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Memória
Cartier-Bresson, o
olho do século XX
Morre, aos 95 anos, o homem que fundou
o fotojornalismo e também deu dimensão
artística à fotografia

Isabela Boscov
Reuters
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| O francês e sua Leica: "momentos
decisivos" |
O que torna um fotógrafo especial, e aproxima sua obra da
arte, não é propriamente o que ele mostra. É
o que ele vê. E, no século XX, poucos foram
capazes de focalizar o trivial ou o factual, e enxergar neles tanta
riqueza e tanto significado, quanto o francês Henri Cartier-Bresson.
Um menino que carrega uma garrafa de vinho em cada braço
talvez a imagem mais célebre produzida pelo fotógrafo
é um belíssimo registro do comezinho na vida
parisiense do início dos anos 50. Mas não só.
É também um comentário sobre o orgulho com
que uma criança participa da vida adulta, e sobre o humor
com que as outras crianças (as duas meninas ao fundo) observam
essa demonstração de importância. Não
sem justiça, portanto, Bresson que morreu na semana
passada, aos 95 anos ficou conhecido como "O Olho do Século",
e sua agência, a Magnum, virou sinônimo de cobertura
fotográfica sem rival. Estudante de arte e filho de industrial,
Bresson dedicou-se, desde os anos 30, a estabelecer os contornos
do que hoje se chama fotojornalismo. Em suas andanças pelo
planeta, viveu um sem-fim de aventuras. Quase morreu de febre na
África, escapou três vezes de campos de prisioneiros
durante a II Guerra, foi membro da Resistência, e registrou,
entre tantos acontecimentos marcantes, a liberação
de Paris, a revolução chinesa de Mao Tsé-tung
e a morte do líder indiano Mahatma Gandhi.
Só isso já bastaria para colocá-lo
no panteão dos grandes. Mas Cartier-Bresson tornou-se igualmente
influente pela faceta de retratista (são dele as imagens
mais famosas de Jean-Paul Sartre e Albert Camus), pela subjetividade
com que era capaz de dotar seus registros e pelo virtuosismo de
suas composições, que calculava, literalmente, em
uma fração de segundo. É o que ele chamava
de "momento decisivo": o instante em que todos os elementos confluem
para produzir uma imagem emblemática. O francês, além
disso, só usava luz natural, sempre preservava seus enquadramentos
originais e era um adepto ferrenho do preto-e-branco assim
como de sua inseparável câmera Leica. Por isso é
difícil entender a indiferença com que ele passou
a ver a fotografia na sua velhice, quando se tomou de amores pelo
desenho. "Qualquer um com uma câmera pode ser fotógrafo",
desdenhou, em 2003, à revista Newsweek. Talvez não
seja mentira. Mas é verdade também que poucos teriam
sido capazes, como Cartier-Bresson, de apenas olhando pelo visor
de uma câmera explicar um século para ele mesmo.
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