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Anatomia
do rolo compressor
A
crise aberta pelas críticas dos
radicais à
cúpula do PT revela os
mecanismos internos de poder
do partido de Lula
Montagem com fotos de Mario Rodrigues, Raul Junior,
Antonio Milena, Mila Petrllo e Roberto Castro/AE
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| Genoíno,
Palocci e José Dirceu: a direção do PT sempre soube como neutralizar
os radicais |
O
deputado Babá e a senadora Heloísa Helena: ela nunca escondeu
suas críticas |
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Veja também |
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Os
brasileiros estão assistindo a uma das mais sutis mudanças
políticas das últimas décadas. Desde que o país
se redemocratizou, nos anos 80, a opinião pública acompanha
lutas internas dos partidos tradicionais em que os políticos disputam
postos de liderança e cargos no governo. A batalha agora tem natureza
totalmente diversa. Mesmo os adversários reconhecem que o PT seja
talvez o único partido político que mereça esse nome
no país. Os petistas discutem e votam cada passo a ser dado. E,
uma vez tomada a decisão, a minoria derrotada cumpre o que a maioria
votou. Por isso o atual conflito que envolve a cúpula do governo
e os deputados da ala radical do PT desperta tanta atenção.
Essa disputa está sendo travada diante de câmeras e microfones.
Pela primeira vez, o mecanismo interno de decisões no partido
e, mais que isso, de luta pelo poder dentro da sigla pode ser acompanhado
sob a luz dos holofotes, como um organismo submetido a uma autópsia.
Os descontentes são uma minoria, mas o fenômeno que protagonizam
é muito mais profundo e intenso do que simplesmente os votos contra
o governo que eles podem vir a representar no Congresso Nacional. A briga
agora tem razões ideológicas e programáticas. Os
radicais discordam da política econômica de Lula, que consideram
uma rendição humilhante ao modelo de Fernando Henrique Cardoso,
combatido pelo PT durante os últimos oito anos. A manutenção
da estabilidade econômica, reafirmada em todas as ações
dos ministros da área econômica de Lula, é parte do
fenômeno de perplexidade vocalizado pelos radicais. O PT no governo
está fazendo exatamente o que seu candidato pregou nas fases finais
da campanha. Isso deixou perplexos os radicais do partido.
As divergências ideológicas entre moderados e radicais no
PT se acirraram desde meados dos anos 90, quando Lula e o hoje ministro
da Casa Civil, José Dirceu, tomaram a direção do
Partido dos Trabalhadores. Mas pouca gente, fora dos circuitos político
e acadêmico, prestou atenção a essas discussões.
Chegou o momento, no entanto, em que as diferenças não podem
mais ser contidas no interior da máquina petista. Lula e seus principais
mosqueteiros conquistaram as alavancas do Brasil. E é nessas alavancas
que os radicais querem também colocar alguns dedos.
Os radicais não se saem bem quando se examinam as prováveis
razões pelas quais eles passaram a campanha sem questionar o posicionamento
de centro do candidato Lula. De duas, uma. Ou os radicais se converteram
durante a campanha pela pregação de centro da cúpula
do PT e agora não têm razão para reclamar do
"neoliberalismo" do governo , ou só ficaram calados naquela
fase porque não queriam atrapalhar a eleição, esperando
que ele traísse o eleitorado mais tarde. "A questão é
que, se discrepância havia, ela já existia durante a campanha,
e, lá, à exceção da voz da senadora Heloísa
Helena, contrária à aliança com o PL, não
se ouviu o som da contestação", escreveu a jornalista Dora
Kramer em sua coluna nos jornais O Estado de S.Paulo e Jornal
do Brasil.
A história dos partidos de esquerda que chegaram ao poder no mundo
pelo voto mostra que rachas, defecções e cismas tendem a
acompanhar o governo como um carma. Foi assim com Tony Blair na Inglaterra.
Anos antes, quando o partido socialista espanhol ganhou as eleições
na Espanha, a esquerda marxista teve de ser disciplinada duramente pelo
primeiro-ministro Felipe González. Da mesma forma que os moderados
sob o comando de Lula e José Dirceu fizeram no Brasil, González
empreendeu sua própria reeducação e da cúpula
do partido antes de se apresentar ao eleitorado com uma roupagem ideológica
social-democrata. Uma vez vencidas as eleições, os desentendimentos
dos militantes continuaram na Espanha de Felipe González e vão
continuar no Brasil de Lula. "A visão da cúpula do PT só
vai chegar à base à custa de muita tensão e crises",
diz o cientista social Sérgio Abranches.
