Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A superpotência
que só causa tristeza

A continência de Kerry, as denúncias
de Michael Moore e a louca idéia de
um ataque
que pegaria o Brasil

O.k., John Kerry, a esperança é você – mas precisava bater continência? O.k., você é o que se tem, como líder do movimento de libertação da empulhação da era Bush – mas precisava apresentar-se à convenção do Partido Democrata dizendo, à maneira militar: "Eu sou John Kerry, e estou me apresentando para servir" (No original, "I am John Kerry and I am reporting for duty")? A sombria, desconcertante e decepcionante verdade é que... sim, precisava.

Aparecer na convenção democrata batendo continência foi o golpe de cena que Kerry escolheu para se contrapor ao adversário – e isso é de doer de tristeza. Contrapor-se? Ora, o adversário é dos presidentes mais seduzidos pela força, bem como pelos ademanes militares, da história recente dos Estados Unidos. George W. Bush vive proclamando, com a boca cheia, que é o presidente de um país "em guerra". Diz isso com gozo que lhe vem das entranhas. No capítulo dos ademanes, chegou ao paroxismo no célebre episódio em que desceu fantasiado de militar num porta-aviões, sob a faixa "missão cumprida", para saudar a soldadesca.

O adversário de um presidente desses, cujos delírios tiveram por resultado os atoleiros do Iraque e do Afeganistão, o sacrifício inútil de vidas americanas e estrangeiras, a alienação dos aliados e o aumento, para níveis talvez inéditos, da hostilidade aos americanos mundo afora, deveria, segundo qualquer criança deduziria, personificar seu exato contrário. Deveria evitar o machismo valentão e riscar do programa a menor tentação de brincar de militar. E, no entanto, Kerry chega batendo continência! Ele não se contrapõe ao outro. Cola nele. Eis o grande paradoxo da atual campanha. Não é só de dobrar – é de morrer de tristeza.

Mais triste ainda é que, sob o ponto de vista de estratégia eleitoral, Kerry está certo. Boa parte do eleitorado americano, infantilizada pelos discursos primários, desnorteada pela manipulação dos fatos, tonta pelos alertas laranja, continua embalada na ilusão de que Bush, no quesito "segurança", faz trabalho aceitável. Para não virar um candidato café-com-leite como George McGovern, que em 1972, por ser honesto em relação à Guerra do Vietnã, foi derrotado por Richard Nixon, numa das maiores lavadas da história americana, Kerry bateu continência. É triste, profundamente triste.

• • •

É bom, mas... Mesmo quem gosta e é a favor faz restrições a Fahrenheit 11 de Setembro, o filme de Michael Moore sobre a Presidência Bush. Sempre haverá um "é parcial", "é manipulador" a acompanhar a apreciação. Parcial é, nem quer ser outra coisa. Manipulador... Às vezes, mas não tanto quanto o próprio governo Bush. Bem pesadas as coisas, há no filme mais verdades do que inverdades, mais julgamentos pertinentes do que impertinentes.

Fiquemos com dois. O primeiro é o tom de escândalo com que, logo na abertura, o filme se refere à eleição de Bush. O sentimento não pode ser outro. A fraude da Flórida, coonestada pela Suprema Corte, ficará como uma mancha na crônica eleitoral americana. O espantoso não é que o filme volte a insistir no assunto. Espantoso é que só o filme o faça. Espantoso é que não se tenha levantado em torno dele clamor nacional. A eleição de Bush é um escândalo que, se não tem a proporção de um Watergate, chega perto.

O segundo é a permissão especial para que os numerosos membros da família Bin Laden que se encontravam nos Estados Unidos deixassem o país, dias depois dos atentados de 11 de setembro. Vá lá... Concedamos que isso, ao contrário do que insinua o filme, nada tenha a ver com os interesses financeiros da família Bush, associada aos Bin Laden em negócios de petróleo. Mas, pelo menos, como diz também o filme, eles deveriam ter sido ouvidos quanto ao paradeiro do parente. Até o inspetor Clouseau pensaria em começar as investigações por aí.

Michael Moore levanta questões que a gloriosa imprensa americana, imersa num de seus mais ingratos momentos, deixou passar. É triste.

• • •

Afeganistão? Mas existe um lugarzinho, na América do Sul, onde se encontram as fronteiras de Brasil, Argentina e Paraguai, que nos serve muito bem. Poderíamos começar a retaliação por ali.

Não é ficção. Houve no governo americano, segundo consta do relatório da comissão especial que investigou seu procedimento depois do 11 de Setembro, quem sugerisse que, em vez do Afeganistão, os EUA atacassem a chamada Tríplice Fronteira. A revista Newsweek identifica o autor da sugestão no subsecretário da Defesa, Douglas Feith. Marines em Foz do Iguaçu, bombas sobre a usina de Itaipu, o governo brasileiro na contingência de dar uma resposta militar à superpotência... Escapamos de boa. O fato de semelhante ação ter sido cogitada por um alto funcionário do governo de Washington dá idéia da febre malsã que tomou conta da superpotência. É profundamente triste.

 
 
 
 
topovoltar