Edição 1866 . 11 de agosto de 2004

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Memória
Cartier-Bresson, o
olho do século XX

Morre, aos 95 anos, o homem que fundou
o fotojornalismo – e também deu dimensão
artística à fotografia


Isabela Boscov


Reuters
O francês e sua Leica: "momentos decisivos"


O que torna um fotógrafo especial, e aproxima sua obra da arte, não é propriamente o que ele mostra. É o que ele . E, no século XX, poucos foram capazes de focalizar o trivial ou o factual, e enxergar neles tanta riqueza e tanto significado, quanto o francês Henri Cartier-Bresson. Um menino que carrega uma garrafa de vinho em cada braço – talvez a imagem mais célebre produzida pelo fotógrafo – é um belíssimo registro do comezinho na vida parisiense do início dos anos 50. Mas não só. É também um comentário sobre o orgulho com que uma criança participa da vida adulta, e sobre o humor com que as outras crianças (as duas meninas ao fundo) observam essa demonstração de importância. Não sem justiça, portanto, Bresson – que morreu na semana passada, aos 95 anos – ficou conhecido como "O Olho do Século", e sua agência, a Magnum, virou sinônimo de cobertura fotográfica sem rival. Estudante de arte e filho de industrial, Bresson dedicou-se, desde os anos 30, a estabelecer os contornos do que hoje se chama fotojornalismo. Em suas andanças pelo planeta, viveu um sem-fim de aventuras. Quase morreu de febre na África, escapou três vezes de campos de prisioneiros durante a II Guerra, foi membro da Resistência, e registrou, entre tantos acontecimentos marcantes, a liberação de Paris, a revolução chinesa de Mao Tsé-tung e a morte do líder indiano Mahatma Gandhi.

Só isso já bastaria para colocá-lo no panteão dos grandes. Mas Cartier-Bresson tornou-se igualmente influente pela faceta de retratista (são dele as imagens mais famosas de Jean-Paul Sartre e Albert Camus), pela subjetividade com que era capaz de dotar seus registros e pelo virtuosismo de suas composições, que calculava, literalmente, em uma fração de segundo. É o que ele chamava de "momento decisivo": o instante em que todos os elementos confluem para produzir uma imagem emblemática. O francês, além disso, só usava luz natural, sempre preservava seus enquadramentos originais e era um adepto ferrenho do preto-e-branco – assim como de sua inseparável câmera Leica. Por isso é difícil entender a indiferença com que ele passou a ver a fotografia na sua velhice, quando se tomou de amores pelo desenho. "Qualquer um com uma câmera pode ser fotógrafo", desdenhou, em 2003, à revista Newsweek. Talvez não seja mentira. Mas é verdade também que poucos teriam sido capazes, como Cartier-Bresson, de apenas olhando pelo visor de uma câmera explicar um século para ele mesmo.

 
 
 
 
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