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"Respeite
o paciente"
Médico americano
que sobreviveu
ao câncer diz por que agora
vê os
pacientes com outros olhos
Rosana Zakabi
Aos 40 anos, o médico americano Geoffrey Kurland, diretor da divisão
de pneumologia pediátrica do Hospital de Pittsburgh, nos Estados
Unidos, descobriu que tinha tricoleucemia, um tipo raro de leucemia. Na
época, suas chances de sobreviver eram de 40%. Kurland, que sempre
tratou crianças com doenças terminais, viu seu mundo desabar.
Pela primeira vez trocava de lugar com elas. Quando teve de se submeter
aos mesmos procedimentos médicos que recomendava a seus pacientes,
Kurland reavaliou o relacionamento que mantinha com eles. "Vi que estive
errado durante todos esses anos", diz. No auge da doença, concordou
em participar de um projeto experimental que testaria uma nova droga.
"Não tinha nada a perder", afirma ele. O tumor começou a
regredir, e aos poucos Kurland retomou as atividades normais, entre elas
a participação em maratonas. Está curado há
doze anos. Sua experiência com o câncer resultou no livro
My Own Medicine (Meu Próprio Remédio, em inglês),
lançado recentemente nos Estados Unidos. Casado e sem filhos,
Kurland, hoje com 55 anos, vive em Pittsburgh. De lá, concedeu
a seguinte entrevista a VEJA:
Veja Em seu livro, o senhor diz que, depois da leucemia,
reavaliou a relação com os pacientes. O que isso significa?
Kurland
Nós,
médicos, tentamos curar a todo custo e aliviar a dor causada pelas
diversas terapias, mas às vezes não conseguimos. Sempre
procurei ser o melhor médico para meus pacientes, mesmo antes da
leucemia, mas tenho de admitir que, depois dessa dura experiência,
comecei a prestar mais atenção ao que eles têm a dizer
sobre seus medos e suas ansiedades, algo que antes não fazia. Hoje
posso dizer a meus pacientes que já passei por muitos dos tratamentos
aos quais eles precisam ser submetidos. Isso os conforta e lhes dá
mais segurança.
Veja O senhor tem agora uma visão diferente dos pacientes?
Kurland
Acho que hoje posso entendê-los melhor. Veja bem, eu não
sei exatamente como eles se sentem, assim como meus médicos também
não podiam saber exatamente como eu me sentia após minhas
cirurgias e sessões de quimioterapia. Mas posso compreender suas
preocupações quando eles têm de se submeter a procedimentos
médicos, quando descobrem que terão de ser hospitalizados,
quando precisam esperar pelo médico no leito do hospital.
Veja O senhor tornou-se um médico melhor depois da
doença?
Kurland
Acredito
que já era um bom profissional antes de desenvolver a leucemia,
mas muita coisa mudou. Hoje tento ajustar minha agenda a fim de diminuir
o tempo que meus pacientes passam na sala de espera aguardando para ser
atendidos. Senti na pele o que é ficar esperando pelos médicos,
por exames e resultados. Antes eu não me importava tanto com isso.
Não tinha noção de quanto essa espera era incômoda.
Veja O senhor acha que os médicos tratam os pacientes
com excessiva superioridade?
Kurland
Não
existe profissional perfeito, que saiba tudo e não tenha mais nada
a aprender. Por isso, o médico deve sempre reavaliar seu trabalho
para melhorar cada vez mais. Muitos profissionais agem como se fossem
super-heróis, quando na verdade são apenas humanos. Durante
minha doença, percebi que não tinha todas as respostas,
e no início foi muito frustrante. Com o passar do tempo, vi que
não tinha por que me frustrar, já que ninguém é
perfeito, nem eu.
Veja Quais são as principais falhas na relação
entre médico e paciente?
Kurland
Muitos
médicos, sem se preocupar se serão entendidos ou não,
usam palavras inadequadas, ou seja, fazem discursos técnicos lotados
de informações incompreensíveis para uma pessoa que
não é de sua área. Eles tendem a economizar tempo
com os pacientes e não têm paciência para explicar
a doença de outra maneira. É uma forma totalmente errada
de lidar com o paciente e seus familiares. Se você quer explicar
o que é determinada doença, quais são as chances
de cura, os tratamentos e os medicamentos adequados, é preciso
gastar tempo, e muitos profissionais não estão dispostos
a isso. É preciso respeitar o paciente.
Veja Os médicos costumam ignorar os sentimentos dos
pacientes?
Kurland
Sim, muitos médicos não reconhecem o que o paciente está
sentindo, seja porque não são capazes de entender os sentimentos,
seja porque simplesmente não têm tempo para isso.
Veja Antes de ficar doente, o senhor não ouvia seus
pacientes com a atenção devida?
