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O casamento morreu.
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Elena Vetorazzo![]() |
| Passo à frente: amadurecidos, casais exigem afinidade e respeito na vida conjugal |
Está fazendo um ano que Hillary Clinton passou pela suprema humilhação:
seu marido, Bill, presidente dos Estados Unidos, admitiu em rede internacional
de televisão tê-la traído com uma sirigaita gordota de 20 anos, praticamente
dentro de casa. Pois, na semana passada, ao tocar pela primeira vez no
assunto em uma entrevista na edição de lançamento da revista Talk,
Hillary perdoou as "fraquezas do marido". Atribuiu suas aventuras
extraconjugais a vagos traumas de infância e disse que Clinton é "um
homem muito bom". Agora, vamos lá: você perdoaria? Provavelmente
não, dizem os especialistas. "Traição é o motivo número 1 das separações.
A mágoa que fica é insuperável", afirma a psicoterapeuta mineira
Thereza Rezende. E, nos dias de hoje, pouca gente está disposta a aturar
tanto dissabor em nome da preservação do casamento. Seja por infidelidade,
ciúme excessivo, sexo mal resolvido, disparidades financeiras ou puro
e simples tédio, cada vez mais raro é o casal que acerta na primeira troca
de alianças e passa o resto da vida junto. A primeira conclusão, quando
se toca nesse assunto, é que casamento é instituição falida, sem futuro,
ameaçada de extinção. Engano. O que mudou, isso sim, foi o conceito do
"casamento que dá certo". Na visão fim de século do matrimônio,
ele pode muito bem ser feliz, ser firme, gerar filhos –
e acabar. Mais ainda: vencida a notória dificuldade (principalmente feminina)
de arranjar novo parceiro, nada impede que o descasado, ou a descasada,
se case e seja feliz de novo – até, quem
sabe, a próxima separação.
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| Hillary, a traída, na Talk: "franqueza" |
Somada a ancestral necessidade de ter um parceiro com a enorme naturalidade com que as pessoas hoje em dia se casam, descasam e casam de novo, o resultado é que nunca foi tão grande o número de casais vivendo juntos sem passar pelo cartório ou pela igreja. Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, feito com base em números coletados, em 1996, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, revela que entre os jovens brasileiros de 25 a 35 anos 69% têm um cônjuge. É mais do que na faixa das pessoas entre 55 e 65 anos, em que 68% são casados. Agora, a diferença do passado. No time dos mais jovens, já atingem 31% as chamadas uniões informais, aquelas em que homens e mulheres juntam trapos, livros, discos, escovas de dentes, sem papel passado. Os paulistas Deborah Lopes, produtora de moda de 26 anos, e Sergio Garcia, 39 anos, modelo, moram juntos há dois anos. Usam aliança e tudo, mas não são legalmente casados. "Nosso compromisso é com a gente mesmo", argumenta Deborah. "A aliança funciona como lembrança da nossa relação e de tudo de bom que temos construído juntos." O economista Marcelo Neri, que coordenou o estudo do Ipea, diz que casos como o de Deborah e Sergio ilustram uma mudança expressiva. "Está havendo uma reforma geral na maneira de as pessoas se relacionarem", diz o pesquisador.
Antônio Milena![]() |
| Deborah Lopes e Sergio Garcia, de São Paulo
Ele (segundo casamento): "Nem tudo é rosa, mas não dá para falar tchau na primeira briga" |
A mudança está, principalmente, no tipo de relacionamento que se busca.
Saem as juras de amor eterno, a mulher obediente, o marido provedor de
tudo. Entram as exigências de afinidade, sexo satisfatório, respeito e
divisão de despesas. Se tudo isso existe, e se reforça com o tempo, bem.
Se o casamento não tem essas coisas, cada um vai para o seu lado, atrás
de nova tentativa. De preferência, sem grandes traumas. "Casamento
que funciona é aquele que dá certo por determinado período", argumenta
o psicólogo John Gottman, professor da Universidade de Washington e autor
de Os Sete Princípios que Fazem o Casamento Funcionar, livro de
sucesso nos Estados Unidos que já foi vendido para dez países, inclusive
o Brasil, onde tem lançamento previsto para setembro. "As pessoas
andam mais exigentes nas relações e só ficam juntas se estão felizes de
verdade", afirma Gottman, que pesquisa o assunto há 25 anos e se
diz feliz de verdade em treze anos de um segundo casamento. "Aprendi
um pouco com cada uma das minhas mulheres", confirma o recordista
ator e diretor Denis Carvalho, 52 anos, que se casou sete vezes e vive
há dez anos com a atriz Deborah Evelyn, 33. "Acho que um dos motivos
do sucesso deste meu casamento é justamente a experiência que trago dos
anteriores." Deborah, mãe da filha caçula de Denis, convive sem maiores
problemas com os outros dois filhos dele.
