Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Televisão
Quero ser grande

A Record investe em novos nomes
e numa nova programação em
busca de um público qualificado


Ricardo Valladares


Divulgação
Ana Hickmann: 1 000 reais para cada centímetro de perna


Desde sua aquisição pela Igreja Universal, em 1989, a Rede Record vive em busca de uma identidade. Ela já foi uma emissora evangélica, devotada a conquistar fiéis para o culto do pastor Edir Macedo, e já foi uma emissora popularesca, decidida a inchar sua audiência com o auxílio das apelações do Cidade Alerta e da casca-grossa de um Ratinho ou de um Gilberto Barros. Agora, numa nova guinada, a Record decidiu mirar no "público qualificado". Quer fazer uma televisão que seja aceita pelas classes A e B, que atraia anunciantes e dinheiro para os cofres. A criação de programas como o Domingo Espetacular, um show de variedades "família" que estreou em abril, foi um primeiro passo nessa direção. E há mais a caminho. No ar desde 1995, o Cidade Alerta está com os dias contados. Na semana passada, ele cedeu uma hora de seu tempo para o programa Tudo a Ver, que tem o jornalista Paulo Henrique Amorim como âncora e a supermodelo Ana Hickmann como grande enfeite. Em setembro, o sangrento policial será extinto de vez, dando lugar à novela A Escrava Isaura. Outras novidades anunciadas pela Record são dois programas com o humorista Tom Cavalcante e o reality show A Grande Chance, versão brasileira de O Aprendiz, estrelado nos Estados Unidos pelo magnata Donald Trump. Nos últimos meses, a emissora investiu 60 milhões de reais para desenvolver projetos, comprar equipamentos, ampliar instalações e contratar mais de 200 pessoas.


Divulgação
Cena da nova versão de A Escrava Isaura: a Globo está de olho


Em sua busca de identidade, a Record não se envergonha de imitar. "Estamos copiando a Rede Globo em muita coisa", assume o presidente da emissora, Dennis Munhoz. De câmeras a cenógrafos, muitos profissionais dos bastidores vieram da rede carioca. O mesmo vale para algumas personalidades que aparecem na tela. Celso Freitas, por exemplo, comanda atualmente o Domingo Espetacular, mas foi o locutor oficial do Fantástico por muitos anos. Mais ousada foi a contratação do humorista Tom Cavalcante, cujo acordo com a Globo ainda estava em vigência. Para arrancá-lo da concorrente, a Record praticamente quadruplicou o salário de 80.000 reais que ele recebia e ainda lhe ofereceu a oportunidade de ampliar seus ganhos explorando o merchandising em dois programas – um talk-show diário e um humorístico semanal. Tudo indica que a emissora ainda terá de bancar uma multa pesada por rescisão de contrato, uma vez que a Globo decidiu que não vai deixar por menos a deserção do comediante. Para piorar, a novela A Escrava Isaura pode ser pivô de outra batalha entre as duas emissoras. Uma primeira versão dessa trama, baseada num romance do autor Bernardo Guimarães, foi gravada em 1976 pela Globo e tornou-se uma das novelas brasileiras mais exportadas mundo afora. A Globo já avisou que vai estudar medidas legais se considerar que a nova produção da Record é um remake de sua antiga novela. O diretor Herval Rossano, ao menos, já é o mesmo nos dois casos.

Entre as novas contratações da Record, a esfuziante modelo Ana Hickmann é vista como uma grande aposta. Pródiga com suas estrelas, que estão entre as mais bem pagas da televisão (veja quadro), a Record ofereceu 120.000 reais por mês à estreante – 1.000 reais para cada centímetro de suas pernas, que se alongam por 1,20 metro e estão entre as mais celebradas da moda nacional. Por enquanto, a tarefa de Ana é prestar consultoria de estilo aos espectadores do Tudo a Ver, mas há quem acredite que ela pode ocupar um espaço que já foi de Adriane Galisteu. Adriane andou negociando sua transferência para o SBT com Silvio Santos. Até quinta-feira passada ela ainda não havia fechado contrato e, para todos os efeitos, ainda fazia parte do elenco da Record. Se seus planos derem errado, é certo que amargará um longo período na geladeira da emissora. As gravações do É Show, que ela comandava, serão interrompidas na semana que vem e depois só reprises irão ao ar. Enquanto Adriane acerta sua saída da Record, seu ex-marido, o publicitário Roberto Justus, negocia sua participação no reality show A Grande Chance. A intenção é que ele desempenhe o papel que nos Estados Unidos coube ao empresário Donald Trump: testar e demitir, até que sobre apenas um, jovens executivos que se digladiam por um emprego. "Uma coisa é certa: meu topete é bem melhor que o do Trump", diz Justus.

Ao renovar sua programação, a Record espera emancipar-se de vez, do ponto de vista financeiro, da Igreja Universal. Uma emancipação completa obviamente não ocorrerá. Um conselho de bispos ainda se reúne periodicamente para avaliar os rumos da emissora, e uma boa fatia da programação continua destinada às atrações evangélicas. Mas, assim como essa fatia se limita atualmente à faixa da madrugada, entre 0h30 e 7h, os aportes de dinheiro da Igreja, que já foram de 10 milhões de reais por mês, são cada vez menos necessários para que o canal feche as contas. O faturamento da Record está crescendo. Neste ano, ele pode chegar aos 500 milhões de reais. "Com a casa em ordem, vamos lutar pelo nosso objetivo maior, que é tirar do SBT o segundo lugar entre os canais do país", diz Dennis Munhoz.

 



Fotos divulgação
 
 
 
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