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Edição 1 789 - 12 de fevereiro de 2003
Entrevista: Geoffrey Kurland

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"Respeite o paciente"

Médico americano que sobreviveu
ao câncer diz por que
agora vê os
pacientes com outros olhos

Rosana Zakabi

Aos 40 anos, o médico americano Geoffrey Kurland, diretor da divisão de pneumologia pediátrica do Hospital de Pittsburgh, nos Estados Unidos, descobriu que tinha tricoleucemia, um tipo raro de leucemia. Na época, suas chances de sobreviver eram de 40%. Kurland, que sempre tratou crianças com doenças terminais, viu seu mundo desabar. Pela primeira vez trocava de lugar com elas. Quando teve de se submeter aos mesmos procedimentos médicos que recomendava a seus pacientes, Kurland reavaliou o relacionamento que mantinha com eles. "Vi que estive errado durante todos esses anos", diz. No auge da doença, concordou em participar de um projeto experimental que testaria uma nova droga. "Não tinha nada a perder", afirma ele. O tumor começou a regredir, e aos poucos Kurland retomou as atividades normais, entre elas a participação em maratonas. Está curado há doze anos. Sua experiência com o câncer resultou no livro My Own Medicine (Meu Próprio Remédio, em inglês), lançado recentemente nos Estados Unidos. Casado e sem filhos, Kurland, hoje com 55 anos, vive em Pittsburgh. De lá, concedeu a seguinte entrevista a VEJA:

Veja – Em seu livro, o senhor diz que, depois da leucemia, reavaliou a relação com os pacientes. O que isso significa?
Kurland – Nós, médicos, tentamos curar a todo custo e aliviar a dor causada pelas diversas terapias, mas às vezes não conseguimos. Sempre procurei ser o melhor médico para meus pacientes, mesmo antes da leucemia, mas tenho de admitir que, depois dessa dura experiência, comecei a prestar mais atenção ao que eles têm a dizer sobre seus medos e suas ansiedades, algo que antes não fazia. Hoje posso dizer a meus pacientes que já passei por muitos dos tratamentos aos quais eles precisam ser submetidos. Isso os conforta e lhes dá mais segurança.

Veja – O senhor tem agora uma visão diferente dos pacientes?
Kurland – Acho que hoje posso entendê-los melhor. Veja bem, eu não sei exatamente como eles se sentem, assim como meus médicos também não podiam saber exatamente como eu me sentia após minhas cirurgias e sessões de quimioterapia. Mas posso compreender suas preocupações quando eles têm de se submeter a procedimentos médicos, quando descobrem que terão de ser hospitalizados, quando precisam esperar pelo médico no leito do hospital.

Veja – O senhor tornou-se um médico melhor depois da doença?
Kurland – Acredito que já era um bom profissional antes de desenvolver a leucemia, mas muita coisa mudou. Hoje tento ajustar minha agenda a fim de diminuir o tempo que meus pacientes passam na sala de espera aguardando para ser atendidos. Senti na pele o que é ficar esperando pelos médicos, por exames e resultados. Antes eu não me importava tanto com isso. Não tinha noção de quanto essa espera era incômoda.

Veja – O senhor acha que os médicos tratam os pacientes com excessiva superioridade?
Kurland – Não existe profissional perfeito, que saiba tudo e não tenha mais nada a aprender. Por isso, o médico deve sempre reavaliar seu trabalho para melhorar cada vez mais. Muitos profissionais agem como se fossem super-heróis, quando na verdade são apenas humanos. Durante minha doença, percebi que não tinha todas as respostas, e no início foi muito frustrante. Com o passar do tempo, vi que não tinha por que me frustrar, já que ninguém é perfeito, nem eu.

Veja – Quais são as principais falhas na relação entre médico e paciente?
Kurland – Muitos médicos, sem se preocupar se serão entendidos ou não, usam palavras inadequadas, ou seja, fazem discursos técnicos lotados de informações incompreensíveis para uma pessoa que não é de sua área. Eles tendem a economizar tempo com os pacientes e não têm paciência para explicar a doença de outra maneira. É uma forma totalmente errada de lidar com o paciente e seus familiares. Se você quer explicar o que é determinada doença, quais são as chances de cura, os tratamentos e os medicamentos adequados, é preciso gastar tempo, e muitos profissionais não estão dispostos a isso. É preciso respeitar o paciente.

Veja – Os médicos costumam ignorar os sentimentos dos pacientes?
Kurland – Sim, muitos médicos não reconhecem o que o paciente está sentindo, seja porque não são capazes de entender os sentimentos, seja porque simplesmente não têm tempo para isso.