Kurland
Eu
não ignorava os sentimentos de meus pacientes, mas também
não conseguia entendê-los bem. Algumas vezes, eu realmente
estava muito atarefado para ouvir o que eles tinham a dizer.
Veja Como corrigir essas falhas?
Kurland
Ao atender determinado paciente, faço a seguinte pergunta a mim
mesmo: "Que palavras devo usar para que ele e sua família entendam
o que estou tentando dizer?". Quando começo a explicar, paro e
indago: "Vocês entenderam?". Se dizem que sim, pergunto novamente:
"Então, expliquem-me o que acabei de falar". É aí
que consigo descobrir quanto eles captaram do assunto. Se percebo que
não entenderam, tento mudar o discurso e explico tudo de novo,
com outras palavras. Aprendi com minha própria experiência
que, se o rosto do paciente ou o de seus familiares não muda enquanto
você fala, é porque eles não estão compreendendo
nada. Isso consome bastante tempo, é algo muito difícil
de fazer, mas é o correto.
Veja Qual é o segredo para lidar com uma doença
terminal?
Kurland
É preciso estar com a cabeça em ordem. Se não controlamos
o lado emocional, a parte física desaba. Não existe uma
única lição para conseguir isso. O importante é
que a estabilidade emocional deve ser sempre colocada como prioridade
em qualquer situação. Durante todo o tempo eu tive a idéia
fixa de que iria melhorar, fazia de tudo para manter pensamentos positivos.
Ficava tentando encontrar maneiras de recuperar minha saúde, lia
um livro atrás do outro. Procurava fazer aquilo de que mais gostava
dentro de minhas possibilidades. Ouvia muita música e tocava violão.
Veja Nesse período, o senhor se arrependeu de algo que
fez ou deixou de fazer no passado?
Kurland
Eu não pensava muito a respeito do meu passado, até evitava
refletir sobre o que havia conseguido realizar ou deveria ter realizado,
mesmo quando estava muito doente. Eu tentava continuar com a cabeça
no presente e elaborar planos para o futuro, pensando no que poderia fazer
amanhã, depois de amanhã. Alguém pode dizer que isso
foi uma espécie de fuga, uma forma de falar comigo mesmo: "Não,
você não vai morrer". Pode ser verdade. Para mim, foi um
jeito eficiente de manter a situação sob controle.
Veja Qual foi a sensação de saber que o tumor
estava regredindo?
Kurland
Lembro-me perfeitamente do dia em que fui informado disso. Estava sentado
no chão da casa de um amigo na Califórnia e recebi a notícia
dos médicos como um presente. Passei a considerar cada dia de recuperação
como uma dádiva, e minha única preocupação
era como aproveitar esses dias, como viver minha vida. Eu não sabia
por quanto tempo o tumor continuaria regredindo. Por isso, cada minuto
era precioso. Naquele momento, tive a certeza de que, por mais difícil
que fosse, estava valendo a pena lutar contra a doença.
Veja Por que o senhor foi voluntário numa experiência
com uma droga de resultados incertos?
Kurland
Quando descobri a doença, em 1987, as chances que eu tinha de sobreviver
eram de 40%. Já me submetia a sessões de quimioterapia,
mas no meio do tratamento aceitei participar de um projeto médico
com uma droga chamada Pentostatina, que ainda era inédita naquela
época. Ou seja, acabei fazendo parte de uma experiência científica
que iria testar se o novo medicamento funcionava. Diante das circunstâncias
e das possibilidades de obter a cura da doença, decidi que não
teria nada a perder.
Veja O senhor chegou a pensar que poderia morrer?
Kurland
Sim, durante as sessões de quimioterapia, em 1988, a fase mais
difícil da doença. Eu tinha febre, transpiração
constante e tremedeiras e vivia hospitalizado, passando por dezenas de
exames e procedimentos cirúrgicos. A maioria dos meus testes dava
negativo, mas as febres noturnas continuavam. Eu percebia a frustração
dos meus médicos e ficava cada dia mais deprimido. Sentia-me fraco,
e nesse período perdi muito peso. Não queria receber visitas,
pensava em me esconder até me recuperar totalmente ou até
a morte chegar. Dizia para mim mesmo que essa devia ser uma forma de morrer
lentamente. Eu também sentia pena dos meus médicos, que
trabalhavam arduamente para desvendar o que havia de errado comigo. Mais
tarde, descobriram que se tratava de tuberculose. A doença apareceu
porque minha imunidade foi afetada pela leucemia e pela quimioterapia.
Veja Pode-se dizer que hoje o senhor está curado da
leucemia?
