Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Arte
Portinari por inteiro

Um catálogo oferece uma visão
completa da obra do mais célebre
pintor brasileiro


Lucila Soares

 
Fotos divulgação

Café (acima), Mestiço, a primeira obra comprada por um museu, e Baile na Roça (abaixo, à dir.), que ficou sumida até 1986: retratos do Brasil


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Nome central do modernismo brasileiro, Cândido Portinari (1903-1962) foi e continua sendo um artista polêmico. Alguns o consideram um gênio, outros, um pintor sem personalidade. Fãs e detratores jamais dispuseram, contudo, de uma visão de conjunto de sua obra. Daí a importância do Catálogo Raisonné que será lançado em setembro, durante a Bienal de São Paulo. São cinco volumes que somam quase 2.000 páginas e serão vendidos em conjunto por 2.000 reais. Como todo catálogo raisonné, trata-se de um compêndio analítico, uma fonte de referência completa na qual estão listados cronologicamente e descritos em detalhes todos os trabalhos de autoria comprovada legados por um artista. No caso de Portinari, são 4.881 obras, a começar por um retrato do compositor Carlos Gomes que ele pintou quando tinha 11 anos. "O desafio de todo estudioso é olhar Portinari sem lente de aumento ou de redução, ou seja, sem preconceitos", diz Paulo Herkenhoff, diretor do Museu Nacional de Belas-Artes e ex-curador do Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA. "Para isso, o novo catálogo é uma ferramenta inestimável."

Cândido Portinari: sempre polêmico

Portinari foi efetivamente um personagem ímpar. Além da controvérsia sobre suas qualidades técnicas, foi alvo de um tiroteio por causa de suas posições políticas. Comunista convicto, retratou como ninguém o povo brasileiro e também alguns dos maiores expoentes da elite do país. Para reconstituir e documentar essa trajetória única, a equipe do Projeto Portinari partiu praticamente do nada. Em 1979, dezessete anos após a morte do artista, suas obras não haviam sido catalogadas, os livros sobre ele estavam esgotados e não se sabia o paradeiro da maioria de seus trabalhos. A iniciativa de resgatar sua obra partiu de seu filho, João Cândido, que até então investira numa bem-sucedida carreira de matemático. Sob seu comando, a equipe do projeto compulsou mais de 30.000 documentos, entre cartas, bilhetes e reportagens publicadas em jornais e revistas. Ela colheu mais de 100 depoimentos, visitou colecionadores no Brasil e em outros vinte países e até fez campanhas institucionais para localizar obras desaparecidas. E havia outros desafios. Por exemplo, estabelecer critérios de autenticidade e construir uma cronologia. Para se ter uma idéia, no cômputo geral do levantamento, são cerca de 2.500 obras sem data e mais de 1.000 sem assinatura. O número de obras comprovadamente falsas chega a 200 e há outras 400 classificadas sob o rótulo "em estudo". Parte delas pode, no futuro, ser incluída nas atualizações que já se planejam para o catálogo, cuja confecção contou com recursos de 1,8 milhão de reais da Petrobras.

Desse esforço resultam histórias como a do Baile na Roça, que ilustra esta reportagem. Pintada no início dos anos 20, a tela foi a primeira na qual Portinari retratou uma cena brasileira. Depois, perdeu-se seu rastro, restando dela apenas uma fotografia em preto-e-branco, que foi exibida na televisão em 1986. No dia seguinte, chegou ao projeto, por telefone, a informação de que a tela estava em poder de uma rica família carioca, cujo patriarca havia morrido recentemente. "Achei que era um trote", conta João Cândido. Não era. O quadro fora encontrado num galpão, com a tela virada para a parede. O trabalho do Projeto Portinari é também uma façanha brasileira. Existem em todo o mundo catálogos raisonnés de cerca de 1.000 artistas plásticos. É muito pouco, considerando-se que nos catorze volumes do Benezit, o grande dicionário mundial de pintores, escultores, desenhistas e gravuristas, estão listados 170.000 nomes. A partir de agora, Portinari faz parte daquele pequeno time. Caudaloso e polêmico – como sempre foi.

 
 
 
 
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