debate sobre a sabedoria desse programa, que é tremendamente caro, muito perigoso e grande demais para os fins a que se destina. As duas piores tragédias espaciais foram exatamente com essas naves – o Challenger, em 1986, com a morte de sete tripulantes, e, agora, o Columbia. Dos cinco ônibus espaciais construídos pela Nasa, a agência espacial americana, restam três (Atlantis, Endeavour, Discovery). Quando foram projetados, na década de 70, os veículos prometiam ser uma alternativa segura e barata para colocar satélites em órbita. Com capacidade de deslocar 25 toneladas, dez vezes mais que um foguete comum, poderiam levar vários artefatos ao mesmo tempo. Havia ainda a vantagem de ser reutilizáveis, como um avião. Já os foguetes são veículos de uma única viagem, a de ida. A Nasa previa 24 lançamentos anuais. A média atual é de cinco.

Desde a explosão do Challenger, há dezessete anos, os ônibus espaciais deixaram de ser usados como plataformas para o lançamento de satélites. Cada vôo dessas espaçonaves custa meio bilhão de dólares. Um foguete coloca um satélite no espaço por apenas 50 milhões de dólares. Uma viagem tripulada num foguete de grande porte, como o russo Soyuz, custa 60 milhões de dólares. A Rússia, que chegou a construir um ônibus espacial, o Buran, abandonou o projeto em 1993. Os russos preferem enviar seus cosmonautas para a estação espacial em cápsulas impulsionadas por foguetes. O sistema tem duas vantagens: custa barato e o retorno, com a tripulação dentro de uma cápsula presa a um pára-quedas, é mais simples que o do ônibus espacial.

A Nasa sustenta que os vôos tripulados permitem que se conheçam melhor os efeitos de viagens prolongadas no espaço. Para a maioria das pessoas, é difícil engolir a explicação de que o objetivo da pesquisa espacial é fazer mais pesquisa espacial. Mesmo a Estação Espacial Internacional, um projeto acalentado desde 1984 e que só deve ficar pronto em 2008, é duvidoso no quesito utilidade. Até agora já foram gastos no projeto 35 bilhões de dólares. Nem os militares americanos estão interessados em vôos tripulados. O Pentágono confia mais em satélites espiões e nos mísseis teleguiados. A própria Nasa tem obtido excelentes resultados com naves não-tripuladas, que custam mais barato e não colocam em risco a vida humana. Mais do que isso, podem viajar para lugares distantes e hostis, inacessíveis aos astronautas. Na década passada, por exemplo, a Voyager 1 tirou fotos espetaculares do sistema solar e a Mars Pathfinder pousou em Marte.

Por que os Estados Unidos continuam a gastar tanto num projeto de resultados tão controversos? O jornalista americano Gregg Easterbrook, que cinco anos antes do desastre da Challenger já alertava sobre a falta de segurança de seus propulsores, diz que a resposta é dinheiro. Em artigo na revista Time, ele afirma que no sistema americano são as despesas que fazem o programa espacial politicamente atraente. Aprovado na semana passada, o orçamento da Nasa para o ano fiscal de 2004 prevê 6,2 bilhões de dólares para o programa de vôos tripulados, dos quais 3,9 bilhões serão para o ônibus espacial. O restante vai para a Estação Espacial Internacional, que está sendo construída em parceria com outros países. Essa verba estratosférica vai parar nas mãos das empresas contratadas pela Nasa, entre elas gigantes como a Boeing. É de olho nessa renda, que de alguma forma acaba chegando a seus eleitores e patrocinadores nos Estados que representam, que muitos deputados votam pela concessão de verbas bilionárias à Nasa. A Columbia tinha passado por uma modernização geral, que demorou dezessete meses e custou 90 milhões de dólares. As reformas modernizaram equipamentos eletrônicos, mas não mexeram nas características estruturais, como os foguetes obsoletos e o problemático revestimento de placas refratárias que pode ter provocado a destruição da nave. A velhice do ônibus espacial pode ser medida pelo uso, até recentemente, em seus computadores dos antiquados chips 8086, que deixaram de ser fabricados nos anos 80 e precisavam ser comprados no ferro-velho. Não é sem razão que os vôos tripulados têm destino incerto.

 
 
   
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