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Especial
O risco é de 1 em 200 milhões
Essa é a possibilidade matemática
de que dois
aviões se choquem a mais de 10 quilômetros
de altura. No caso do Boeing da Gol, começa-se
a elucidar a seqüência de erros que culminou
na pior tragédia da aviação brasileira

Rafael Corrêa e Rosana Zakabi
Eraldo Peres/AP
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| Destroços do Boeing na selva de Mato
Grosso: o avião se despedaçou no ar e 154 corpos
se espalharam num raio de 20 quilômetros |
Décadas de estudos sobre
acidentes aéreos mostram que um erro não derruba avião.
É preciso que quatro ou cinco falhas se combinem para produzir
uma tragédia. Foi o que aconteceu na sexta-feira, 29 de setembro
passado, quando um Boeing 737-800 da companhia aérea Gol,
que fazia o vôo 1907 entre Manaus e Brasília, se espatifou
na selva amazônica depois de se chocar com um jatinho Legacy
que voava no sentido contrário. Todos os 148 passageiros
e seis tripulantes do Boeing morreram, fazendo do desastre o maior
da história da aviação brasileira. O Legacy
sofreu avarias na extremidade da asa esquerda e na cauda e conseguiu
fazer um pouso de emergência numa base da Força Aérea
Brasileira ao sul do Pará. Seus cinco passageiros, o piloto
e o co-piloto saíram ilesos. Ambos os aviões eram
novos em folha. O 737 da Gol, entregue no início de setembro,
tinha apenas 200 horas de vôo. O Legacy, modelo executivo
fabricado pela Embraer em São José dos Campos, fazia
o seu vôo inaugural com destino aos Estados Unidos, onde seria
entregue ao comprador, uma empresa de táxi aéreo.
Como é possível
ocorrer um choque entre dois aviões de última geração,
dotados da mais moderna tecnologia, voando numa área de baixo
tráfego aéreo e em céu de brigadeiro? O mistério
será esclarecido. Três das quatro caixas-pretas
onde são gravados os dados do vôo e as conversas dos
pilotos dos dois aviões foram recuperadas. Os controladores
de vôo estão sendo interrogados e as imagens de radar
deixadas pelos aviões nos centros de rastreamento civis e
militares estão preservadas. Tragédias muito mais
misteriosas do que essa, que deixaram sinais apenas tênues
dos acontecimentos, foram cabalmente esclarecidas. É questão
de tempo até que as autoridades possam reconstituir cada
detalhe do fatídico vôo 1907.
Brazilian Air Force/Handout/Reuters
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| Militares com a caixa-preta do Boeing |
Até a sexta-feira passada,
porém, tudo o que se podia fazer era eliminar as hipóteses
mais absurdas e focalizar as evidências mais sólidas
já produzidas pelos investigadores do acidente. Os dados
disponíveis permitiam traçar a explicação
mais provável para o acidente. O erro número 1, sobre
o qual não pairam dúvidas, é que o Legacy voava
fora da altitude recomendada. Todo avião que cruza os céus,
em qualquer parte do mundo, é obrigado a seguir o seu plano
de vôo, um conjunto de instruções que inclui
a altitude, a velocidade e o trajeto que o aparelho deve percorrer
para ir de um aeroporto a outro. O plano de vôo serve também
para os centros de controle em terra monitorarem o tráfego
aéreo, evitando que duas aeronaves trafeguem em rota de choque.
No caso do acidente na Amazônia, o Legacy voava a 37.000 pés
de altitude, a mesma do Boeing da Gol, quando seu plano de vôo
prescrevia 36.000 pés. Esse equívoco surpreende também
porque na rota em que estavam, que é de sentido duplo, os
aviões trafegam em altitudes de número par
as de número ímpar são reservadas às
aeronaves que rumam para o sul. Como o Legacy voava de São
José dos Campos, no interior de São Paulo, para Manaus,
onde faria uma escala, o piloto jamais poderia seguir numa altitude
medida em número ímpar.
