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Edição 1977 . 11 de outubro de 2006

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Televisão
Sadismo na cozinha

A nova estrela dos programas culinários
é um chef que maltrata seus aprendizes


Marcelo Marthe

Logo na abertura do programa Hell's Kitchen (Cozinha Infernal), em exibição no canal pago GNT desde a semana passada, o chef escocês Gordon Ramsay deixa explícito seu mau gênio. Enquanto os doze aspirantes a cozinheiros que participam da gincana culinária engoliam em seco, Ramsay ia provando os pratos feitos por cada um deles. Depois de dar um bocado num macarrão, ele o cuspiu no chão e decretou: "Que porcaria insossa". Também se enfureceu com uma salada – e a atirou no responsável por sua criação. Hell's Kitchen leva para a cozinha o mesmo apelo sádico de reality shows como Survivor e O Aprendiz: a diversão está em ver os participantes sofrer. O programa é um fenômeno de audiência na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde chega a ficar entre os dez mais vistos da TV, com quase 10 milhões de espectadores. Acrescenta ainda um novo personagem à categoria dos chefs-apresentadores: Ramsay, o cozinheiro mais famoso da Inglaterra. Dono de uma rede de restaurantes badalados (veja quadro), ele cultiva cuidadosamente a imagem de sujeito irascível – traço nada incomum na atividade, frise-se. "Não diria que sou agressivo. Só não admito menos do que a perfeição", disse ele a VEJA.

Presente na TV desde os anos 50, a culinária é um filão que cresceu e se diversificou com o advento dos canais pagos. Nos Estados Unidos, a Food Network transmite só esse tipo de conteúdo e atinge 65 milhões de espectadores. No Brasil, o GNT e o Discovery Travel & Living dedicam boa parte da programação ao tema. Mas já vão longe os dias em que bastavam um fogão e uma cozinheira com jeitão maternal para montar um programa de sucesso. Hoje, mais do que ensinar receitas, a gastronomia envereda pela seara do comportamento. Algumas atrações ensinam como preparar uma refeição para os amigos. Outras unem o turismo cultural à culinária. É o caso do Sem Reservas, exibido pelo Travel & Living e comandado por Anthony Bourdain – o chef "bad boy" que expôs a vida de sexo, drogas e rock'n'roll dos restaurantes de Nova York no livro Cozinha Confidencial. O americano Bourdain, entretanto, é um estranho no ninho. O maior celeiro de apresentadores do ramo é, por ironia, a Inglaterra, país com uma das piores culinárias (e o termo "culinária", aqui, é uma licença) do mundo. Ramsay divide o topo nesse ramo com os ingleses Jamie Oliver e Nigella Lawson (ambos com programas exibidos no Brasil também pelo GNT).

Oliver ouve música tecno, circula em Londres de lambreta e é amigo de roqueiros conhecidos. O ar moderninho não esconde que ele é um baita mala-sem-alça. Oliver gosta de convidar outros chefs para sua cozinha – mas não para pilotar as panelas, e sim para elogiar as criações do anfitrião. Ah, ele também adora convidar atletas saradões para comer em sua casa. Enquanto fala como uma matraca hiperativa, prepara gororobas e as apresenta como se fossem iguarias. Já fez até uma "sobremesa" que consistia de fatias de panetone mergulhadas em creme de leite e cobertas de açúcar de confeiteiro. É um sujeitinho insuportável. Numa série que mostra sua cruzada politicamente correta pela mudança da merenda escolar inglesa, o discurso engajado é entremeado com cenas que revelam como Oliver, o mártir da boa alimentação, sacrificou sua vida familiar pela causa. Alguém precisava flambar o ego do menino. Os programas de Nigella, por sua vez, até que são engraçados – mas pelo seu espírito trash. A moça ostenta um diploma de letras em Oxford e é filha de um ex-ministro inglês. Diante do fogão, porém, desce do salto. Nigella estapeia os ingredientes, faz pratos ultracalóricos e exibe, a título de propaganda, a silhueta com algumas polegadas a mais de recheio. Também não é um exemplo de higiene. "Nojentella" enfia os dedos na comida e congela os restos de vinho deixados por seus convivas para usá-los depois. Atenção: não o vinho que sobrou no fundo da garrafa, mas o que ficou nos copos, cercado de marcas de batom.

Não há dúvida de que o infernal Gordon Ramsay, formado em culinária francesa e discípulo de Joël Robuchon, tem mais bagagem gastronômica que essa dupla. Sua bandeira também é louvável: estimular a retomada do hábito das refeições em família (dada sua rabugice, é de imaginar o que sua mulher e os quatro filhos passam nessas horas). Ramsay é, acima de tudo, um empreendedor de calibre. Seus restaurantes faturaram 124 milhões de dólares no ano passado, e recentemente ele assinou um contrato de 16 milhões de dólares por três anos com o Channel 4 inglês. Se conseguir pôr na linha os aspirantes a Jamie Oliver e Nigella Lawson que passam por sua hell's kitchen, porém, o dinheiro será mais do que merecido.

 

O "MALA"
Com visual moderninho e papo politicamente correto, o chef e apresentador Jamie Oliver é um chatonildo. Num ataque de estrelismo, negou-se a ir à mesa de Bill Clinton, em seu restaurante, só porque o ex-presidente, de dieta, pediu uma alteração em seus pratos

O "BAD BOY"
Um dos pioneiros na transmutação de chefs em pop stars, o americano Anthony Bourdain roda o mundo em busca de iguarias exóticas no programa Sem Reservas. Recentemente passou por um sufoco: gravava em Beirute quando a cidade foi alvo de bombardeios israelenses

A "NOJENTELLA"
Nigella Lawson tem forte (e má) influência sobre os hábitos alimentares dos ingleses. A chef de medidas generosas adora frituras e é, por assim dizer, relaxada. Já lambeu os dedos depois de passá-los numa taça com resto de doce que estava na pia para lavar

 

O DESTEMPERADO

À frente do programa Hell's Kitchen, uma gincana de aspirantes a cozinheiro, o chef escocês Gordon Ramsay dá um show de mau humor. Eis uma mostra de seu estilo

QUEM É
Ramsay é dono do único restaurante de Londres com três estrelas no guia Michelin, a distinção máxima da alta gastronomia

REAÇÃO TÍPICA
Ao provar um prato, o chef faz cara feia, joga a comida no chão e ordena: "Tente de novo"

IMPLICÂNCIAS
Cabelos desgrenhados, calças folgadas e postura preguiçosa o irritam. Mas, se ele não vai com a cara da pessoa, qualquer detalhe é motivo para xingamento

FRASES FAVORITAS
"Vamos, mexa esse traseiro"
"Você é mesmo inútil"
"Seu burro"

 
 
 
 
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