Cristina Granato![]() |
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Deborah Evelyn, atriz, e Denis Carvalho, diretor de TV
Ele (sétimo casamento): "Um dos motivos do sucesso do nosso casamento é a experiência que tive com os anteriores" |
Não é que as expectativas tenham mudado, pois, em geral, quem se casa
continua achando que é para sempre. O que decretou o fim do "até
que a morte os separe" foi a pura e simples prática, traduzida no
maremoto de separações que varre a paisagem conjugal em quase toda parte.
Nos Estados Unidos, 60% dos casamentos acabam em divórcio. Na Inglaterra,
são 40%. No Brasil, a conta também não pára de subir. Segundo dados do
IBGE, para cada nove casamentos realizados em 1985 um casal se divorciava.
Dez anos depois, a proporção era muito maior: um divórcio para cada quatro
uniões. Diante desse furor separatório, não espanta que a secular instituição
passe por uma espanada geral e que dela saia a constatação de que casamento
acabado não é sinônimo de casamento infeliz. Muito bem alojados nesse
desvio da visão tradicional da felicidade conjugal, Milena Santoro, dentista
paulistana de 40 anos, e Walter Lima, 45, gerente de banco, são felizes
há cinco anos no segundo casamento, mas guardam, ambos, boas lembranças
do primeiro. Consideram que foram felizes –
por um tempo. "Eu queria filhos, ele não", comenta a dentista
sobre o primeiro marido. "Passamos a viver em mundos diferentes depois
que minha ex se tornou uma executiva de sucesso", alega Lima.
Cristina Granato![]() |
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Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça, atores (com o filho Mauro)
Ele (primeiro casamento): "Hoje em dia a gente ouve mais, valoriza o entendimento" |
Outra torcida visível na corda matrimonial é o peso da afinidade na lista
de condições essenciais para que um casal resolva, como se dizia, se enforcar.
Ou seja: a nova geração se casa por amor, como é praxe, mas faz questão
de outras coisas. Quer também a amizade, a existência de interesses comuns.
Reage, assim, ao longo reinado da romântica noção da "paixão entre
opostos", que contribuiu para a formação de uma legião de casais
incompatíveis. "Cerca de 95% desses casamentos nascem fadados a acabar",
calcula o psicanalista Flávio Gikovate, 56 anos, casado há 23 pela segunda
vez. Diretor do Instituto de Psicoterapia de São Paulo, Gikovate atendeu
7.000 casais em 32 anos de clínica. "Ninguém
consegue passar muito tempo convivendo trinta dias por mês, doze meses
por ano, com quem não compartilha dos mesmos interesses, hábitos e valores",
afirma. "O casamento entre duas pessoas que também são amigas costuma
ter duração maior."
Nélio Rodrigues![]() |
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Lúcia Tunes e Saul Vilela, de Belo Horizonte
Ele (segundo casamento): "Ao contrário da minha mulher, tenho prazer em cozinhar. Então, preparo as refeições" |
Gota d'água – Tendo afinidades e
interesses comuns desde os tempos do namoro, o casal, quando vai morar
junto, está mais bem equipado para escapar dos perigos que assombram o
casamento. Alguns bichos-papões existem desde que o mundo é mundo. A infidelidade,
como bem sabem Hillary Clinton e toda uma magoada legião de traídos e
traídas, é um deles. "Queria muito que meu casamento desse certo.
Tanto que, mesmo depois de descobrir que meu marido saiu com outra, continuei
com ele três anos. Mas não conseguia esquecer a humilhação e vivia chorando
pelos cantos", lembra a dentista paulista Wania Serrão, de 32 anos.
Seu segundo marido, o arquiteto Paulo Rubens, 37, demorou certo tempo
para conquistar a confiança de Wania. "O que solidificou nosso relacionamento
foram os problemas que tivemos de enfrentar: separação, filhos meus e
dela, dinheiro", diz Rubens. Para a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora
do Projeto Sexualidade, do Hospital das Clínicas de São Paulo, e casada
há 25 anos com "o homem da minha vida", "a traição em geral
não é causa, é conseqüência. Existe uma insatisfação acumulada, e ela
é a gota d'água que faltava para o casal se separar". Nos tempos
da união indissolúvel, a mulher traída engolia em seco e continuava casada.