Jefferson Bernardes/AE
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| Lula
em campanha: promessas de estabilidade na economia |
A
perplexidade e uma certa desorientação com os lances recentes
da política brasileira não são obra apenas da súbita
indignação dos radicais. À primeira vista, a sensação
é a de que o centro nervoso do poder está em assembléia
permanente. "As pessoas não familiarizadas com o PT estranham,
mas é assim mesmo que nós resolvemos nossos problemas. Essa
é a nossa força", diz o presidente do PT, José Genoíno.
Para a opinião pública, fica a impressão de que o
governo não consegue se articular nem mesmo dentro do próprio
partido que lhe dá sustentação, já que a fatia
dos insatisfeitos, equivalente a um terço dos integrantes da sigla,
tem peso numérico considerável.
A atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
em seu primeiro mês de governo também colocou para os brasileiros
um padrão novo de pilotagem do poder. Lula tem agido como um mediador
de conflitos nos bastidores, e suas intervenções públicas,
bastante bem-sucedidas tanto no Brasil quanto no exterior, ressaltam mais
seu papel de chefe de Estado que de chefe de governo. O Poder Executivo
parece ser exercido por um colegiado que toca de ouvido e periodicamente
acerta os ponteiros com o presidente Lula. O PT sempre funcionou assim
antes de chegar ao governo. É um cacoete dos partidos de organização
leninista, que se orgulham de praticar o "centralismo democrático."
No caso do PT, graças à posição inatacável
de Lula, o sistema foi sempre mais centralista do que democrático.
O PT, na verdade, sempre foi "lulocrático".
Criado por sindicalistas, integrantes da esquerda católica e intelectuais
desiludidos com o Partido Comunista, o PT conferiu a seus militantes uma
aura de modernidade. Ser petista sempre foi mais avançado que ser
do PCB ou do PC do B. Ao contrário dos partidos que seguiam a linha
de Moscou ou de Pequim e, acredite-se, até de Tirana, capital
da Albânia , os petistas sempre se enxergaram como desbravadores,
como experimentadores de uma nova concepção de esquerda
valorizada pelo fracasso retumbante da União Soviética e
alimentada pela incapacidade do "capitalismo periférico" de diminuir
a pobreza. A receita de como chegar lá, chancelada oficialmente
nos documentos do PT e resumida no famoso documento intitulado "A Ruptura
Necessária", era fazer tudo diferente do que fazia Fernando Henrique
Cardoso especialmente no campo econômico. O PT só
aceitou oficialmente os fundamentos da política econômica
praticada por FHC e Pedro Malan poucos meses antes das eleições.
Isso foi comunicado ao partido e aos eleitores pela "Carta ao Povo Brasileiro",
em que Lula reconhecia que a estabilidade não era um dogma importado
dos Estados Unidos, mas uma conquista de toda a sociedade brasileira.
Essa mudança foi aceita pela maioria do eleitorado e foi ela que,
em última análise, levou Lula ao Planalto. Nada mais democrático,
portanto, que ele norteie seu governo por essa bússola.
A liderança petista disse que vai aplicar o estatuto do partido,
pelo qual os descontentes que votarem contra a direção partidária
poderão ser expulsos da agremiação. O ministro da
Fazenda, Antônio Palocci, sustenta que os radicais deveriam saber
que a cúpula do PT não estava iludindo os brasileiros ao
concorrer com um programa de estabilidade econômica. Foi essa pregação
que, finalmente, depois de três tentativas tirou Lula de seu patamar
histórico de 30% dos votos oposicionistas e deu-lhe a vitória
contra o candidato do governo em outubro passado. "Nós fizemos
um programa para governar, e não para ganhar a eleição",
diz Palocci, que na sexta-feira passada anunciou uma nova meta de superávit
primário, da ordem de 4,25% do PIB. Um recorde de economia que
supera todo o esforço fiscal do governo FHC e vai ser mais um motivo
de irritação dos radicais. A briga continuará por
algum tempo.
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