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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A superpotência
que só causa tristeza
A continência de
Kerry, as denúncias
de Michael Moore e a louca idéia de
um ataque que pegaria o Brasil
O.k., John Kerry, a esperança é
você mas precisava bater continência? O.k., você
é o que se tem, como líder do movimento de libertação
da empulhação da era Bush mas precisava apresentar-se
à convenção do Partido Democrata dizendo, à
maneira militar: "Eu sou John Kerry, e estou me apresentando para
servir" (No original, "I am John Kerry and I am reporting for duty")?
A sombria, desconcertante e decepcionante verdade é que...
sim, precisava.
Aparecer na convenção democrata
batendo continência foi o golpe de cena que Kerry escolheu
para se contrapor ao adversário e isso é de
doer de tristeza. Contrapor-se? Ora, o adversário é
dos presidentes mais seduzidos pela força, bem como pelos
ademanes militares, da história recente dos Estados Unidos.
George W. Bush vive proclamando, com a boca cheia, que é
o presidente de um país "em guerra". Diz isso com gozo que
lhe vem das entranhas. No capítulo dos ademanes, chegou ao
paroxismo no célebre episódio em que desceu fantasiado
de militar num porta-aviões, sob a faixa "missão cumprida",
para saudar a soldadesca.
O adversário de um presidente desses,
cujos delírios tiveram por resultado os atoleiros do Iraque
e do Afeganistão, o sacrifício inútil de vidas
americanas e estrangeiras, a alienação dos aliados
e o aumento, para níveis talvez inéditos, da hostilidade
aos americanos mundo afora, deveria, segundo qualquer criança
deduziria, personificar seu exato contrário. Deveria evitar
o machismo valentão e riscar do programa a menor tentação
de brincar de militar. E, no entanto, Kerry chega batendo continência!
Ele não se contrapõe ao outro. Cola nele. Eis o grande
paradoxo da atual campanha. Não é só de dobrar
é de morrer de tristeza.
Mais triste ainda é que, sob o ponto
de vista de estratégia eleitoral, Kerry está certo.
Boa parte do eleitorado americano, infantilizada pelos discursos
primários, desnorteada pela manipulação dos
fatos, tonta pelos alertas laranja, continua embalada na ilusão
de que Bush, no quesito "segurança", faz trabalho aceitável.
Para não virar um candidato café-com-leite como George
McGovern, que em 1972, por ser honesto em relação
à Guerra do Vietnã, foi derrotado por Richard Nixon,
numa das maiores lavadas da história americana, Kerry bateu
continência. É triste, profundamente triste.
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É bom, mas... Mesmo quem gosta e é
a favor faz restrições a Fahrenheit 11 de Setembro,
o filme de Michael Moore sobre a Presidência Bush. Sempre
haverá um "é parcial", "é manipulador" a acompanhar
a apreciação. Parcial é, nem quer ser outra
coisa. Manipulador... Às vezes, mas não tanto quanto
o próprio governo Bush. Bem pesadas as coisas, há
no filme mais verdades do que inverdades, mais julgamentos pertinentes
do que impertinentes.
Fiquemos com dois. O primeiro é o tom
de escândalo com que, logo na abertura, o filme se refere
à eleição de Bush. O sentimento não
pode ser outro. A fraude da Flórida, coonestada pela Suprema
Corte, ficará como uma mancha na crônica eleitoral
americana. O espantoso não é que o filme volte a insistir
no assunto. Espantoso é que só o filme o faça.
Espantoso é que não se tenha levantado em torno dele
clamor nacional. A eleição de Bush é um escândalo
que, se não tem a proporção de um Watergate,
chega perto.
O segundo é a permissão especial
para que os numerosos membros da família Bin Laden que se
encontravam nos Estados Unidos deixassem o país, dias depois
dos atentados de 11 de setembro. Vá lá... Concedamos
que isso, ao contrário do que insinua o filme, nada tenha
a ver com os interesses financeiros da família Bush, associada
aos Bin Laden em negócios de petróleo. Mas, pelo menos,
como diz também o filme, eles deveriam ter sido ouvidos quanto
ao paradeiro do parente. Até o inspetor Clouseau pensaria
em começar as investigações por aí.
Michael Moore levanta questões que
a gloriosa imprensa americana, imersa num de seus mais ingratos
momentos, deixou passar. É triste.
• • •
Afeganistão? Mas existe um lugarzinho,
na América do Sul, onde se encontram as fronteiras de Brasil,
Argentina e Paraguai, que nos serve muito bem. Poderíamos
começar a retaliação por ali.
Não é ficção.
Houve no governo americano, segundo consta do relatório da
comissão especial que investigou seu procedimento depois
do 11 de Setembro, quem sugerisse que, em vez do Afeganistão,
os EUA atacassem a chamada Tríplice Fronteira. A revista
Newsweek identifica o autor da sugestão no subsecretário
da Defesa, Douglas Feith. Marines em Foz do Iguaçu, bombas
sobre a usina de Itaipu, o governo brasileiro na contingência
de dar uma resposta militar à superpotência... Escapamos
de boa. O fato de semelhante ação ter sido cogitada
por um alto funcionário do governo de Washington dá
idéia da febre malsã que tomou conta da superpotência.
É profundamente triste.
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