Kurland
O tumor começou a regredir em 1989, e minha recuperação
não parou desde então. Segundo os médicos, se em
cinco anos a doença não se manifestar é sinal de
que você está curado. No entanto, tenho lido artigos recentes
na literatura médica afirmando que alguns pacientes voltaram a
ter tricoleucemia depois de dez anos. Apesar de estar bem hoje, não
há como deixar de me preocupar com esse tipo de notícia.
Veja O senhor tem medo de que a doença volte?
Kurland
Eu realmente penso sempre sobre a leucemia, mas não é algo
que fica atormentando minha mente. Nunca pude me livrar das recordações
deixadas pela doença e, no fundo, nem quis isso. Toda vez que pego
gripe, tenho tosse ou febre, pergunto a mim mesmo se é a leucemia
voltando. Então, paro e penso: "Bom, estou saudável. Portanto,
minha tosse certamente é temporária".
Veja O que as pessoas podem aprender com a sua experiência?
Kurland
Meu objetivo, ao escrever o livro, não foi criar um guia de como
sobreviver à leucemia, e sim expor minha experiência pessoal
e a luta contra uma doença devastadora. Apesar de falar sobre câncer,
o livro também traz lições de vida para pessoas que
não tiveram a doença. Cada um de nós pode escolher
como viver a vida, independentemente dos obstáculos e imprevistos
que surjam no caminho. Se as pessoas conseguirem perceber essa idéia
por meio de minha experiência e tirarem proveito disso, com certeza
terei feito um bom trabalho.
Veja A experiência de ter sido vítima de uma
doença terminal e de ter se recuperado mudou o relacionamento com
sua família?
Kurland
Meus pais foram as pessoas que mais estiveram comigo durante a doença.
A relação com eles, especialmente com minha mãe,
tornou-se muito mais próxima depois dessa experiência. Mas
minha vida afetiva, ao contrário, ficou bastante complicada. Acabei
me separando da mulher com quem vivia. Ela continuou na Califórnia
depois que me mudei para Pittsburgh, na Pensilvânia, a mais de 4.000
quilômetros de distância. Lá, eu me submeti ao tratamento
de quimioterapia e, na maior parte do tempo, fiquei sozinho. Conheci minha
atual mulher quando a doença já estava regredindo. Ela me
incentivou muito a escrever o livro.
Veja Como o senhor descobriu a leucemia?
Kurland
Por meio de um raio X realizado em março de 1987. Eu já
apresentava vários sintomas fazia pelo menos um ano, mas nunca
havia parado para pensar no assunto. Deixava minha saúde em segundo
plano, só me preocupava com a saúde dos outros. Tudo era
mais importante: meus pacientes na clínica, o hospital, minhas
conferências e palestras, os residentes. Eu vivia resfriado e estava
com uma tosse terrível havia vários meses. Passei a tomar
aspirina atrás de aspirina, mas não adiantava nada. Quando
eu fazia a barba, sangrava excessivamente, mas tinha certeza de que aquilo
era efeito colateral do analgésico. Só tirei o raio X porque
comecei a sentir uma dor aguda no lado esquerdo do tórax.
Veja Antes do câncer, o senhor era corredor e treinava
para participar de maratonas nos Estados Unidos. A doença mudou
seus planos?
Kurland
Quando
descobri que tinha leucemia eu era médico e corredor, e decidi
continuar sendo essa pessoa. Ou seja, não parei de trabalhar nem
de correr, apesar de a doença ter limitado minhas atividades esportivas
em determinado momento. Ainda trabalho muito, mais de dez horas por dia,
de segunda a sexta. Atendo pacientes aos sábados e domingos no
consultório. Em junho de 1990, exatamente um ano depois que minha
leucemia começou a regredir, corri em uma maratona de 160 quilômetros.
Hoje, participo de provas de longa distância e, durante a semana,
corro de casa para o trabalho e vice-versa. Ao todo, percorro cerca de
12 quilômetros por dia.
Veja O senhor duvidou, em algum momento, da eficácia
da medicina?
Kurland
Não, nem mesmo quando minhas febres pareciam deixar os médicos
confusos e frustrados. Eu não via outro caminho para solucionar
minha doença que não fosse a medicina tradicional. Afinal,
era ela que eu utilizava para cuidar dos meus próprios pacientes.
Veja O senhor chegou a procurar algum tratamento alternativo?
Kurland
Recorri a massagens para aliviar as dores musculares, mas não usei
essa terapia como tratamento médico, e sim como complemento. Alguns
de meus pacientes ou seus pais me perguntam se a medicina alternativa
é uma boa forma de tratar doenças pulmonares em crianças.
Digo a eles que a eficácia da maior parte desses tratamentos não
está comprovada cientificamente. Estudos recentes também
sugerem que determinados métodos interferem na atuação
dos medicamentos que prescrevemos a nossos pacientes.
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