Hoje em dia, nem ele nem ela costumam adotar a pose compreensiva de Hillary
(a não ser que forças maiores, como a ambição política do casal Clinton,
colaborem para a reaproximação). "Pode até haver reconciliação, mas,
nos momentos de frustração, a pessoa traída vai voltar a puxar o assunto",
avisa Carmita. No mesmo time dos arrasa-casamentos tradicionais, só que
com poder de fogo menos fulminante, estão a violência, física e verbal,
e o ciúme – excessivo, claro, daqueles que
viram doença e requerem tratamento médico, porque, como todo mundo sabe,
em dose razoável o ciúme é natural e até necessário na vida a dois.
Antônio Milena![]() |
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Wania Serrão e Paulo Rubens, de São Paulo
Ele (segundo casamento): "Leva tempo conquistar a confiança de quem sofreu uma traição" |
Ele prega botões – Há mudanças profundas
na sociedade que têm muita influência sobre o relacionamento dos casais.
Uma dessas alterações é a reviravolta no papel que a mulher desempenha.
Atualmente, 18% das famílias brasileiras são mantidas por mulheres que
sustentam seus filhos e não devem satisfação a ninguém, muito menos a
um marido. Mesmo nas famílias em que o homem é a principal fonte de renda,
a participação feminina no orçamento doméstico cresceu. Em todo o mundo,
elas são 40% da força de trabalho. No Brasil, de 1976 a 1997, o número
de mulheres entre 20 e 25 anos que auxiliam no orçamento doméstico triplicou,
saltando de 7% para 21%. Elas também estudam mais e já superaram os homens
em todos os graus do ensino brasileiro, incluindo o universitário. "Estamos
vivendo a maior transformação na sociedade e no mercado de trabalho vista
neste século", garante o economista Neri, do Ipea. Uma mudança desse
porte teria obrigatoriamente de se refletir na vida conjugal.
O resultado é que os casais hoje têm idéias que seriam consideradas ultrajantes há algumas décadas. Ao decidir se casar com o arquiteto Saul Vilela, 48 anos, em meados dos anos 80, a produtora cultural Lúcia Tunes, 35, compareceu a um cartório de Belo Horizonte e só – ao contrário das mocinhas românticas que andam por aí, não fez a menor questão de véu e grinalda. "Para ficar junto não é necessária a encenação de uma cerimônia religiosa", diz Lúcia. "Vamos ficar um ao lado do outro enquanto quisermos, e não até que a morte nos separe." Dentro de casa, Lúcia e Vilela fazem coisas que seus pais não faziam. Não é raro Lúcia chegar do trabalho e encontrar o jantar preparado pelo marido. "Eu cozinho com prazer. Que mal há em preparar as refeições?", comenta Vilela. Também é ele quem prega botões e sai com as crianças no fim de semana, enquanto Lúcia bate papo com as amigas. Lúcia divide com o marido o pagamento das contas do supermercado, a compra das roupas dos filhos, jantares e viagens. "Não é porque ele é homem que tem de arcar com todas as despesas", diz ela. Parece uma afirmação banal, mas isso ainda soa como heresia para a maioria das mulheres da geração anterior. Muitas das que vivem no conforto financeiro da classe média alta, então, nem é bom falar. Essas queriam e até hoje querem ser sustentadas pelo marido sem mover uma palha. Não admitem a idéia de ir ganhar a vida lá fora. E, em casa, quem pega na vassoura e encosta a barriga na pia, no lugar delas, é a santa da empregada. Sinal dos tempos, esse tipo de atitude é visto hoje como coisa arcaica.
Claudio Rossi![]() |
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Sandra Wakenhut e David Dalmau, de São Paulo
Ele (primeiro casamento): |
O sexo do começo – Um dos pontos principais
do relacionamento é a maneira como os casais lidam com o prazer sexual.
No passado, era comum o homem escolher uma mulher para casar e outra para
realizar suas fantasias sexuais. Nessa visão, família e prazer na cama
não tinham nada em comum. Hoje, o casal sabe que as duas coisas têm, sim,
de andar juntas. Uma pesquisa sobre satisfação no casamento feita há dois
anos pelo Instituto Paulista de Sexualidade apontou que 85% das mulheres
consultadas consideravam o orgasmo fundamental para a satisfação no casamento.
