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Edição 1977 . 11 de outubro de 2006

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Ginástica
Os choquinhos da boa forma

A eletroestimulação chega às academias
de ginástica para melhorar os resultados
da malhação


Anna Paula Buchalla

Fabiano Accorsi
Daniela Franco, durante seu treino diário, com o aparelho: no caso dela, a eletroestimulação serve para evitar que seus músculos inflem demais


Você se esfalfa na esteira, sua a camiseta nos aparelhos e, apesar de todo o esforço, apenas 70% dos músculos que interessam ao espelho são trabalhados pela ginástica. Não adianta: o corpo tem seus limites e, sem aditivos, não se vai além disso. Utilizar 100% das fibras musculares durante o exercício físico, fora do âmbito das fraudes químicas, é uma questão sobre a qual a ciência do esporte tem se debruçado há pelo menos três décadas. Os melhores resultados foram obtidos por intermédio da eletroestimulação. Criados nos anos 70, os dispositivos que estimulam músculos foram projetados inicialmente para atender portadores de atrofias causadas por deficiências motoras e vítimas de paralisia. Numa etapa seguinte, eles passaram a ser usados por atletas de alta performance como forma de otimizar o treinamento. E agora... Sim, seus problemas acabaram: a eletroestimulação está no cardápio de academias de ginástica, à disposição de quem busca braços e pernas torneados e abdômen do tipo "tanquinho". A técnica evoluiu tanto que, hoje, é possível acionar até 95% das fibras musculares, de acordo com William Morales, especialista em fisiologia do exercício.

O princípio da eletroestimulação é simples: eletrodos colocados sobre a musculatura a ser exercitada são ligados por fios a um equipamento do tamanho de um palm – na verdade, um computador capaz de enviar estímulos elétricos diretamente aos músculos. A quantidade de áreas trabalhadas depende da intensidade do impulso elétrico – quanto menor a freqüência, mais fortes são os estímulos e maior será o número de fibras ativadas. Inclusive aquelas das camadas mais profundas, que não respondem aos exercícios simples. A eletroestimulação é contra-indicada para pacientes cardíacos e portadores de marca-passo. Para quem não apresenta esses problemas, o único inconveniente é sair da sessão de ginástica com algumas marcas roxas espalhadas pelo corpo, provocadas pela pressão dos eletrodos sobre a pele.

É bom deixar claro que a eletroestimulação de academia não tem nada a ver com aquelas geringonças vendidas na televisão que prometem um corpo sequinho e bombado sem a necessidade de atividade física. Pensando bem, seus problemas não acabaram: inexistem milagres quanto à forma física. Só sangue, suor e, talvez, algumas lágrimas. Para não falar de choques. "A eletroestimulação é um complemento aos exercícios. Serve para potencializá-los", diz Filippo Dutto, importador do aparelho suíço Compex, uma das três marcas já presentes no mercado brasileiro. Um mesmo aparelho é programável para várias funções, dependendo das conveniências e necessidades do usuário. Há regulagens diferentes para hipertrofia, força ou resistência, entre outras possibilidades. O preço encaixa-se no primeiro caso – é hipertrofiado (a menos, claro, que você seja uma Lucilia Diniz). Um dispositivo custa entre 1 000 e 5 000 reais. Os fabricantes de alguns modelos vendem a idéia de que a eletroestimulação também acelera a eliminação de ácido lático, responsável pela sensação dolorosa do dia seguinte. Só falta fazer laranjada... Ou melhor, laranjada, não, que engorda. Açaí com guaraná.

Os dispositivos aumentam músculos, mas podem, ainda, evitar que eles inflem demais. Pois é, talvez não seja o seu caso, leitor, mas há quem, por obra da genética, tem propensão a ganhar massa muscular com mais facilidade. "A eletroestimulação foi a maneira que encontrei para manter as formas definidas sem virar um brutamontes", diz Daniela Franco, que se exercita com o auxílio do equipamento. Vai um choquinho aí?

 

 

O EFEITO MASSARANDUBA

Por que será que, à visão de um sujeito marombado sendo arrastado por seu pit bull, ao estilo Massaranduba, do programa Casseta & Planeta, pensa-se logo num ser, digamos, de argumentos frágeis? Para além do preconceito (coitadinhos dos fortões) e de alguma constatação empírica, vá lá, a ciência parece ter uma resposta. Testosterona em excesso pode matar neurônios, dizem pesquisadores da Universidade Yale. O hormônio, lembre-se, é a base dos principais anabolizantes utilizados para inflar músculos. A descoberta, publicada no Journal of Biological Chemistry, uma revista científica americana, ajuda a explicar o motivo que leva alguns espécimes masculinos a ter uma agressividade proporcional ao tamanho de seus músculos. Com menos neurônios, eles ficariam mais propensos a mudanças abruptas de humor. Nas doses certas, produzidas pelo organismo, testosterona é essencial. Mas testes de laboratório mostram que, em níveis acima dos desejáveis, o hormônio faz com que os neurônios acabem se autodestruindo, num processo parecido com o que acontece com as vítimas do Alzheimer. Morrem por apoptose, uma espécie de suicídio celular. A testosterona é o bad boy da vez na área hormonal. Numa revisão de uma centena de estudos, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia concluíram que níveis elevados desse hormônio estão associados também a comportamentos de risco, como fumar, beber e, a reforçar a pesquisa de Yale, envolver-se em brigas e acidentes. "Por isso, da próxima vez que um bombadão o fechar no trânsito, não se irrite. Respire fundo e pense que não é culpa dele", escreveu a pesquisadora Barbara Ehrlich. A culpa é da falta de neurônios, por causa do excesso de testosterona. Mas não diga isso ao moço, que ele pode agir como o Massaranduba.

 
 
 
 
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