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Cinema A
ocasião faz o cristão O
lançamento do estúdio FoxFaith não deixa dúvida:
a platéia religiosa é hoje a mais cobiçada pelos
vendilhões de Hollywood  Isabela
Boscov O australiano Rupert Murdoch, dono
do império global de comunicações News Corporation, é
conhecido como um empresário de métodos agressivos e um conservador.
Não se sabia que pudesse ser também um homem de fé. Uma decisão
anunciada por Murdoch há duas semanas, porém, revelou que, pelo
menos quando o assunto é faturamento, sua convicção é
inabalável. A bandeira News Corporation, que na área de cinema já
abriga a 20th Century Fox, a Fox Classics (voltada para o circuito alternativo)
e a Fox Home Entertainment, acaba de ganhar mais um filhote: o estúdio
FoxFaith, ou "FoxFé", que todos os anos deverá lançar cerca
de uma dúzia de filmes à prova de qualquer objeção
por parte do crescente público religioso americano. Essa é uma porção
da platéia que costuma rejeitar a produção de Hollywood por
causa de seu uso de violência, drogas, sexo, nudez, homossexualidade e outros
comportamentos que ela julga ofensivos. Para os mais ortodoxos, nem a marca Disney
é mais garantia de diversão familiar "segura". Por suas características,
sempre se acreditou também que esses espectadores não tivessem grande
contribuição a dar à bilheteria. Uma iniciativa da própria
Fox mostrou, há dois anos, quanto essa percepção era equivocada.
A Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson e comercializado pelo
estúdio, tornou-se um sucesso colossal exatamente pelo eco que encontrou
junto a esses fiéis. Em várias cidades americanas (e em algumas
brasileiras), formaram-se caravanas de católicos e, principalmente, de
evangélicos para assistir à encenação do martírio
de Jesus. Saldo: mais de 600 milhões de dólares na bilheteria e
15 milhões de unidades do DVD vendidas.
O mercado de entretenimento cristão já movimenta 4,3 bilhões
de dólares a cada ano entre os americanos. Trata-se de mais de um terço
da bilheteria de Hollywood no mesmo período. E, se as projeções
estiverem corretas, há espaço aí para lucros bem mais vultosos:
o consenso é que essa parcela do público é mal atendida e
carente de filmes e programas de televisão que se ajustem às suas
expectativas. É também um segmento que vem enriquecendo e ganhando
influência política, o que o torna irresistível. Desde o inesperado
desempenho de A Paixão de Cristo, portanto, a indústria cinematográfica
vem imaginando formas de explorar o potencial latente desse filão. As
Crônicas de Nárnia, baseado nos livros infantis do católico
fervoroso C.S. Lewis, foi outra aposta bem-sucedida, que juntou a Disney à
empresa Walden Media. Propriedade do bilionário Philip F. Anschutz, um
republicano e cristão devoto que não dá entrevistas e não
divulga sua agenda política, a Walden Media vem se dedicando a localizar
e produzir roteiros de conteúdo familiar e educativo. Outras companhias
semelhantes surgiram. A recente Good News Holdings, cria de um executivo de Hollywood
que reencontrou sua fé, tem um projeto ambicioso pela frente: deve rodar,
no ano que vem, uma adaptação de Christ the Lord: Out of Egypt,
da escritora Anne Rice. Mais conhecida pelas suas sagas protagonizadas por bruxas
e mortos-vivos, como Entrevista com o Vampiro, que lhe renderam 100 milhões
de livros vendidos em todo o mundo, Anne repentinamente também se redescobriu
cristã. Abandonou os temas profanos e se impôs a missão de
continuar escrevendo sobre Jesus. Coincidência ou não, a guinada
ocorreu num momento em que sua popularidade declinava.
Nenhuma dessas iniciativas, porém, é tão organizada quanto
a FoxFaith de Rupert Murdoch. Seu objetivo é, primeiro, tornar-se uma espécie
de selo de qualidade moral, capaz de assegurar mesmo ao espectador cristão
mais conservador que aquele será um programa adequado à sua família.
Na última sexta-feira, previa-se o lançamento do primeiro título
do estúdio nos cinemas, ainda em circuito limitado: Love's Abiding Joy.
Baseado na série de romances da escritora Janette Oke, o filme trata de
um casal que, na década de 1880, ruma para o Oeste e recorre à fé
para suportar as adversidades da vida na fronteira americana. Segundo os diretores
do FoxFaith, essa deverá ser a linha mestra de sua produção
filmes de conteúdo apenas implicitamente religioso, e não
dedicados ao proselitismo. Mas é possível que essa seja apenas uma
postura inicial. Se o faturamento corresponder ao imaginado, não é
improvável que Murdoch, cujos canais de televisão acolhem séries
apimentadas como Nip/Tuck ou desenhos irreverentes como Os Simpsons,
se torne, por intermédio da FoxFaith, o próximo grande evangelista. Fotos
divulgação
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