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Televisão
Sadismo na cozinha
A nova estrela dos programas culinários
é um chef que maltrata seus aprendizes

Marcelo Marthe
Logo na abertura do programa Hell's
Kitchen (Cozinha Infernal), em exibição
no canal pago GNT desde a semana passada, o chef escocês Gordon
Ramsay deixa explícito seu mau gênio. Enquanto os doze
aspirantes a cozinheiros que participam da gincana culinária
engoliam em seco, Ramsay ia provando os pratos feitos por cada um
deles. Depois de dar um bocado num macarrão, ele o cuspiu
no chão e decretou: "Que porcaria insossa". Também
se enfureceu com uma salada e a atirou no responsável
por sua criação. Hell's Kitchen leva para a
cozinha o mesmo apelo sádico de reality shows como Survivor
e O Aprendiz: a diversão está em ver os
participantes sofrer. O programa é um fenômeno de audiência
na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde chega a ficar entre os
dez mais vistos da TV, com quase 10 milhões de espectadores.
Acrescenta ainda um novo personagem à categoria dos chefs-apresentadores:
Ramsay, o cozinheiro mais famoso da Inglaterra. Dono de uma rede
de restaurantes badalados (veja
quadro), ele cultiva cuidadosamente a imagem de sujeito
irascível traço nada incomum na atividade,
frise-se. "Não diria que sou agressivo. Só não
admito menos do que a perfeição", disse ele a VEJA.
Presente na TV desde os anos
50, a culinária é um filão que cresceu e se
diversificou com o advento dos canais pagos. Nos Estados Unidos,
a Food Network transmite só esse tipo de conteúdo
e atinge 65 milhões de espectadores. No Brasil, o GNT e o
Discovery Travel & Living dedicam boa parte da programação
ao tema. Mas já vão longe os dias em que bastavam
um fogão e uma cozinheira com jeitão maternal para
montar um programa de sucesso. Hoje, mais do que ensinar receitas,
a gastronomia envereda pela seara do comportamento. Algumas atrações
ensinam como preparar uma refeição para os amigos.
Outras unem o turismo cultural à culinária. É
o caso do Sem Reservas, exibido pelo Travel & Living
e comandado por Anthony Bourdain o chef "bad boy" que expôs
a vida de sexo, drogas e rock'n'roll dos restaurantes de Nova York
no livro Cozinha Confidencial. O americano Bourdain, entretanto,
é um estranho no ninho. O maior celeiro de apresentadores
do ramo é, por ironia, a Inglaterra, país com uma
das piores culinárias (e o termo "culinária", aqui,
é uma licença) do mundo. Ramsay divide o topo nesse
ramo com os ingleses Jamie Oliver e Nigella Lawson (ambos com programas
exibidos no Brasil também pelo GNT).
Oliver ouve música tecno,
circula em Londres de lambreta e é amigo de roqueiros conhecidos.
O ar moderninho não esconde que ele é um baita mala-sem-alça.
Oliver gosta de convidar outros chefs para sua cozinha mas
não para pilotar as panelas, e sim para elogiar as criações
do anfitrião. Ah, ele também adora convidar atletas
saradões para comer em sua casa. Enquanto fala como uma matraca
hiperativa, prepara gororobas e as apresenta como se fossem iguarias.
Já fez até uma "sobremesa" que consistia de fatias
de panetone mergulhadas em creme de leite e cobertas de açúcar
de confeiteiro. É um sujeitinho insuportável. Numa
série que mostra sua cruzada politicamente correta pela mudança
da merenda escolar inglesa, o discurso engajado é entremeado
com cenas que revelam como Oliver, o mártir da boa alimentação,
sacrificou sua vida familiar pela causa. Alguém precisava
flambar o ego do menino. Os programas de Nigella, por sua vez, até
que são engraçados mas pelo seu espírito
trash. A moça ostenta um diploma de letras em Oxford e é
filha de um ex-ministro inglês. Diante do fogão, porém,
desce do salto. Nigella estapeia os ingredientes, faz pratos ultracalóricos
e exibe, a título de propaganda, a silhueta com algumas polegadas
a mais de recheio. Também não é um exemplo
de higiene. "Nojentella" enfia os dedos na comida e congela os restos
de vinho deixados por seus convivas para usá-los depois.
Atenção: não o vinho que sobrou no fundo da
garrafa, mas o que ficou nos copos, cercado de marcas de batom.
Não há dúvida
de que o infernal Gordon Ramsay, formado em culinária francesa
e discípulo de Joël Robuchon, tem mais bagagem gastronômica
que essa dupla. Sua bandeira também é louvável:
estimular a retomada do hábito das refeições
em família (dada sua rabugice, é de imaginar o que
sua mulher e os quatro filhos passam nessas horas). Ramsay é,
acima de tudo, um empreendedor de calibre. Seus restaurantes faturaram
124 milhões de dólares no ano passado, e recentemente
ele assinou um contrato de 16 milhões de dólares por
três anos com o Channel 4 inglês. Se conseguir pôr
na linha os aspirantes a Jamie Oliver e Nigella Lawson que passam
por sua hell's kitchen, porém, o dinheiro será
mais do que merecido.
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O "MALA"
Com visual moderninho e papo politicamente correto,
o chef e apresentador Jamie Oliver é um chatonildo.
Num ataque de estrelismo, negou-se a ir à mesa
de Bill Clinton, em seu restaurante, só porque
o ex-presidente, de dieta, pediu uma alteração
em seus pratos
O "BAD BOY"
Um dos pioneiros na transmutação
de chefs em pop stars, o americano Anthony Bourdain
roda o mundo em busca de iguarias exóticas no
programa Sem Reservas. Recentemente passou por
um sufoco: gravava em Beirute quando a cidade foi alvo
de bombardeios israelenses
A "NOJENTELLA"
Nigella Lawson tem forte (e má) influência
sobre os hábitos alimentares dos ingleses. A
chef de medidas generosas adora frituras e é,
por assim dizer, relaxada. Já lambeu os dedos
depois de passá-los numa taça com resto
de doce que estava na pia para lavar
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O
DESTEMPERADO
À frente do
programa Hell's Kitchen, uma gincana de aspirantes
a cozinheiro, o chef escocês Gordon Ramsay dá
um show de mau humor. Eis uma mostra de seu estilo
QUEM É
Ramsay é dono do único restaurante
de Londres com três estrelas no guia Michelin,
a distinção máxima da alta
gastronomia
REAÇÃO
TÍPICA
Ao provar um prato, o chef faz cara feia, joga
a comida no chão e ordena: "Tente de novo"
IMPLICÂNCIAS
Cabelos desgrenhados, calças folgadas e
postura preguiçosa o irritam. Mas, se ele não
vai com a cara da pessoa, qualquer detalhe é
motivo para xingamento
FRASES FAVORITAS
"Vamos, mexa esse traseiro"
"Você é mesmo inútil"
"Seu burro"
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