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Edição 1 789 - 12 de fevereiro de 2003
Diogo Mainardi

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Comi num restaurante popular

"Uma hora e meia de fila debaixo do sol.
Temperatura de 38 graus. Cheiro forte
de urina.
O feijão estava sem sal. O frango,
muito gostoso. Paguei
1 real. Custa barato
para o Estado e rende um montão de votos"

Para afastar os mendigos, aviso que esmola, agora, só mediante nota fiscal, como quer o governo. Não que eu tenha algo contra os mendigos que pedem esmolas para comprar cachaça. Tem um mendigo alcoólatra muito engraçado perto de casa, chamado Serginho. Ele puxa briga o tempo todo. Outro dia estava brigando com uma árvore.

Os técnicos do governo querem impedir que os mendigos do sertão do Piauí usem a esmola do Fome Zero para comprar, além de cachaça, iogurte. Enquanto isso, os técnicos do zoológico do Rio de Janeiro combatem os riscos de desidratação do sertão carioca dando dois potes diários de iogurte ao chimpanzé "Paulinho" e a seus companheiros orangotangos.

Lula não é o primeiro presidente a distribuir esmolas aos pobres. Sarney tinha o PNLCC, ou Programa Nacional de Leite para Crianças Carentes. Collor lançou os agentes comunitários de saúde. Itamar criou o Programa Comunidade Solidária e o Consea. Fernando Henrique foi de Bolsa-Escola, Bolsa-Alimentação e outros congêneres. Até políticos de mais baixo escalão podem vangloriar-se de ter combatido a miséria. Pinheiro Landim, por exemplo, entrou para os anais do Congresso como autor de beneméritas emendas no orçamento para financiar projetos de irrigação no semi-árido do Ceará, sobretudo em sua cidade natal, Solonópole.

Os governos estaduais e municipais também têm seus programas contra a fome. A mais célebre invenção de Anthony Garotinho foi a dos restaurantes populares. Terça-feira passada almocei num deles, o restaurante Betinho, na Central do Brasil. Cheguei às 12h08. Fui servido às 13h45. Uma hora e meia de fila, debaixo do sol. Temperatura de 38 graus. Cheiro forte de urina. Ambulantes vendendo picolés da marca Dragão Chinês (30 centavos), refrescos de limão Point (25) e bananada caseira (20). Ao lado da fila, passavam os ônibus da companhia Limousine Carioca, que, a despeito do nome pomposo, são barulhentos e fumegantes. Um espertalhão atrás de mim fingiu-se acompanhante de um cego e passou na frente de todo mundo. O caminhonista que me precedia, depois de uma hora de espera, mostrou-me o joelho inchado, cheio de água. Comi arroz, feijão, frango com grão-de-bico e gelatina de laranja. Tomei um copo de tubaína. O feijão estava sem sal. O frango, muito gostoso. Como os outros comensais, paguei apenas 1 real. Custa barato para o Estado e rende um montão de votos. Distribuir esmolas é bom por causa disso.

Terminado o almoço, visitei o mercado da Central do Brasil. Em homenagem a Garotinho e consorte, que me subsidiaram a refeição, fui à loja Cantinho Evangélico e comprei, por 9,99 reais, o jogo As Incríveis Viagens de Paulo, da Petecolor Brinquedos, baseado na vida do apóstolo homônimo. Fiquei a tarde inteira jogando. Os dados estavam contra mim. Logo no segundo lance, caí na casa "Apedrejamento de Estevão" (Volte para o início). Depois, caí na casa "Elimas tornou-se cego" (Perca uma jogada). Depois, "Paulo e Silas aprisionados em Filipos" (Volte seis casas). Depois, "Paulo sofre naufrágio" (Perca uma jogada). Por fim, tirei a carta "Paulo é degolado". Fui eliminado do jogo.

 
 
   
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