'
 


    

 
Edição 1977 . 11 de outubro de 2006

Índice
Millôr
Claudio de Moura Castro
Diogo Mainardi
André Petry
Reinaldo Azevedo
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Gente
VEJA.com
Veja essa
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Estilo
Menos é mais

Há sessenta anos, um francês
inventou o biquíni. Alguém se lembra
de como era a praia sem ele?

 
Fotos divulgação
Viva a diferença: Jayne, de modelão de oncinha, e Brigitte, mais próxima da coisa verdadeira, no fim dos anos 50

Quem vê uma praia do Rio de Janeiro em domingo ensolarado custa a crer que o quadro à sua frente, composto de um mar de curvas bronzeadas expostas em minúsculos biquínis, começou a ser pintado há relativamente pouco tempo – não mais que dez presidentes da República atrás. Parte integrante da alma, e do corpo, claro, do Brasil, o biquíni custou a emplacar no país, muito embora não tenham faltado transgressoras quando a indumentária foi torpedeada por dois bastiões da moral e dos bons costumes: Jânio Quadros, que baixou uma lei proibindo seu uso em 1961, e o Vaticano, que em 1964 tentou banir o biquíni nos países católicos. Essas e outras histórias estão em The Bikini Book (O Livro do Biquíni), lançado pela ex-modelo e jornalista americana Kelly Killoren Bensimon para comemorar os sessenta anos da invenção da primeira roupa feminina confeccionada com menos de 1 metro de tecido. Parte das fotos e alguns modelos brasileiros estão expostos desde a semana passada em São Paulo, no Istituto Europeo di Design. Belas mulheres, trajes sumários e os suspiros saudosistas que acompanham praticamente tudo que tenha mais do que cinco anos de vida – como são fugazes os modismos do biquíni – formam um conjunto irresistível.

Ursula e seu biquíni branco: símbolo universal

Estão no livro os primeiríssimos biquínis de que se tem notícia, mostrados num mosaico romano do século IV em que duas mulheres, saiote e bustiê exíguos, praticam esportes. Kelly também relata a conhecida disputa entre dois franceses pela invenção do sucessor do duas-peças (diferença: o modelo transgressor descia barriga abaixo até mostrar o ponto U, de umbigo), dias depois do teste americano com uma bomba atômica no Atol de Bikini, no Pacífico – primeiro, Jacques Heim apresentou o "atome" como "o menor maiô do mundo"; em seguida, Louis Réard mostrou o "bikini, menor que o menor maiô do mundo", e ficou com a fama. Escandaloso para a época, o biquíni primeiro ganhou fama no cinema, em deusas sensuais que as mulheres admiravam, mas não imitavam. Jayne Mansfield, 104 de busto – e o mesmo número de neurônios, diziam os ressentidos –, foi a precursora que avançou um pequeno centímetro até mostrar o umbigo, proibido pelo código que regia o cinema americano, em filmes e fotos – sendo uma das mais famosas a de biquíni de oncinha, no ombro do marido, Mickey Hargitay, no fim dos anos 50.

(Des)vestindo Fernanda: da praia para as revistas, como artigo de luxo

Na mesma época, o modelão de Jayne já parecia pré-histórico se comparado ao sopro revolucionário promovido pelo diretor francês Roger Vadim, que desvestiu sua então mulher Brigitte Bardot em biquínis já mais parecidos com os de verdade (e sem eles também), disseminando o uso dos dois pedacinhos de pano primeiro na Riviera Francesa e depois no resto do universo conhecido. Em poucos anos, o desfile de biquínis em praias e telas se tornaria absolutamente corriqueiro, embora até hoje ninguém deixe de perder o fôlego diante da legendária imagem de Ursula Andress emergindo das ondas em O Satânico Doutor No, de 1962, para se transformar em símbolo mundial do poder do biquíni. Um poder entendido, trabalhado e exercido em todos os seus minúsculos detalhes no Brasil (prova máxima: a modelo Fernanda Tavares, gloriosa, em foto de moda tirada pelo badalado ex-marido de Kelly, o francês Gilles Bensimon). Tanga, asa-delta e fio-dental são algumas das contribuições nacionais exaltadas no livro. Como em muitas das grandes invenções, o acaso teve seu papel. David Azulay, 53 anos, dono da primeira (1972) marca de biquínis do país, a Blueman, não leu The Bikini Book, mas estava lá e lembra como as brasileiras começaram a encolher o que já era mínimo. "Num verão, apareceu o biquíni de crochê, que ficava todo torto quando molhava. Para segurar no lugar, as mulheres enrolavam a lateral. Assim nasceu a tanga", conta. O resto é história.

 
 
 
 
topovoltar