Foram entrevistadas 200 mulheres, universitárias e diplomadas, com idade
entre 18 e 60 anos. "O discurso feminino mudou e está cada vez mais
próximo do masculino", afirma o psicólogo Oswaldo Rodrigues, casado
há seis anos, coordenador da pesquisa. "Muitas mulheres ainda têm
dificuldade para chegar à realização sexual, mas elas já conquistaram
independência suficiente para brigar pelo seu prazer", afirma ele.
Edson Varas![]() |
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Jussara Schmitt, de Porto Alegre, e Miguel Decaro, de Santa Cruz do Sul
Ele (segundo casamento): "A rotina ajuda a desmanchar o casamento" |
Edson Varas![]() |
Independência é palavra-chave nessa mudança de discurso das mulheres.
Segundo a psicóloga e terapeuta sexual Aparecida V. Favoreto, há seis
anos no segundo casamento, antigamente as mulheres não ousavam reclamar
do parceiro porque dependiam dele para tudo. "Hoje, quanto mais independente
a mulher é, mais valor dá ao prazer no sexo", diz. Não é um aprendizado
fácil. "Culturalmente, não se ensina às mulheres como chegar ao orgasmo.
Pelo contrário, elas não podem nem se tocar na região genital", acrescenta
Aparecida. Falar sobre o assunto com o parceiro ainda é tarefa delicada,
visto que, para a maioria dos homens, falta de orgasmo seria um problema
única e exclusivamente da mulher. "Só quem reconhece o direito da
parceira ao prazer não se sente ameaçado e consegue debater essa questão
com mais naturalidade, porque sabe que pode ajudar", avalia o psicólogo
Rodrigues. A artista gráfica paulista Sandra Wakenhut, 24 anos, diz que
seu marido, o artista plástico David Dalmau, 36, não só entende seus desejos
sexuais como os estimula. "Temos um relacionamento bem franco, conversamos
sobre tudo e discutimos sempre a importância do sexo", diz Sandra,
que vive com Dalmau há três anos. "Cultivamos o mesmo fogo do início
do nosso relacionamento. Por ser mais experiente, ele me ensina muitas
coisas", diz. O casal diz sentir prazer em sair juntos, dançar, badalar
em grupo com amigos solteiros, ir a festas e bares. Eles não costumam
fazer programas separados, não por ciúmes, mas por gostarem da companhia
um do outro. "Nós nos divertimos muito assim", diz Sandra.
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Discutir o fundamental – Evidentemente, em muitas pessoas – homens, principalmente – essas mudanças de papéis causam arrepios. Um estudo feito por sociólogos e antropólogos da Universidade de Brasília (UnB) sobre violência conjugal mostrou que 80% dos homens agressores não aceitam com facilidade os novos padrões de comportamento feminino, e que 10% das próprias mulheres resistem a eles. "A maioria dos homens ainda está apegada a valores tradicionais", diz a professora titular de antropologia da UnB Lia Zanotta Machado, há quatorze anos no terceiro casamento, uma das autoras do livro Violência, Gênero e Crime no Distrito Federal. "Muitos homens não conseguem conviver com a persistência da parceira em buscar o próprio prazer", explica Lia. Os homens, na avaliação da professora, resistem mais às mudanças porque se identificam mais com os valores tradicionais. Eles estão assistindo, boquiabertos, ao desabamento dos valores que aprenderam durante toda a infância e adolescência. As mulheres disputam de igual para igual as mesmas vagas de emprego. Tomam-lhes o papel de provedores econômicos do lar e de autoridade máxima frente aos filhos. Ainda por cima, querem sexo de qualidade, embora muitas vezes tenham só uma vaga idéia de como alcançá-lo. Por melhor que seja a intenção do homem, não é fácil aceitar tudo isso de uma vez só. Não se pense, porém, que a mulher ganha todas nesta onda de transformações. "O sucesso profissional do parceiro, por exemplo, pesa muito. Se ela ganha bem, quer que o homem ganhe mais", alerta Ailton Amélio da Silva, 50 anos, casado há 23, professor de psicologia da Universidade de São Paulo. Quando as diferenças salariais disparam, o casamento, via de regra, treme nas bases.
Diante de tanta mudança, os especialistas estão tratando de rever as fórmulas estabelecidas para um matrimônio feliz. Para começo de conversa, esqueça a orientação, continuamente martelada por terapeutas de casais à moda antiga, de que os parceiros têm de "discutir a relação" até a exaustão. Hoje em dia, a recomendação é: questione o que for realmente fundamental. As picuinhas menores, esqueça. Melhor agüentar um marido que espalha o jornal pela casa, ou uma mulher que fala demais ao telefone, do que se queixar dessas coisas o tempo todo. "Não adianta o marido ou a mulher reclamar um milhão de vezes", alerta o professor Ailton. "Ninguém convence ninguém argumentando que a casa está uma bagunça. Só muda quem percebeu por si próprio que é melhor mudar."