Os controladores de vôo
do Cindacta 1 órgão responsável pela
fiscalização dos vôos em boa parte do Sudeste
e no Centro-Oeste do país dizem ter tentado entrar
em contato com o Legacy várias vezes, pelo rádio,
depois que a aeronave passou pelo espaço aéreo sobre
Brasília. Seu objetivo era avisar ao piloto que ele deveria
baixar 1.000 pés, até alcançar a altitude correta.
Os controladores afirmam que não obtiveram resposta. Minutos
depois, nova surpresa: os controladores teriam constatado que, a
bordo do Legacy, o aparelho chamado transponder, que transmite os
dados sobre velocidade, altitude e rota para outros aviões
nas imediações e para as bases em terra, não
estava funcionando. Sem o transponder ativo, o controle terrestre
não consegue detectar a altitude correta do avião
conta apenas com os dados pouco precisos fornecidos pelos
radares básicos, que enxergam os aviões como pontos
no céu.
Fotos Força Aérea Brasileira
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| O Legacy conseguiu descer na base militar
do Cachimbo, mesmo sem parte da asa e da cauda (detalhe).
O piloto Joe Lepore (de camiseta branca) e o co-piloto
Jan Paladino (de boné) estão proibidos de deixar o Brasil
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Marcos Xavier/TV Cidade Verde/AE
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A impressão dos controladores
do Cindacta foi a de que o piloto do Legacy ignorou os chamados
por rádio e preferiu desligar o transponder para voar sem
monitoramento terrestre. E que motivos ele teria para isso? Segundo
fontes da Aeronáutica, uma das hipóteses é
que o piloto estaria testando o avião no primeiro vôo
do aparelho, e para isso teria de fazer manobras que fugiriam ao
plano de vôo. Sem o transponder, essas manobras ficariam invisíveis
ao comando de terra. A terceira surpresa viria após o acidente,
quando o transponder voltou a funcionar, permitindo que o piloto
emitisse sinais de emergência para os radares e pedisse socorro.
O piloto do Legacy, Joe Lepore,
e o co-piloto, Jan Paul Paladino, ambos americanos e funcionários
da empresa de táxi aéreo que comprou o Legacy, admitiram
na semana passada que voavam a 37.000 pés, mas negam com
veemência que tenham desligado o transponder ou desprezado
as tentativas do Cindacta 1 de chamá-los por rádio.
Sua versão é oposta à dos controladores. Lepore
e Paladino dizem que, ao cruzar os céus de Brasília,
tentaram repetidamente contatar o controle em terra para confirmar
se deveriam mudar de altitude, sem sucesso. Segundo eles, como não
conseguiram contato, optaram por manter a aeronave em 37.000 pés
altura determinada pelo plano de vôo para o trecho
entre São José dos Campos e Brasília. A Aeronáutica
admite que há falhas de comunicação na região
em que ocorreu o acidente, mas alega que elas não chegam
a impossibilitar o contato dos controladores de terra com as aeronaves
que cruzam a região diariamente.
Ana Claudia Jatahy
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| A amazonense Helen Garcia, de 37 anos, foi
vítima de dois acidentes aéreos. O primeiro, quando tinha 1
ano de idade. Ela havia contraído coqueluche e acreditava-se
então que as bactérias morriam em altas altitudes. Por isso,
as crianças doentes eram embarcadas em vôos. O avião caiu na
floresta e os passageiros foram resgatados pelos índios. Na
semana passada, Helen voava com o marido, o procurador Mário
Braule Pinto, e o filho Pedro Henrique, de 4 anos, no avião
da Gol |
Há duas hipóteses
para o transponder do Legacy ter ficado inoperante após passar
por Brasília. A primeira: o piloto o desligou. A segunda:
o equipamento teve problemas técnicos. De qualquer forma,
sua falta acarretou uma nova etapa na seqüência de erros
que resultou no desastre. Sem o transponder, o sistema anticolisão
dos aviões atuais, chamado TCAS, fica inoperante. O TCAS
monitora os aviões num raio de até 50 quilômetros
e informa o piloto sobre o risco de eventuais colisões. Quando
o choque é iminente, o aparelho aciona um alarme e informa
o piloto sobre a melhor manobra de evasão a ser feita. Para
que dois aviões em rota de colisão não façam
a mesma manobra de fuga e acabem se chocando, os TCASs "conversam"
entre si e "tomam" decisões conjuntas. Só que o TCAS
depende do transponder para funcionar. Como o transponder do Legacy
estava desligado ou com defeito, o TCAS do Boeing não conseguiu
detectar sua aproximação e desviar.
