"Entrego o corpo
lasso à fria cama"

O trânsito das frases órfãs ou de pais duvidosos
à procura de adoção. Ou: Otto Lara Resende

Otto Lara Resende não foi Otto Lara Resende o tempo todo. Houve ocasiões em que outros foram Otto Lara Resende por ele. E houve ocasiões em que, ao contrário, Otto Lara Resende fez aos outros o favor de substituí-los no papel de si mesmos. Essas conclusões vêm a propósito de uma pequena biografia do escritor mineiro, A Poeira da Glória, de autoria do jornalista Benício Medeiros, recém-publicada (Série "Perfis do Rio", Editora Relume-Dumará). Otto Lara Resende (1922-1992), mais que pela obra escrita, ficou conhecido pelo espírito ágil, capaz de criações instantâneas. Foi o autor de frases que fizeram história: "O mineiro só é solidário no câncer", "Patrão de esquerda só é bom até o dia do pagamento". Mas nem todas as frases atribuídas a Otto são de Otto. E há frases atribuídas a outros que são de Otto. Daí a conclusão de que em algumas ocasiões ele era os outros, e, em outras, os outros eram ele.

Tome-se sua frase mais famosa, a de que mineiro só é solidário no câncer. Ela foi celebrizada por Nelson Rodrigues, numa peça que até tinha o nome do autor — Bonitinha, Mas Ordinária, ou Otto Lara Resende. Os personagens da peça repetem a frase à exaustão, fascinados e intrigados. "O mineiro só é solidário no câncer": nada mais Otto. A finura de apanhar as palavras no laço como um cowboy do pensamento. A ironia com a terra natal de que só os mineiros são capazes, e entre os mineiros só Otto Lara Resende. Mas existe um problema: Otto negava que fosse o autor. Dizia — isso está em outro livro, Anjo Pornográfico, biografia de Nelson Rodrigues por Ruy Castro — que a frase era como um rabo de papel que Nelson lhe pregara. A frase pode não ser de Otto, mas coube-lhe com perfeição. Complementou-o. Ajudou-o a ser mais Otto, na vida.

Noutras ocasiões, foi Otto quem ajudou os outros a ser mais eles próprios. Por exemplo, ajudou o general Henrique Teixeira Lott. Isso ocorreu na chamada "Novembrada", o episódio em que Lott, então ministro da Guerra, em 1955, depôs dois ocupantes da Presidência — o vice, Café Filho, e o presidente da Câmara, Carlos Luz — para assegurar a posse de Juscelino Kubitschek. Otto entrevistou Lott para a revista Manchete, logo depois. Mas, não satisfeito com as formulações do general, salpicou a entrevista de contribuições próprias. A certa altura, Lott confessava que foi obrigado "se não a uma mentira, pelo menos a uma restrição mental". Restrição mental? É a expressão eclesiástica para a mentira necessária. A restrição mental, reservatio mentalis, em latim, na boca do general simplão que era Lott? Otto admitiu mais tarde que fora uma doação sua ao acervo filosófico do general, assim como o nome pomposo com que foi batizada a dupla deposição dos presidentes, para fugir à vulgar denominação de golpe: "movimento de retorno aos quadros constitucionais vigentes".

E a frase "Minas está onde sempre esteve", de quem é? José Maria Alkmin, político que era um virtuose da astúcia e das artes evasivas atribuídas aos mineiros? Benedito Valadares? Tancredo Neves? Otto dizia que viu a frase atribuída a muita gente. Pois era do próprio Otto. Fez parte de um manifesto que escreveu em 1961, em nome do então governador de Minas, Magalhães Pinto, esclarecendo — ou melhor, deixando no ar, como era desejo do governador — sua posição a respeito da contestada posse de João Goulart na Presidência, depois da renúncia de Jânio Quadros. E o verso "Entrego o corpo lasso à fria cama", de quem é? É de Otto e também foi aproveitado por Nelson Rodrigues — sempre ele — no folhetim Engraçadinha. Alguns dizem ser o verso sobrevivente de um soneto que Otto renegou. Outros, que é o fecho de ouro de um soneto cujos versos restantes jamais escreveu. Mas será mesmo de Otto, de quem não se conhece nenhuma outra incursão pelo território da poesia?

E o "Sois rei"? Esta faz parte de uma história sempre lembrada, quando se fala do fardão da Academia Brasileira de Letras. O acadêmico Aurélio Buarque de Holanda um dia toma um táxi, paramentado para uma cerimônia na Academia. O taxista fica assombrado. Como pode alguém vestir-se daquele jeito? No fim da corrida, toma coragem e pergunta: "Sois rei?" Essa história nunca existiu. Mas é daquelas que, como teimava em não existir, precisava ser inventada. Otto, então, a inventou. Seu papel neste mundo, entre outros, foi o de preencher as deficiências mais notórias da realidade.

Otto Lara não foi só o genial frasista. Foi também o ponto de onde e para onde transitavam frases órfãs ou de paternidade duvidosa à procura de hospedaria. Isso só podia acontecer com ele. Só com alguém dotado do mesmo talento e da mesma generosidade para dar e receber. Mas também só podia acontecer num determinado tempo e lugar, vale dizer, no Brasil, e mais particularmente no Rio de Janeiro, de seu tempo. Era um lugar onde todos se conheciam, escritores, generais, jornalistas, presidentes, empresários, espremiam-se todos uns contra os outros, e intercambiavam-se as frases como os pares numa quadrilha.




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