Falar é fácil, dirão os incomodados. De fato, engolir contrariedades é uma parte meio indigesta da vida a dois. Mas, como marido e mulher passam atualmente pouco tempo juntos, não é difícil ter esquecido, à noite, o motivo da irritação no café da manhã. Importante, antes de tudo, é não elevar coisinhas do dia-a-dia ao patamar das questões importantes na convivência do casal. "Despejar um caminhão de lixo em cima do outro só ajuda a destruir, nunca a reconstruir uma relação", diz a sexóloga e escritora Maria Helena Matarazzo, 59 anos, divorciada após um casamento que durou quinze. "É melhor conversar com a amiga, a mãe, o terapeuta, filtrar a comunicação antes de chegar ao parceiro", ensina. Trata-se do tipo de atitude que muita gente aprende na prática, mas só a duras penas. "Ninguém escapa do desgaste com os pequenos aborrecimentos", afirma, categórica, a atriz Rosamaria Murtinho, 65 anos, que, por causa de contrariedades acumuladas, se separou do marido de mais de vinte anos, o ator Mauro Mendonça, 68. Ficaram afastados dez anos e, há cinco, voltaram a viver juntos – em quartos separados. "Descobrimos que não queríamos refazer a vida com novos parceiros porque o desgaste com a outra pessoa seria igual", explica ela. "Hoje em dia, a gente ouve mais, escuta o que o outro tem a dizer, valoriza o entendimento", diz Mendonça.
"Casar é conjugar" – Discutir menos é uma boa idéia, claro. Mas isso não significa entrar em casa mudo e ir dormir calado. Discutir faz parte do cotidiano, e as questões em pauta, entra geração, sai geração, são sempre as mesmas: ter ou não ter filho, prazer sexual, divisão de tarefas domésticas, a maneira de educar as crianças. "Casei pela primeira vez aos 25 anos e acho que não deu certo porque crescemos separadamente, com pouca cumplicidade, cada um para um lado", analisa o carioca Luiz Fernando Maya, 63 anos, que se casou novamente, com a engenheira Viviene Demaison, 49. Luiz Fernando e a primeira mulher, Carmem, distanciaram-se tanto que nem brigar, brigaram. Separaram-se de comum acordo, e ele até hoje presta orientação jurídica para a empresa dela. Bater na tecla da cumplicidade infiltra outro componente subversivo no velho manual da vida a dois – aquele que defende com unhas e dentes o sempre exaltado "espaço individual" de cada um. Individualidade é bom e todo mundo gosta, mas, num casamento, conviver é fundamental. Um tem de saber da vida do outro. Tem de conversar sobre dúvidas e problemas, trocar idéias sobre assuntos que estão no jornal, comentar livros e filmes, contar fofocas, enfim, conhecer-se e sentir prazer na companhia mútua. "Ter seu próprio espaço, preservar seu próprio eu, ter autonomia, tudo isso ganhou tanta força que acabou corroendo o casamento", explica Terezinha Féres Carneiro, 54 anos, casada há 26, professora titular de psicologia da Pontifícia Universidade Católica, a PUC, do Rio. "Casar é conjugar. Boa é a relação em que a autonomia e os gostos de cada um são preservados, mas com espaço para viver a dois", afirma.
Tem quem só consiga isso apelando para a novíssima ordem conjugal – aquela em que cada um mora de um lado. Jussara Schmitt, 42 anos, dona de uma agência de publicidade, está casada há dois anos com o piloto aposentado uruguaio Miguel Decaro, 49. Ela mora em Porto Alegre, enquanto ele vive a 170 quilômetros de distância, em uma chácara em Santa Cruz do Sul. Falam-se todos os dias pelo telefone, mas olho no olho mesmo só aos sábados e domigos – e estão contentíssimos assim. Decaro rompeu um casamento de dezessete anos em Montevidéu para se unir a Jussara, em 1997, mas nenhum dos dois abriu mão de seus projetos: ele, de viver no campo; ela, de tocar seus negócios na capital gaúcha. "Já fiquei tentada a mudar para a chácara e ficar mais tempo perto de Miguel, mas ele foi contra. Achou que, se eu ficasse longe do trabalho, isso poderia destruir o casamento", afirma ela.