Álbum de família
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| A botânica paraense Ângela Conte
Leite, 55 anos (na foto com as filhas e o marido), reservou
o fim de semana para viajar com o filho, Mário Lleras,
25 anos, e o neto Daniel Lleras, de 5 anos, para visitar outra
filha em Brasília. "De uma hora para outra, a família
perdeu representantes de três gerações",
diz Inocêncio Gorayeb, cunhado de Ângela |
Depois de quinze minutos de vôo
sem transponder nem TCAS, o Legacy chocou-se com o Boeing. A hipótese
mais provável é que a ponta dobrada da asa esquerda
chamada winglet e a ponta do estabilizador
esquerdo do jato executivo tenham atuado como navalhas que cortaram
e arrancaram um pedaço da asa esquerda do Boeing. O que dá
sustentação aerodinâmica ao avião é
a diferença de pressão acima e abaixo das asas. Sem
parte de uma delas, o aparelho se desgoverna e entra em queda, uma
espiral fatal em direção ao solo. Boa parte do combustível
do Boeing, que fica nas asas, teria se dispersado pelo ar
por isso não haveria ocorrido a explosão da aeronave.
Devido à violência do mergulho, o avião começou
a se despedaçar em pleno ar, espalhando destroços
num raio de 20 quilômetros. É quase certo que houve
despressurização da cabine depois do choque, reduzindo
bruscamente os níveis de oxigênio. Numa situação
como essa, os passageiros perdem a consciência em cerca de
um minuto. Em menos de cinco minutos ocorre a morte por falta oxigênio.
Portanto, é possível que os passageiros, ou parte
deles, tenham chegado ao solo já sem vida.
Álbum de família
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A psicóloga Joana Batalha Ignácio,
de 28 anos, queria fazer uma visita-surpresa para a mãe,
Maria de Fátima Batalha, em Belo Horizonte. Pegaria o
vôo até Brasília e, de lá, seguiria
para a capital mineira. Por isso, antes de embarcar, ligou para
a mãe dizendo que não poderia visitá-la
por causa de trabalho. "Quando soube da queda do avião,
não imaginava que minha única filha poderia estar
nele", diz Maria de Fátima |
Mesmo que tenha havido contato
visual entre as duas aeronaves antes do choque, a velocidade com
que se aproximaram tornaria inviável uma manobra de desvio
eficaz. O Legacy e o Boeing voavam a uma velocidade média
de 800 quilômetros por hora. As duas velocidades somam 1 600
quilômetros por hora, mais do que alcança uma bala
de pistola 9 milímetros. Também seria impossível
que uma das aeronaves ouvisse o ruído da outra se aproximando
a soma de suas velocidades é superior à da
propagação do som no ar. No momento do acidente, os
tripulantes do Legacy sentiram um choque forte e ouviram um ruído
seco, mas não se deram conta de que haviam batido em outra
aeronave. A seguir, constataram as avarias na asa e no estabilizador.
Três minutos depois da colisão, o piloto emitiu um
sinal de emergência do transponder para os radares do sistema
aéreo. Eles acabaram pousando 25 minutos depois, na base
aérea de Cachimbo, no Pará. Só após
o pouso souberam que haviam abalroado um Boeing, causando um desastre
com 154 mortos.