Veja – Antes de ficar doente, o senhor não ouvia seus pacientes com a atenção devida?
Kurland – Eu não ignorava os sentimentos de meus pacientes, mas também não conseguia entendê-los bem. Algumas vezes, eu realmente estava muito atarefado para ouvir o que eles tinham a dizer.

Veja – Como corrigir essas falhas?
Kurland – Ao atender determinado paciente, faço a seguinte pergunta a mim mesmo: "Que palavras devo usar para que ele e sua família entendam o que estou tentando dizer?". Quando começo a explicar, paro e indago: "Vocês entenderam?". Se dizem que sim, pergunto novamente: "Então, expliquem-me o que acabei de falar". É aí que consigo descobrir quanto eles captaram do assunto. Se percebo que não entenderam, tento mudar o discurso e explico tudo de novo, com outras palavras. Aprendi com minha própria experiência que, se o rosto do paciente ou o de seus familiares não muda enquanto você fala, é porque eles não estão compreendendo nada. Isso consome bastante tempo, é algo muito difícil de fazer, mas é o correto.

Veja – Qual é o segredo para lidar com uma doença terminal?
Kurland – É preciso estar com a cabeça em ordem. Se não controlamos o lado emocional, a parte física desaba. Não existe uma única lição para conseguir isso. O importante é que a estabilidade emocional deve ser sempre colocada como prioridade em qualquer situação. Durante todo o tempo eu tive a idéia fixa de que iria melhorar, fazia de tudo para manter pensamentos positivos. Ficava tentando encontrar maneiras de recuperar minha saúde, lia um livro atrás do outro. Procurava fazer aquilo de que mais gostava dentro de minhas possibilidades. Ouvia muita música e tocava violão.

Veja – Nesse período, o senhor se arrependeu de algo que fez ou deixou de fazer no passado?
Kurland –
Eu não pensava muito a respeito do meu passado, até evitava refletir sobre o que havia conseguido realizar ou deveria ter realizado, mesmo quando estava muito doente. Eu tentava continuar com a cabeça no presente e elaborar planos para o futuro, pensando no que poderia fazer amanhã, depois de amanhã. Alguém pode dizer que isso foi uma espécie de fuga, uma forma de falar comigo mesmo: "Não, você não vai morrer". Pode ser verdade. Para mim, foi um jeito eficiente de manter a situação sob controle.

Veja – Qual foi a sensação de saber que o tumor estava regredindo?
Kurland – Lembro-me perfeitamente do dia em que fui informado disso. Estava sentado no chão da casa de um amigo na Califórnia e recebi a notícia dos médicos como um presente. Passei a considerar cada dia de recuperação como uma dádiva, e minha única preocupação era como aproveitar esses dias, como viver minha vida. Eu não sabia por quanto tempo o tumor continuaria regredindo. Por isso, cada minuto era precioso. Naquele momento, tive a certeza de que, por mais difícil que fosse, estava valendo a pena lutar contra a doença.

Veja – Por que o senhor foi voluntário numa experiência com uma droga de resultados incertos?
Kurland – Quando descobri a doença, em 1987, as chances que eu tinha de sobreviver eram de 40%. Já me submetia a sessões de quimioterapia, mas no meio do tratamento aceitei participar de um projeto médico com uma droga chamada Pentostatina, que ainda era inédita naquela época. Ou seja, acabei fazendo parte de uma experiência científica que iria testar se o novo medicamento funcionava. Diante das circunstâncias e das possibilidades de obter a cura da doença, decidi que não teria nada a perder.

Veja – O senhor chegou a pensar que poderia morrer?
Kurland – Sim, durante as sessões de quimioterapia, em 1988, a fase mais difícil da doença. Eu tinha febre, transpiração constante e tremedeiras e vivia hospitalizado, passando por dezenas de exames e procedimentos cirúrgicos. A maioria dos meus testes dava negativo, mas as febres noturnas continuavam. Eu percebia a frustração dos meus médicos e ficava cada dia mais deprimido. Sentia-me fraco, e nesse período perdi muito peso. Não queria receber visitas, pensava em me esconder até me recuperar totalmente ou até a morte chegar. Dizia para mim mesmo que essa devia ser uma forma de morrer lentamente. Eu também sentia pena dos meus médicos, que trabalhavam arduamente para desvendar o que havia de errado comigo. Mais tarde, descobriram que se tratava de tuberculose. A doença apareceu porque minha imunidade foi afetada pela leucemia e pela quimioterapia.

