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Brasil | Eleições
2006 Como seria a economia sob Alckmin Ele
já tem um plano para destravar investimentos, fortalecer agências
reguladoras e cortar gastos públicos
 Giuliano
Guandalini e Julia Duailibi Tom
Dib/Futura Press
 | A
TESOURA DE ALCKMIN O ex-governador e Yoshiaki
Nakano: assessor é um exímio cortador de gastos |
Há pouca dúvida de que a maioria absoluta dos empresários
torce pelo tucano Geraldo Alckmin na disputa presidencial. Ele coordenou em São
Paulo o programa de privatizações e uma das mais ousadas reformas
administrativas do país. Apesar disso, os próprios empresários
não sabem ao certo quem seriam afinal seus mentores econômicos e
quais as suas idéias sobre questões federais que não fazem
parte do cotidiano de um governador como câmbio, abertura comercial
e juros. Volta e meia essas incertezas se convertem em preocupações,
quando Alckmin critica os "juros altos" do Banco Central e a valorização
"excessiva do câmbio". O ex-governador entrou na disputa presidencial sem
convicções claras sobre esses temas e, justamente para formá-las,
manteve nos últimos meses encontros com economistas de várias tendências.
VEJA apurou o que foi falado em parte desses encontros e entrevistou assessores
responsáveis pelo programa econômico do candidato. Disso tudo surge
a imagem de um político muito mais pragmático e menos voluntarista
em questões cambiais e monetárias do que seus discursos eleitorais
iniciais podem sugerir. Seu projeto de crescimento econômico não
contempla intervenções em juros ou câmbio e se concentra hoje
em duas medidas. A primeira é um choque regulatório emergencial
para enterrar as aberrações ideológicas do PT de modo a dar
segurança de longo prazo e atrair investimentos privados. A segunda é
colocar em prática um programa para zerar o déficit público
em quatro anos. O plano tucano prevê
maior participação da iniciativa privada na exploração
de petróleo e gás, assim como na geração térmica.
Com relação ao agronegócio, a idéia é liberar
em definitivo o plantio de transgênicos e fortalecer o foco da agricultura
em escala industrial. Esses são alguns dos planos de Alckmin para atrair
investidores. Para sua equipe, causa surpresa que, apesar de sobrar dinheiro no
mundo, os investimentos privados no Brasil não decolem com o ímpeto
esperado. Parte da resposta está na desmoralização das agências
e na diminuição de seu papel sob o governo Lula. Criadas nos anos
90 para ser órgãos de Estado com vida própria em qualquer
que fosse o governo, as agências foram solapadas sob o lulismo. O papel
delas é dar um horizonte de tempo mais amplo às regras do jogo em
setores que requerem investimento pesado e retorno de longo prazo caso
do petróleo, da energia elétrica e dos transportes. Dessa forma,
o risco de investir se torna menor e o negócio, mais atraente.
Além da incerteza jurídica e regulatória, a equipe de Alckmin
aponta o desequilíbrio nas contas públicas federais como uma trava
ao investimento. O governo funciona no vermelho, drena o crédito disponível,
encarece o custo do dinheiro e eleva os juros, minando assim o potencial de crescimento
do país. A meta seria zerar o déficit público, mas existe
o entendimento de que botar as contas em dia não será fácil.
Por essa razão o pacote regulatório seria anunciado antes mesmo
da posse, para "colocar a roda de investimentos para girar até que a parte
fiscal seja consertada", como resume um integrante da equipe. Com a melhora da
gestão, os tucanos acreditam ser possível cortar gastos de até
3% do PIB (cerca de 60 bilhões de reais ao ano) ao longo do mandato, sem
uma única reforma constitucional. Outra vertente importante no projeto
é a política de comércio exterior. Os acordos comerciais
seriam pautados pelo pragmatismo, de olho no retorno econômico, deixando
de lado a politização ideológica de hoje.