Jovino Braga
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| A médica paraibana Fabiana Calandrini,
32 anos, viajaria para Brasília com o marido, o médico
Denis Calandrini, e o filho, João, de 1 ano e 6 meses
(com ela na foto acima), para a cerimônia de casamento
do irmão de Fabiana, marcada para este fim de semana.
Na última hora, Calandrini precisou adiar a viagem devido
a um imprevisto no trabalho. Assim, Fabiana e o filho tiveram
de embarcar sozinhos. O médico ficou de encontrá-los
depois, na Paraíba |
Choques de aviões em pleno
ar são raros. Geralmente ocorrem nas proximidades dos aeroportos
e envolvem um avião grande e um pequeno. Colisões
em grandes altitudes e velocidade de cruzeiro, como a que envolveu
o Boeing da Gol, são ainda mais escassas. Desde os anos 60
ocorreram apenas dois outros desastres nessas condições.
Um deles foi nas proximidades de Nova Délhi, na Índia,
em 1996, envolvendo um Ilyushin russo com bandeira do Cazaquistão
e um Boeing 747 saudita. As investigações concluíram
que o avião cazaque voava na altitude errada e que o piloto
não cumpriu as instruções do controle de tráfego
aéreo. A segunda colisão aconteceu na fronteira da
Suíça com a Alemanha, em 2002, entre um Boeing 757
de carga e um Tupolev russo. O inquérito concluiu que o acidente
foi provocado por um erro do controlador da torre de Zurique. O
cruzamento do número de trombadas no ar com o de vôos
realizados pela aviação comercial nos últimos
cinqüenta anos mostra que o risco de acontecer uma colisão
entre aviões em grande altitude e velocidade de cruzeiro
é de 1 em 200 milhões.
Álbum de família
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| O estudante de medicina Átila Antônio
Assad Rezende, de 24 anos, planejava chegar à cidade
de Rubiataba, em Goiás, para marcar a data de casamento
na igreja que freqüentava desde criança. Ele e a
noiva, Flávia Máximo, se casariam em dezembro.
"Antes de embarcar, ele pediu para eu rezar muito porque seria
um mês difícil", diz Flávia (na foto
com Átila). "Tive uma sensação ruim
e insisti para que não embarcasse" |
No jato Legacy, além do
piloto e do co-piloto, estavam dois funcionários da área
comercial da Embraer, a fabricante do avião, dois sócios
da empresa de táxi aéreo que adquiriu o aparelho e
um colunista do jornal The New York Times, Joe Sharkey, especializado
em aviação e negócios. Como as investigações
sobre o acidente correm sob sigilo na Aeronáutica, o repórter
americano tornou-se a única testemunha da colisão
a expor publicamente sua versão dos acontecimentos. Ao voltar
a Nova York, Sharkey publicou um artigo no qual descreve o vôo
do Legacy, o momento do choque e os dramáticos 25 minutos
que transcorreram até a aeronave localizar um campo de pouso
e aterrissar. O jornalista aplaude o trabalho do piloto e do co-piloto
durante a situação de emergência e os classifica
de heróis. Para a Justiça brasileira, os heróis
podem ser, na verdade, vilões. Na semana passada, a Polícia
Federal apreendeu os passaportes de Joe Lepore e Jan Paladino para
evitar que eles deixem o país até que as circunstâncias
do acidente sejam esclarecidas. Caso fique provado que eles desligaram
o transponder do Legacy impedindo que o TCAS do Boeing da
Gol detectasse sua presença na mesma rota e que se
recusaram a receber instruções pelo rádio,
serão acusados de homicídio culposo por causar o choque
que derrubou o avião da Gol. Nas próximas semanas,
a seqüência de erros que provocou o desastre com o vôo
1907 da Gol será esclarecida. Acidentes sempre ocorrerão,
mas espera-se que da elucidação das causas da tragédia
surjam dados e ensinamentos que tornem as viagens aéreas
ainda mais seguras.
Com reportagem de
Érica Chaves, Leoleli Camargo e
Leonardo Coutinho
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