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Livros O
mundo cinzento dos sem-crachá Uma investigação
jornalística sobre os desempregados de classe média nos
Estados Unidos 
Jerônimo Teixeira
Andrew Shurtleff/AP  |
| Barbara Ehrenreich: bonecos de Elvis e gurus que não
têm dinheiro nem para pagar uma secretária |
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Para escrever Miséria
à Americana, um revelador retrato da vida das classes baixas nos Estados
Unidos, a jornalista Barbara Ehrenreich trabalhou como garçonete, faxineira
e funcionária da rede de hipermercados Wal-Mart. Em Desemprego de
Colarinho-Branco (tradução de Ana Maria Mandim; Record;
252 páginas; 39,90 reais), ela buscou um universo mais próximo ao
seu: o dos desempregados de classe média. Imaginou que o esforço
de procurar uma vaga nos escalões médios de uma grande corporação
seria menos desgastante do que o trabalho braçal mal remunerado a que se
submeteu para compor o livro anterior. Engano. "Foi uma experiência ainda
mais desesperadora", disse ela em entrevista a VEJA. "No mundo dos trabalhadores
manuais, as coisas são mais objetivas. Ou existe trabalho, ou não.
Na classe média, o desemprego é atribuído a problemas de
personalidade e de atitude, o que é uma fonte de frustrações
imensas." O projeto original da autora
era "infiltrar-se" no mundo corporativo, batalhando por um emprego em uma grande
empresa. Ela montou um disfarce elaborado para chegar lá. Retomou o nome
de solteira, Barbara Alexander, e remodelou seu currículo para se anunciar
como uma profissional de relações públicas. Depois de procurar
por quase um ano e gastar perto de 6.000 dólares com viagens, treinamentos
e cursos, ainda não havia obtido uma colocação. Nesse sentido,
Miséria à Americana, com sua perspectiva intestina da pobreza,
é mais interessante como reportagem e mais eficiente como crítica
social. No caminho de seu fracasso, além disso, Barbara desvendou uma realidade
melancólica: a indústria do desemprego.
Em 2003, quando Barbara começou a reportagem, os "colarinhos-brancos"
profissionais de cargos gerenciais ou técnicos com educação
universitária representavam cerca de 20% do desemprego americano,
ou 1,6 milhão de pessoas. Para atender esses profissionais "em transição"
o eufemismo preferido no meio , surgiram os mais variados serviços,
quase todos de utilidade nula: instrutores de carreira, consultores de imagem,
"acampamentos executivos" (veja quadro).
A ênfase desses cursos está não na qualificação
ou na competência, mas na personalidade: uma imagem positiva e otimista
bastaria para conseguir o sonhado emprego. "Vende-se a idéia meio mística
de que a nossa atitude é que controla a situação", diz Barbara.
Os instrutores que a jornalista encontrou utilizavam duvidosos testes de personalidade
para orientar os clientes. Um deles recorria a bonecos de O Mágico de
Oz e de Elvis Presley em suas sessões.
Nos primeiros capítulos, o leitor ri dessas situações ridículas
(que a autora descreve com o devido sarcasmo). Aos poucos, porém, as besteiras
ganham um contorno quase trágico. Por que profissionais de tecnologia da
informação, com todo o seu conhecimento de matemática, confiam
nas fórmulas fajutas com que os gurus dão verniz "científico"
às suas baboseiras motivacionais? Nessa credulidade, o desempregado revela
uma vulnerabilidade psicológica não muito diversa daquela que leva
as vítimas de doenças graves a testar terapias supostamente milagrosas.
Até mesmo a "profissão" de instrutor de carreira é muitas
vezes um precário subemprego. Barbara ofereceu seus serviços de
relações-públicas a um desses instrutores só
para descobrir que ele alugava um escritório minúsculo no 2º
andar de um restaurante chinês e não podia nem contratar uma secretária.