Marcio
Fernandes/AE
 | CHOQUE
REGULATÓRIO Mendonça de Barros: resgate da confiança
do investidor enquanto o ajuste fiscal não chega |
Essas são as idéias que guiam o plano econômico tucano.
O programa teve a colaboração de diversos economistas, mas os seus
dois principais formuladores foram Yoshiaki Nakano e José Roberto Mendonça
de Barros. São eles que provavelmente estarão à frente da
equipe econômica num eventual governo tucano. Nakano, professor da Fundação
Getulio Vargas, foi secretário da Fazenda paulista no governo Covas e coordenou
todo o processo de ajuste das contas estaduais. É um dos mais eficientes
cortadores de despesas do setor público. Diz-se dele que prefere identificar
e cortar gastos excessivos a discuti-los, como fazem vários economistas
de renome. Apesar desse histórico, o nome de Nakano não é
unanimidade entre os economistas. Ele é autor de inúmeros artigos
com idéias heterodoxas, escritos em parceria com o também tucano
Luiz Carlos Bresser-Pereira. Diz Paulo Leme, diretor do banco americano Goldman
Sachs: "Não me preocupo com Nakano. Quem assume o comando da economia percebe
logo a real dimensão dos desafios e evita os danos causados por idéias
aventureiras". José Roberto Mendonça de Barros foi secretário
de Política Econômica no governo FHC, mas desentendeu-se com o ministro
Pedro Malan e deixou o cargo, em 1998, por discordar da política de real
valorizado. É craque em econometria portanto, sabe fazer contas
, além de ser especialista em infra-estrutura e agronegócio.
Alckmin já tem um projeto econômico
quase fechado. Seu problema parece ser o fogo amigo. Com as contas em dia e de
olho no Planalto, ele previu a ampliação dos investimentos públicos
em 2006. São várias as obras em andamento, como a nova linha do
metrô, a calha do Tietê e o novo trecho do Rodoanel. O fechamento
equilibrado das finanças dependia da venda de 20% das ações
da Nossa Caixa, prevista desde o ano passado. Cláudio Lembo, que era vice
de Alckmin e assumiu o governo, decidiu adiar a operação, pressionado
pelo também tucano José Serra, governador eleito. Serra não
esconde de ninguém que é contra a venda de patrimônio estatal
para fechar buracos orçamentários. Sua interferência para
impedir o prosseguimento da venda das ações vai produzir uma rachadura
na imagem de gestor eficiente de Geraldo Alckmin. O leilão das ações
ficou para 2007. Se Serra decidir, então, reativar o leilão das
ações da Nossa Caixa, Geraldo Alckmin terá o direito de concluir
que foi vítima de fogo amigo às vésperas do duro duelo com
Lula pelo segundo turno das eleições presidenciais.
UM GUIA PARA O DEBATE PRESIDENCIAL Candidatos
à reeleição tendem a enaltecer conquistas administrativas
que nem sempre passam pelo crivo da realidade. Já os desafiantes costumam
subestimar os feitos administrativos de seus adversários. Abaixo estão
alguns dos tópicos que deverão ser abordados pelo candidato Lula
ao comentar a administração do presidente Lula. Veja quais fatos
são verdadeiros ou não 1
- MISÉRIA "8,4 milhões de pessoas
saíram da miséria entre 2003 e 2005" MENTIRA
Os dados oficiais mostram que cerca de 5 milhões de pessoas saíram
da linha de pobreza devido ao crescimento do emprego formal e ao controle da inflação.
Elas passaram a ganhar mais de 2 dólares por dia. O PT divulga um número
bem maior, de 8,4 milhões de pessoas, porque adiciona os beneficiários
do Bolsa Família. É um truque político dizer que, pelo fato
de receberem uma assistência dessas, milhões de pessoas ultrapassaram
a linha de pobreza. É justamente o contrário. O Bolsa Família
é um atestado de pobreza 2
- ENERGIA "O governo levou energia elétrica
a 3,7 milhões de pessoas em todo o país. A Petrobras alcançou
a auto-suficiência" E OS
PROBLEMAS? A destruição das agências reguladoras e
o discurso estatizante secaram os investimentos em geração de energia.
