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Ao
vencedor, o
petróleo
É
preciso muito dinheiro e bastante
tempo para alcançar o tesouro
no subsolo do Iraque

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Quanto
mais os Estados Unidos chegam perto da guerra, mais aumenta o cordão
de críticos apontando a sede de petróleo do presidente George
W. Bush como sua principal razão para mandar bombas e exércitos
para cima do Iraque de Saddam Hussein. Trata-se de uma teoria reforçada
por diversas obviedades. Um exemplo: 65% das reservas mundiais de petróleo
estão na região do Golfo Pérsico. Outro: vários
integrantes do alto escalão da Casa Branca, Bush entre eles, trabalharam
na indústria petrolífera do Texas. Mais um: subjugado pelos
EUA, o Iraque poderia sair da Opep, o cartel dos países exportadores
que define os altos preços do petróleo. Somando tudo: qualquer
regime pós-Saddam seria marionete do governo americano e faria
jorrar petróleo bom e barato para os estoques americanos.
Tudo isso faz sentido, mas a conta não fecha porque os custos e
as conseqüências de uma guerra são muito maiores que
os lucros imediatos que a "libertação" do petróleo
poderia proporcionar. A revista inglesa The Economist já
demonstrou que, para chegar às reservas do subsolo iraquiano, será
preciso bem mais do que derrotar Saddam militarmente. A indústria
petrolífera do Iraque está sucateada. Para recuperá-la,
seriam necessários uma década e investimentos de 40 bilhões
de dólares. A interrupção na produção
decorrente dos bombardeios se estenderia, em alguns casos, por um ano
e meio além da rendição. Só então se
retomariam os níveis atuais de exploração. Logo,
a curto prazo, a guerra representa petróleo mais caro e ainda mais
poder para a Opep.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse ao jornal O Estado
de S. Paulo que relaciona a guerra mais à ameaça do
terrorismo sentida pelos Estados Unidos do que a questões econômicas.
"O petróleo não é causa da guerra, mas sim conseqüência",
declarou Fernando Henrique. Por esse raciocínio, ao se livrar de
um ditador sanguinário que produziu e usou armas químicas
em um passado recente, despistou inspetores da ONU e, sim, pode entregar
armas de destruição em massa a grupos terroristas ,
a conseqüência seria a abertura da segunda maior reserva de
petróleo do planeta. Há 113 bilhões de barris de
petróleo em solo iraquiano, 11% das reservas conhecidas. Estudos
indicam que outros 220 bilhões de barris podem ser encontrados
no país de Saddam. Diante desse patrimônio, o Iraque é
um produtor modesto, extraindo 2,4 milhões de barris diários.
Antes da invasão do Kuwait, o ditador iraquiano falava em chegar
a 6 milhões de barris por dia. Alcançar essa expansão
exigiria investimentos pesadíssimos e que dificilmente teriam compensação
rápida. Hoje, os EUA devoram 20 milhões de barris diários
e um terço do que o Iraque exporta já segue para portos
americanos. Bagdá não tem condições financeiras
para recuperar sua indústria petrolífera. Por isso, cerca
de um ano atrás, Saddam assinou pré-contratos de exploração
de petróleo com empresas chinesas, francesas e russas não
por acaso sediadas em potências com direito a veto no Conselho de
Segurança da ONU. Em função do embargo ao Iraque,
esses contratos não podem ser colocados em prática.
O cenário pode ficar ainda pior se Saddam, num gesto final, bombardear
seus próprios poços de exploração, como fez
no Kuwait em 1991. Só os incêndios provocados por aquele
golpe queimaram 2 bilhões de dólares em recursos gastos
ao longo de oito meses para apagar o fogo. "Se os poços forem danificados,
a produção será afetada por pelo menos três
anos", afirma o professor Stephen Zunes, da Universidade de São
Francisco, um especialista em Oriente Médio. E essa pode ser a
parte menor da fatura, uma vez que a guerra levaria qualquer novo governo
a apresentar uma lista enorme de reivindicações aos americanos.
O país precisará de alimentos para milhões de famintos
e terá de reconstruir sua infra-estrutura, sem esquecer dívidas
que já passam de 100 bilhões de dólares. Na guerra,
não é incomum que os vencedores paguem a conta. Mesmo para
o Brasil, que compra do Iraque só a décima parte do petróleo
que importa, haveria algum abalo em decorrência de uma guerra. O
Brasil traz de fora 18% do petróleo que consome na Guerra
do Golfo, doze anos atrás, eram 46%. Reduziu seu risco, mas tem
motivos de sobra para preferir uma solução negociada.
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