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Arte
Portinari por inteiro
Um catálogo oferece uma
visão
completa da obra do mais célebre
pintor brasileiro

Lucila Soares
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Nome central do modernismo brasileiro,
Cândido Portinari (1903-1962) foi e continua sendo um artista
polêmico. Alguns o consideram um gênio, outros, um pintor
sem personalidade. Fãs e detratores jamais dispuseram, contudo,
de uma visão de conjunto de sua obra. Daí a importância
do Catálogo Raisonné que será lançado
em setembro, durante a Bienal de São Paulo. São cinco
volumes que somam quase 2.000 páginas
e serão vendidos em conjunto por 2.000
reais. Como todo catálogo raisonné, trata-se de um
compêndio analítico, uma fonte de referência
completa na qual estão listados cronologicamente e descritos
em detalhes todos os trabalhos de autoria comprovada legados por
um artista. No caso de Portinari, são 4.881
obras, a começar por um retrato do compositor Carlos Gomes
que ele pintou quando tinha 11 anos. "O desafio de todo estudioso
é olhar Portinari sem lente de aumento ou de redução,
ou seja, sem preconceitos", diz Paulo Herkenhoff, diretor do Museu
Nacional de Belas-Artes e ex-curador do Museu de Arte Moderna de
Nova York, o MoMA. "Para isso, o novo catálogo é uma
ferramenta inestimável."
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| Cândido Portinari: sempre polêmico |
Portinari foi efetivamente um
personagem ímpar. Além da controvérsia sobre
suas qualidades técnicas, foi alvo de um tiroteio por causa
de suas posições políticas. Comunista convicto,
retratou como ninguém o povo brasileiro e também alguns
dos maiores expoentes da elite do país. Para reconstituir
e documentar essa trajetória única, a equipe do Projeto
Portinari partiu praticamente do nada. Em 1979, dezessete anos após
a morte do artista, suas obras não haviam sido catalogadas,
os livros sobre ele estavam esgotados e não se sabia o paradeiro
da maioria de seus trabalhos. A iniciativa de resgatar sua obra
partiu de seu filho, João Cândido, que até então
investira numa bem-sucedida carreira de matemático. Sob seu
comando, a equipe do projeto compulsou mais de 30.000
documentos, entre cartas, bilhetes e reportagens publicadas em jornais
e revistas. Ela colheu mais de 100 depoimentos, visitou colecionadores
no Brasil e em outros vinte países e até fez campanhas
institucionais para localizar obras desaparecidas. E havia outros
desafios. Por exemplo, estabelecer critérios de autenticidade
e construir uma cronologia. Para se ter uma idéia, no cômputo
geral do levantamento, são cerca de 2.500
obras sem data e mais de 1.000 sem assinatura.
O número de obras comprovadamente falsas chega a 200 e há
outras 400 classificadas sob o rótulo "em estudo". Parte
delas pode, no futuro, ser incluída nas atualizações
que já se planejam para o catálogo, cuja confecção
contou com recursos de 1,8 milhão de reais da Petrobras.
Desse esforço resultam
histórias como a do Baile na Roça, que ilustra
esta reportagem. Pintada no início dos anos 20, a tela foi
a primeira na qual Portinari retratou uma cena brasileira. Depois,
perdeu-se seu rastro, restando dela apenas uma fotografia em preto-e-branco,
que foi exibida na televisão em 1986. No dia seguinte, chegou
ao projeto, por telefone, a informação de que a tela
estava em poder de uma rica família carioca, cujo patriarca
havia morrido recentemente. "Achei que era um trote", conta João
Cândido. Não era. O quadro fora encontrado num galpão,
com a tela virada para a parede. O trabalho do Projeto Portinari
é também uma façanha brasileira. Existem em
todo o mundo catálogos raisonnés de cerca de 1.000
artistas plásticos. É muito pouco, considerando-se
que nos catorze volumes do Benezit, o grande dicionário
mundial de pintores, escultores, desenhistas e gravuristas, estão
listados 170.000 nomes. A partir de agora,
Portinari faz parte daquele pequeno time. Caudaloso e polêmico
como sempre foi.
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