Desemprego de Colarinho-Branco
sugere que essa exigência por um otimismo patológico é
disseminada não apenas entre os profissionais "em transição",
mas também no interior do mundo corporativo. O uso de critérios
mais objetivos, como o incentivo à inquietude criativa das indústrias
do Vale do Silício, não passaria de um fenômeno minoritário.
É uma dedução arriscada: Barbara, afinal, só conheceu
as grandes corporações americanas pelo lado dos que não conseguem
entrar ou retornar a elas. Mas seu registro das estranhas modas a que esse universo
está sujeito é cristalino. No Brasil, por exemplo, a obsessão
pelo MBA ganhou dimensões quase fetichistas e muitos esquecem que,
se todo mundo tem um MBA, ele deixa de ser uma vantagem competitiva (sem falar
no fato de que nem todo curso do gênero ensina o que promete ou substitui
talento e iniciativa). Quando embarcou em seu projeto, Barbara trazia na bagagem
todas as velhas críticas da esquerda às grandes corporações:
elas exploram a mão-de-obra, poluem o ambiente, vendem produtos insuficientemente
testados etc. Em sua frustrada busca por emprego, ela acrescentou uma nova acusação
a esse repertório uma transgressão à própria
lógica do capitalismo. O candidato ideal a um emprego corporativo é
o tipo simpático e conformista, que não quer mudar o modo como a
empresa trabalha. Trata-se de uma estratégia conservadora, que já
não cabe no capitalismo global. "Não é assim que os Estados
Unidos vão ter sucesso na competição com a Índia ou
a China", diz Barbara.
| IMERSÃO JORNALÍSTICA Outros
repórteres que se enfronharam no mundo sobre o qual desejavam escrever
A norueguesa Asne Seierstad viveu
três meses com uma família afegã, em 2001. Seu relato da experiência,
O Livreiro de Cabul, é uma crônica incisiva da tirania doméstica
que os homens exercem nas sociedades tradicionais muçulmanas O
americano Bill Buford conviveu quatro anos com hooligans, os violentos
torcedores de futebol ingleses, para compor "Entre os vândalos". Com um
pé na sociologia, a reportagem desvenda o racismo e a xenofobia das massas
torcedoras O alemão Gunter
Wallraff disfarçou-se de turco, nos anos 80, para viver a experiência
dos imigrantes na Alemanha. No livro Cabeça de Turco, mostrou a
humilhante condição de párias dos turcos na sociedade alemã
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| A INDÚSTRIA DO DESEMPREGO
Alguns serviços que a jornalista Barbara Ehrenreich
utilizou em sua reportagem sobre a vida dos profissionais "em transição"
nos Estados Unidos Instrutor
de carreira O QUE É: um profissional especializado em
orientar e motivar o desempregado. Para isso, usa teorias "psicológicas"
em que a personalidade das pessoas é classificada a partir de personagens
de O Mágico de Oz UTILIDADE: nula CUSTO: 60 dólares
por uma sessão de uma hora, com direito a teste psicológico
Instrutor de currículo
O QUE É: ajuda o candidato a um emprego a elaborar seu currículo.
Dá dicas de redação e ensina pequenas malandragens
para inflar qualificações profissionais UTILIDADE: realmente
melhora a apresentação do currículo CUSTO: 200
dólares por uma sessão de uma hora, por telefone
Acampamento executivo O QUE É:
apesar do nome, tem lugar em um hotel. É um encontro de executivos desempregados,
com palestras de motivação, fórmulas de auto-ajuda e uma
certa dose de choradeira UTILIDADE: nula CUSTO: 180 dólares
Consultoria
de imagem O QUE É: um consultor de moda ensina o candidato
a emprego a se vestir (e a se maquiar, no caso das mulheres) de acordo com os
padrões "corporativos" UTILIDADE: vestir-se como eles, os empregados
CUSTO: 250 dólares pela sessão, mais 55 dólares em
cosméticos | | |