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Edição 1 789 - 12 de fevereiro de 2003
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Ao vencedor, o petróleo

É preciso muito dinheiro e bastante
tempo para alcançar o tesouro
no subsolo do Iraque


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Nesta edição
Bush diz que o jogo acabou
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Especial EUA contra Iraque

Quanto mais os Estados Unidos chegam perto da guerra, mais aumenta o cordão de críticos apontando a sede de petróleo do presidente George W. Bush como sua principal razão para mandar bombas e exércitos para cima do Iraque de Saddam Hussein. Trata-se de uma teoria reforçada por diversas obviedades. Um exemplo: 65% das reservas mundiais de petróleo estão na região do Golfo Pérsico. Outro: vários integrantes do alto escalão da Casa Branca, Bush entre eles, trabalharam na indústria petrolífera do Texas. Mais um: subjugado pelos EUA, o Iraque poderia sair da Opep, o cartel dos países exportadores que define os altos preços do petróleo. Somando tudo: qualquer regime pós-Saddam seria marionete do governo americano e faria jorrar petróleo bom e barato para os estoques americanos.

Tudo isso faz sentido, mas a conta não fecha porque os custos e as conseqüências de uma guerra são muito maiores que os lucros imediatos que a "libertação" do petróleo poderia proporcionar. A revista inglesa The Economist já demonstrou que, para chegar às reservas do subsolo iraquiano, será preciso bem mais do que derrotar Saddam militarmente. A indústria petrolífera do Iraque está sucateada. Para recuperá-la, seriam necessários uma década e investimentos de 40 bilhões de dólares. A interrupção na produção decorrente dos bombardeios se estenderia, em alguns casos, por um ano e meio além da rendição. Só então se retomariam os níveis atuais de exploração. Logo, a curto prazo, a guerra representa petróleo mais caro e ainda mais poder para a Opep.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse ao jornal O Estado de S. Paulo que relaciona a guerra mais à ameaça do terrorismo sentida pelos Estados Unidos do que a questões econômicas. "O petróleo não é causa da guerra, mas sim conseqüência", declarou Fernando Henrique. Por esse raciocínio, ao se livrar de um ditador sanguinário – que produziu e usou armas químicas em um passado recente, despistou inspetores da ONU e, sim, pode entregar armas de destruição em massa a grupos terroristas –, a conseqüência seria a abertura da segunda maior reserva de petróleo do planeta. Há 113 bilhões de barris de petróleo em solo iraquiano, 11% das reservas conhecidas. Estudos indicam que outros 220 bilhões de barris podem ser encontrados no país de Saddam. Diante desse patrimônio, o Iraque é um produtor modesto, extraindo 2,4 milhões de barris diários. Antes da invasão do Kuwait, o ditador iraquiano falava em chegar a 6 milhões de barris por dia. Alcançar essa expansão exigiria investimentos pesadíssimos e que dificilmente teriam compensação rápida. Hoje, os EUA devoram 20 milhões de barris diários e um terço do que o Iraque exporta já segue para portos americanos. Bagdá não tem condições financeiras para recuperar sua indústria petrolífera. Por isso, cerca de um ano atrás, Saddam assinou pré-contratos de exploração de petróleo com empresas chinesas, francesas e russas – não por acaso sediadas em potências com direito a veto no Conselho de Segurança da ONU. Em função do embargo ao Iraque, esses contratos não podem ser colocados em prática.

O cenário pode ficar ainda pior se Saddam, num gesto final, bombardear seus próprios poços de exploração, como fez no Kuwait em 1991. Só os incêndios provocados por aquele golpe queimaram 2 bilhões de dólares em recursos gastos ao longo de oito meses para apagar o fogo. "Se os poços forem danificados, a produção será afetada por pelo menos três anos", afirma o professor Stephen Zunes, da Universidade de São Francisco, um especialista em Oriente Médio. E essa pode ser a parte menor da fatura, uma vez que a guerra levaria qualquer novo governo a apresentar uma lista enorme de reivindicações aos americanos. O país precisará de alimentos para milhões de famintos e terá de reconstruir sua infra-estrutura, sem esquecer dívidas que já passam de 100 bilhões de dólares. Na guerra, não é incomum que os vencedores paguem a conta. Mesmo para o Brasil, que compra do Iraque só a décima parte do petróleo que importa, haveria algum abalo em decorrência de uma guerra. O Brasil traz de fora 18% do petróleo que consome – na Guerra do Golfo, doze anos atrás, eram 46%. Reduziu seu risco, mas tem motivos de sobra para preferir uma solução negociada.

 
 








   
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