Até gente que nunca se preocupou muito com o tema está voltando sua atenção para a revolução conjugal. Um dos recém-convertidos ao assunto é o sociólogo Anthony Giddens, que tem entre suas credenciais a de conselheiro do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e de ideólogo da chamada terceira via, que propõe um meio-termo entre capitalismo e socialismo – mas que, em matéria de análises matrimoniais, era um estranho no ninho. Em seu livro A Transformação da Intimidade, que virou best-seller na Inglaterra, Giddens afirma que as pessoas estão em busca de relações mais transparentes, baseadas em confiança e lealdade mútuas. Os novos casamentos, em sua opinião, estão escorados na qualidade da relação afetiva e sexual do casal. Esse novo contrato que rege a vida comum está sendo escrito, cláusula por cláusula, pelo próprio casal, sem interferência de dogmas ou sacramentos religiosos e sem a chancela formal da lei civil. Na visão do sociólogo, o velho chavão de que mulheres só querem amor e homens, só sexo é coisa do passado. "Essa frase já pode ser invertida sem o menor constrangimento", diz. "Hoje, os dois querem as duas coisas."
Válvula de escape – Mais afinidade, sexo com mais prazer, compreensão, paciência – tudo o que faz parte do novo casamento está contabilizado, tintim por tintim, no Love Lab, ou "laboratório do amor", que o professor Gottman instalou na Universidade de Washington e onde pesquisa há mais de duas décadas como funcionam os casamentos. O tal laborarório já alojou cerca de 2.000 casais em temporadas de dois dias a um mês, cercados de objetos trazidos de casa, de forma a reconstituir, do modo mais próximo possível, sua vida a dois no mundo lá fora. Munidos de aparelhos médicos, câmaras, vídeos e computadores, Gottman e sua equipe mediram desde a freqüência cardíaca até a intensidade do suor nas mãos de homens e mulheres em diversas situações e a partir daí obtiveram o que chamam de "dados científicos" sobre a relação conjugal. Prova de que não adianta um querer mudar o outro: 65% dos homens respondem negativamente a alguma crítica ou reclamação da mulher. Prova de que espaço individual demais atrapalha: 80% dos divorciados alegam que o casamento acabou porque cada um foi para o seu lado e se perdeu a intimidade. Gottman coletou dados curiosos. Veja este: em 75% das vezes é a mulher quem traz à tona as polêmicas conjugais.
De um modo geral, quem estuda e pesquisa o assunto casamento acha que as mudanças que estão acontecendo agora, em vez de enfraquecer, vão, isso sim, reforçar as relações conjugais sólidas e duradouras. Os indícios são vários. As pessoas estão se casando mais tarde, quando estão mais amadurecidas, já moraram sozinhas e convivem há algum tempo com o parceiro. Mais importante ainda: à medida que os casamentos acabam e cada vez mais homens e mulheres envelhecem sozinhos, mais tende a se reforçar a vontade de que o casamento dure. E, se durar, depois de passar pelo que passou, será com base em uma relação de mais companheirismo, entendimento e prazer – uma espécie de válvula de escape para as tensões que atazanam a vida de todo mundo. "O casamento sempre foi um ponto de apoio para o homem. Talvez tenha andado em crise justamente porque ficou difícil fazer a relação servir de apoio para a mulher também", observa Décio Novaes Ferro, 40 anos, especialista em recursos humanos, casado há vinte. "Mas quem passa o dia lutando por seu espaço no escritório só pode querer um lar, doce lar à noite", completa. Sendo assim, casadoiros em potencial, continuem tentando, sempre confiando que este, sim, vai ser definitivo.
Elas descasam porque:"Ele não me deixava sair sozinha, trabalhar
ou estudar" "A convivência foi ficando cada vez mais cansativa"
"Acabou o amor, o encantamento, o respeito
e a paixão" "Não nos beijarmos mais foi o início do fim"
"Eu comecei a progredir na profissão e ele
não deu conta do meu brilho" "Fui traída" |
Eles descasam porque:"Nunca achei que casamento fosse duradouro.
Ninguém é de ninguém" "Ela queria comandar demais, eu aceitei e
depois não agüentei" "Morávamos em cidades separadas"
"Dificuldades financeiras acabaram com o respeito
mútuo" "Ela quis morar na casa da mãe, com toda a
família" "Casamos um pouco rápido e cedo demais"
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Com reportagem de
Rachel Campello, Gisela Sekeff e
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