No governo Lula não foi iniciado nenhum projeto de geração,
e especialistas já temem um novo apagão. A Petrobras bateu recorde
de produção, mas o país só atingiu a auto-suficiência
porque a economia cresceu pouco 3
- MACROECONOMIA "O Brasil nunca viveu um momento
com uma combinação de fatores positivos como o atual"
VERDADE Pela primeira vez em sua história
econômica recente a economia brasileira tem, ao mesmo tempo, superávit
comercial, crescimento do consumo interno e inflação em queda
4 - JUROS "A
taxa de juros do governo Lula é menor que a de FHC"
MEIA VERDADE A Selic (taxa básica) realmente
recuou no governo Lula, mas a taxa real (aquela que, por descontar a inflação,
é a que pesa no bolso do tomador de empréstimos) chegou a ser menor
no segundo mandato de FHC do que durante o governo Lula 5
- IMPOSTOS "Não houve aumento de impostos"
MENTIRA O Estado brasileiro
nunca arrecadou tantos impostos. No ano passado, o contribuinte pagou 364 bilhões
de reais só em tributos federais. Além disso, com Lula as importações
começaram a pagar PIS e Cofins antes eram isentas desses tributos.
Na prática, o governo reduziu impostos no varejo e aumentou a arrecadação
no atacado 6 - INFLAÇÃO
"Em 2002, a inflação ficou em 12,5%,
e neste ano fechará bem abaixo da meta de 4,5%"
VERDADE Lula chegará ao fim do mandato com
o governo de menor inflação da história do país, o
que elevou o poder de compra dos mais pobres. Isso só foi possível
por causa da autonomia operacional do Banco Central algo que o Partido
dos Trabalhadores vê com péssimos olhos e nem o presidente engole
muito 7 - EMPREGO "O
governo criou 7,5 milhões de empregos. Desses, 5,5 milhões foram
empregos formais" MEIA VERDADE
Os empregos realmente cresceram no governo Lula. Mas o governo mistura
dados de fontes diferentes e cria confusão. Usa, primeiro, números
da Pnad para chegar a 3,8 milhões de empregos em 2003 e 2004. Para 2005,
utiliza os números do Caged. Depois, faz uma estimativa inflada para 2006
8 - REFORMA AGRÁRIA
"260 000 famílias foram assentadas. O orçamento
para reforma agrária recebeu um aumento de 255%" EM
TERMOS O governo assentou oficialmente 260 000 famílias, mas os
números são superestimados, pois contabilizam projetos antigos e
famílias que já ocupavam a terra havia anos. Além disso,
a dinheirama é desviada para o MST e entidades afins 9
- AGRICULTURA FAMILIAR "No último ano de
FHC o Pronaf recebeu 2,4 bilhões de reais, enquanto no seu governo foram
investidos 7,5 bilhões de reais na última safra"
SIM, MAS CADÊ O DINHEIRO? Para obter as verbas
do Pronaf, o trabalhador rural tem de seguir algumas regras, entre as quais ser
sindicalizado. Leia-se: ligado à companheirada da CUT. Sob o pretexto de
realizar o Pronaf, o governo também aparelha ideologicamente a Embrapa
10- SALÁRIO MÍNIMO
"Teve o maior aumento real dos últimos doze anos"
VERDADE PREOCUPANTE Nos
quatro anos de governo Lula, o aumento do salário mínimo correspondeu
a 1,5 vez a inflação acumulada, um recorde no período. Só
que as despesas do INSS explodiram porque os vencimentos previdenciários
estão ligados ao mínimo. Sem aumentar o mínimo acima da inflação,
o rombo do INSS teria ficado em 12 bilhões de reais no ano passado, em
vez de 38 bilhões de reais | | |