Veja – Pode-se dizer que hoje o senhor está curado da leucemia?
Kurland – O tumor começou a regredir em 1989, e minha recuperação não parou desde então. Segundo os médicos, se em cinco anos a doença não se manifestar é sinal de que você está curado. No entanto, tenho lido artigos recentes na literatura médica afirmando que alguns pacientes voltaram a ter tricoleucemia depois de dez anos. Apesar de estar bem hoje, não há como deixar de me preocupar com esse tipo de notícia.

Veja – O senhor tem medo de que a doença volte?
Kurland – Eu realmente penso sempre sobre a leucemia, mas não é algo que fica atormentando minha mente. Nunca pude me livrar das recordações deixadas pela doença e, no fundo, nem quis isso. Toda vez que pego gripe, tenho tosse ou febre, pergunto a mim mesmo se é a leucemia voltando. Então, paro e penso: "Bom, estou saudável. Portanto, minha tosse certamente é temporária".

Veja – O que as pessoas podem aprender com a sua experiência?
Kurland – Meu objetivo, ao escrever o livro, não foi criar um guia de como sobreviver à leucemia, e sim expor minha experiência pessoal e a luta contra uma doença devastadora. Apesar de falar sobre câncer, o livro também traz lições de vida para pessoas que não tiveram a doença. Cada um de nós pode escolher como viver a vida, independentemente dos obstáculos e imprevistos que surjam no caminho. Se as pessoas conseguirem perceber essa idéia por meio de minha experiência e tirarem proveito disso, com certeza terei feito um bom trabalho.

Veja – A experiência de ter sido vítima de uma doença terminal e de ter se recuperado mudou o relacionamento com sua família?
Kurland – Meus pais foram as pessoas que mais estiveram comigo durante a doença. A relação com eles, especialmente com minha mãe, tornou-se muito mais próxima depois dessa experiência. Mas minha vida afetiva, ao contrário, ficou bastante complicada. Acabei me separando da mulher com quem vivia. Ela continuou na Califórnia depois que me mudei para Pittsburgh, na Pensilvânia, a mais de 4.000 quilômetros de distância. Lá, eu me submeti ao tratamento de quimioterapia e, na maior parte do tempo, fiquei sozinho. Conheci minha atual mulher quando a doença já estava regredindo. Ela me incentivou muito a escrever o livro.

Veja – Como o senhor descobriu a leucemia?
Kurland – Por meio de um raio X realizado em março de 1987. Eu já apresentava vários sintomas fazia pelo menos um ano, mas nunca havia parado para pensar no assunto. Deixava minha saúde em segundo plano, só me preocupava com a saúde dos outros. Tudo era mais importante: meus pacientes na clínica, o hospital, minhas conferências e palestras, os residentes. Eu vivia resfriado e estava com uma tosse terrível havia vários meses. Passei a tomar aspirina atrás de aspirina, mas não adiantava nada. Quando eu fazia a barba, sangrava excessivamente, mas tinha certeza de que aquilo era efeito colateral do analgésico. Só tirei o raio X porque comecei a sentir uma dor aguda no lado esquerdo do tórax.

Veja – Antes do câncer, o senhor era corredor e treinava para participar de maratonas nos Estados Unidos. A doença mudou seus planos?
Kurland – Quando descobri que tinha leucemia eu era médico e corredor, e decidi continuar sendo essa pessoa. Ou seja, não parei de trabalhar nem de correr, apesar de a doença ter limitado minhas atividades esportivas em determinado momento. Ainda trabalho muito, mais de dez horas por dia, de segunda a sexta. Atendo pacientes aos sábados e domingos no consultório. Em junho de 1990, exatamente um ano depois que minha leucemia começou a regredir, corri em uma maratona de 160 quilômetros. Hoje, participo de provas de longa distância e, durante a semana, corro de casa para o trabalho e vice-versa. Ao todo, percorro cerca de 12 quilômetros por dia.

Veja – O senhor duvidou, em algum momento, da eficácia da medicina?
Kurland – Não, nem mesmo quando minhas febres pareciam deixar os médicos confusos e frustrados. Eu não via outro caminho para solucionar minha doença que não fosse a medicina tradicional. Afinal, era ela que eu utilizava para cuidar dos meus próprios pacientes.

Veja – O senhor chegou a procurar algum tratamento alternativo?
Kurland – Recorri a massagens para aliviar as dores musculares, mas não usei essa terapia como tratamento médico, e sim como complemento. Alguns de meus pacientes ou seus pais me perguntam se a medicina alternativa é uma boa forma de tratar doenças pulmonares em crianças. Digo a eles que a eficácia da maior parte desses tratamentos não está comprovada cientificamente. Estudos recentes também sugerem que determinados métodos interferem na atuação dos medicamentos que prescrevemos a nossos pacientes.

 
 
   
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